Cancro do pulmão

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Cancro do pulmão

Cancro do pulmão

Os sinais de alarme, fatores de risco e principais avanços da medicina para combater esta doença muitas vezes evitável

É a segunda causa de morte por doença oncológica em Portugal e continua a ter como principal fator de risco o tabaco.

Contudo, nem tudo são más notícias.

Deixar de fumar diminui significativamente o risco de aparecimento deste tumor e as terapêuticas de última geração são francamente promissoras, permitindo um controlo cada vez maior sobre a doença.

O cancro do pulmão é o tumor mais frequente entre os homens (embora se esteja a verificar uma estabilização no aparecimento de novos casos) e a sua ocorrência tem vindo a aumentar substancialmente entre as mulheres, já ultrapassando, em alguns países desenvolvidos, o cancro da mama, como causa de morte feminina. Em Portugal, são diagnosticados, anualmente, mais de três mil novos casos, dos quais mais de metade acabam por falecer em menos de um ano.

Regra geral, o cancro do pulmão inicia-se na parede dos brônquios, ou no próprio tecido pulmonar, razão pela qual a tosse, o aumento de expectoração, a expetoração com sangue ou a falta de ar, são os primeiros sinais com que este tipo de tumor se manifesta. Contudo, sintomas gerais como a perda de apetite, a perda de peso ou um cansaço persistente antecedem, por vezes, os sintomas respiratórios anteriormente mencionados e devem ser um alerta para consultar o médico.

«Existem também casos em que o tumor é diagnosticado por sinais de disseminação noutros órgãos, como as dores ósseas, o aparecimento de nódulos debaixo da pele ou mesmo sinais que simulam um AVC (leia-se uma trombose)», explica José Duro da Costa, diretor do serviço de Pneumologia do IPO de Lisboa. «Mais raramente», prossegue, «é uma radiografia do tórax, realizada por outros motivos, que identifica o tumor».

Quanto ao perfil do paciente vulnerável a este tipo de tumor está muito bem definido e corresponde a indivíduo com mais de 50 anos e grande fumador. Na verdade, 90% dos doentes com cancro do pulmão, são grandes fumadores, existindo muito poucos tipos de cancro com uma relação causal tão evidente.

Tenha atenção a estes sintomas:

– Tosse persistente
– Expetoração com sangue
– Fadiga fora do comum sem motivo aparente
– Inchaço no pescoço e na cara
– Dificuldade respiratória
– Pneumonias ou bronquites frequentes
– Perda de peso e de apetite
– Rouquidão
– Dor persistente no peito, nos ombros ou nas costas

As mulheres correm maior risco

Os especialistas têm verificado um aumento significativo de casos de cancro do pulmão feminino. Isto porque as mulheres têm vindo a adotar hábitos sociais semelhantes aos dos homens (incluindo o de fumar), apesar de existirem outros fatores particulares implícitos neste aumento da incidência.

Um estudo norte americano confirmou que as mulheres fumadoras têm mais 2,7% de possibilidades de desenvolver um cancro do pulmão do que os homens. Para além disso, o facto delas fumarem aumenta o risco em 30%.

Uma das teorias mais sólidas, demonstrada noutra investigação norte-americana, explica a razão deste efeito pela mutação de um gene que confere à mulher uma menor capacidade de combater os efeitos tóxicos do fumo do cigarro no organismo.

O cancro do pulmão é a consequência mais trágica do hábito tabágico nas mulheres, mas é preciso não esquecer os outros problemas daí decorrentes: complicações durante a gravidez, problemas menstruais, cancro da mama e do colo do útero.

 

A importância da deteção precoce

 

Apesar de não estar demonstrado que o rastreio se traduza numa diminuição da mortalidade por cancro do pulmão, a sua deteção precoce pressupõe uma capacidade de cura que chega aos 80%. Tal deve-se, segundo Duro da Costa, ao facto do cancro do pulmão ser um tumor com uma dinâmica particular.

 

«As alterações celulares acumulam-se gradualmente ao longo de duas décadas e, subitamente, a doença instala-se numa situação, quase sempre, bastante avançada», explica o pneumologista.

«Isto deve-se a uma fase inicial de doença muito curta, que presumivelmente rondará os 3 a 6 meses», refere o especialista. «Presentemente, a TAC espiral de baixa dose e a broncoscopia de fluorescência constituem os dois meios de diagnóstico precoce mais divulgados, mas não é exequível, quer em termos económicos quer em termos de intolerância para o doente, a sua repetição em intervalos tão curtos», revela Duro da Costa.

 

«Daí a importância, apesar de tudo, de consultar imediatamente o médico aos primeiros sintomas», explica o médico. «A deteção precoce, permite encontrar tumores em estádios menos avançados, com possibilidade de cura em cerca de 80% dos casos», volta a frisar o pneumologista.

 

Tabaco é mau em todos os sentidos

O facto de cerca de 90% dos casos deste tumor se registarem em pessoas que fumam deixa muito pouco espaço para dúvidas. Está provado que o fumo dos cigarros contém agentes químicos, muitos dos quais reconhecidamente carcinogénicos, responsáveis pela danificação da estrutura genética (ADN) celular.

 

«Este dano celular que, a partir de um dado momento, é irreparável, é o responsável pelo crescimento descontrolado das células brônquicas, conduzindo, em última análise, ao aparecimento do tumor», acrescenta o pneumologista.

 

O efeito nocivo do fumo do tabaco no organismo é tão grande que, mesmo com apenas um cigarro diário, o risco de desenvolver cancro do pulmão é maior do que num não-fumador. Foi demonstrado cientificamente que cerca de 50 compostos químicos, entre os milhares que se podem encontrar no fumo do tabaco, são cancerígenos.

 

A nicotina, por si só, tem um longo historial de efeitos nocivos no organismo, produzindo um tipo de adição com efeitos semelhantes aos da cocaína e da heroína e criando uma dependência física e psicológica absoluta. A interrupção dos hábitos tabágicos provoca a síndrome de abstinência, responsável pela enorme dificuldade do seu abandono e pelas recaídas frequentes.

Pulmões com via verde

Estas são algumas das estratégias mais eficazes que, segundo as investigações realizadas até ao momento, podem reduzir o risco de desenvolver cancro do pulmão:

1. Deixe (o quanto antes) de fumar. Abandonar o tabaco possibilita a remissão dos danos já instalados. Está demonstrado que pouco tempo depois de deixar de fumar, o risco começa a diminuir. Passados 10 anos, diminui para metade e, nos anos seguintes, continua a decrescer.

2. Mantenha uma boa forma física.

As pessoas com melhor forma física têm menor risco de morrer por cancro do pulmão, mesmo se forem fumadoras. O truque está em fazer exercício intenso durante 20 ou 40 minutos, três a cinco vezes por semana.

3. Opte pelo campo. As grandes cidades favorecem o cancro do pulmão. Estudos recentes relacionaram a exposição a partículas muito pequenas (que penetram nos pulmões) provenientes dos automóveis e das fábricas, com um maior risco de desenvolver este tumor.

4. Coma frutas e verduras. O aumento da ingestão diária de frutas e verduras está associado a um menor risco de desenvolver um tumor pulmonar. Um tipo concreto de flavonóide, a quercetina, presente nas cebolas e nas maçãs, demonstrou ter um importante efeito protector perante este tipo específico de cancro.

5. Carne e gorduras debaixo de olho. Vários estudos mostraram uma relação estreita entre o consumo frequente de carne vermelha (independentemente da forma como é cozinhada mas, em particular, frita) e o aparecimento de cancro do pulmão e o mesmo acontece com a ingestão diária de outras gorduras saturadas.

Fumadores passivos

De acordo com um relatório publicado por quatro organizações europeias, «Lifting the Smokescreen: 10 reasons for a smoke free Europe», mais de 79 mil pessoas morrem anualmente na União Europeia em consequência do fumo passivo, cerca de 13 mil delas, vítimas de cancro do pulmão.

Uma das razões para isto acontecer é o facto do fumador só inalar 15% do fumo de cada cigarro, enquanto que os restantes 85% são libertados para o ambiente.

Esta investigação permitiu ainda concluir que, do total de mortes relacionadas com o fumo passivo, mais de 7 mil são causadas pela exposição ao fumo passivo no local de trabalho.

Para além disso, mulheres sujeitas ao fumo passivo, provocado pelos seus maridos, têm um risco acrescido em 20% de virem a desenvolver cancro do pulmão, enquanto que esse risco aumenta para 30% para os homens nas mesmas condições.

Como evitar situações deste tipo?

A primeira coisa a fazer é afastar-se, na medida do possível, da fonte de contaminação. Por outro lado, e apesar de não existir nenhum medicamento específico que nos proteja do fumo do tabaco, os seus efeitos nocivos podem ser paliados através de uma alimentação saudável, exercício físico e da adoção de certas medidas como ventilar adequadamente as divisões onde se tenha fumado.

Os outros culpados

Se os hábitos tabágicos estão diretamente relacionados com o risco de desenvolver cancro do pulmão, por que é que pessoas que nunca fumaram na vida também adoecem? E por que é que só 11% dos grandes fumadores acabam por o desenvolver?

Deixando de lado os fumadores passivos, que inalam o fumo dos cigarros alheios, existe seguramente uma suscetibilidade genética individual, apesar de não ser particularmente determinante neste tipo de cancro.

O que, de facto, tem uma influência muito evidente, como já demonstraram vários estudos, é a exposição a fumos provenientes da combustão de determinados óleos vegetais (indivíduos que trabalham em restaurantes), gasóleo e alcatrões. Também está provado que a exposição a uma série de substâncias, como o radão e o amianto, incrementa as possibilidades de desenvolver esta patologia.

O radão é um gás invisível e inodoro, presente naturalmente em certos solos ou rochas. Para se proteger dele (a sua presença é frequente em construções antigas), os especialistas aconselham arejar os sótãos e, no caso de suspeitar da sua presença, realizar uma medição dos seus níveis (as lojas de ferragens vendem equipamentos destinados a este fim).

O amianto é um mineral composto por fibras, que se encontra em paredes e canalizações como isolantes térmicos e ignífugos (anti-fogo), bem como em calços de travão de automóveis. É sabido que as suas fibras, se forem inaladas, são extremamente agressivas para os pulmões e para a pleura.

Está perfeitamente estabelecido que a exposição simultânea ao fumo do tabaco e ao amianto (são exemplo disso as pessoas que trabalham em construção naval, nas minas de amianto, no isolamento ou reparação de automóveis) aumenta exponencialmente o risco de desenvolver um cancro do pulmão ou da pleura.

Muito boas perspetivas de tratamento

A investigação biológica e a terapêutica do cancro do pulmão registaram avanços muito importantes nos últimos anos.

Deram início, segundo Duro da Costa, a uma nova era em que o paradigma clínico vai ser substituído pelo paradigma biológico.

«A biologia permitiu ver, com maior clareza, as principais vias e mecanismos de crescimento tumoral, e as principais consequências metabólicas dos desarranjos genéticos», explica também este especialista.

«Depois seguiram-se passos importantes na descoberta de fármacos direcionados que interferem com essas vias de crescimento tumoral, os quais possuem menos efeitos secundários que as quimioterapias atuais e com resultados bastante promissores», revela ainda José Duro da Costa.

Os tratamentos que relançam a esperança

– Erlotinib  

Trata-se de um inibidor da tirosina-quinase de última geração que actua de forma distinta da quimioterapia convencional. É administrado por via oral e o tratamento consiste na toma diária (e em casa) de um só comprimido. O tratamento tem efeitos secundários reduzidos e excelentes resultados tanto na taxa de resposta como na sobrevivência dos pacientes.

– Bevacizumab 

É um anticorpo monoclonal que impede o tumor de gerar novos vasos sanguíneos para se nutrir e, portanto, de crescer e provocar metástases. Este fármaco demonstrou já uma grande eficácia nos cancros da mama e cólon e investigações recentes em tumores do pulmão demonstraram um aumento da sobrevivência quando associado à quimioterapia convencional. Este é um dos maiores avanços ocorridos no tratamento deste tipo de cancro, nos últimos 30 anos.

Quimioterapia convencional + cirurgia

No que diz respeito à associação da quimioterapia convencional à cirurgia, também aqui os avanços têm sido significativos.

Atualmente, tem-se procurado definir a estratégia terapêutica de acordo com o perfil biológico do doente.

A análise genética permite seleccionar a combinação de fármacos mais eficaz para cada caso, o que permite personalizar o tratamento ao máximo.

Radiofrequência dá esperança aos doentes

A terapêutica do cancro do pulmão compreende três modalidades fundamentais, utilizadas quer em combinação quer isoladamente, conforme as circunstâncias. São elas a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Mas, de acordo com Duro da Costa, existem «outras terapêuticas paliativas locais, como a broncoscopia de intervenção ou a radiofrequência, que desempenham um importante papel no controlo sintomático e na prevenção de algumas complicações».

Uma equipa do Hospital de Rhode Island (EUA) demonstrou a eficácia da radioterapia em pacientes com cancro do pulmão que não podiam ser operados. Esta técnica (muito pouco invasiva) consiste na inserção de uma agulha especial que transmite correntes eléctricas de alta frequência ao tumor.

Segundo os autores do estudo, o índice de sobrevivência dos participantes foi de 78%, um ano após este tratamento, com a vantagem de poder ser realizado em ambulatório e de provocar poucos efeitos secundários. Contudo, apenas um grupo restrito de doentes pode beneficiar deste tratamento.

Texto: Madalena Alçada Baptista 
Revisão científica: José Duro da Costa (pneumologista e diretor do serviço de Pneumologia do IPO, Instituto Português de Oncologia de Lisboa)

A responsabilidade editorial desta informação é da revista

 

In : http://saude.sapo.pt/saude-medicina/medicacao-doencas/doencas/cancro-do-pulmao.html

 

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