Sim! Os enfermeiros também choram…concomitantemente, em SILÊNCIO!

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Olá caros leitores!

Pelo que tenho perscrutado via blogosfera, e bem assim, nos média, em geral, têm sido inúmeros os artigos publicados, acerca da deplorável situação em que a ENFERMAGEM se encontra actualmente no nosso país. Alguns desses mesmos artigos classificá-los-ia como alarvemente reaccionários; outros, como manifestos de indignação e revolta, ainda que, com um pouco mais de subtileza; outros, escancaradamente sarcásticos, ao ponto de se tornarem hilariantes; e ainda outros que, pela sua visão holística e louvável humanismo, emanam uma profunda mágoa e resignação.

E foram precisamente estes últimos que mais me sensibilizaram, e bem assim, conseguiram, digamos que, “tocar o meu íntimo”, induzindo-me à reflexão e, por consequência, a escrever o presente artigo, que mais não é do que, a minha perspectiva acerca do sofrimento da minha classe profissional – ENFERMAGEM.

Ainda que seja totalmente solidária com a nobre causa que todos esses artigos que li, evocam – A DIGNIDADE DA ENFERMAGEM – atribuo especial ênfase à brilhante crónica do enfermeiro e também escritor, Ricardo Fonseca:Os enfermeiros também choram”, por esta conseguir transmitir para o mundo, de uma forma simples, sui generis, algo que classifico como “A NOSSA DOR DA ALMA” no PROCESSO CUIDATIVO, ou não fosse a Enfermagem, essa mui NOBRE e DIGNA PROFISSÃO que nós enfermeiros, “abraçámos de alma e coração” e, cuja essência e especificidade é a assistência/cuidado ao ser humano, uma forma  de “SER-SE FELIZ…VIVENDO PARA O OUTRO”!…E esta é a minha visão e certamente, a dos meus pares.

Ora, não desprestigiando o valor das outras profissões, SER-SE ENFERMEIRO, é algo nada fácil!…Não é qualquer um que tem perseverança para o ser!…Quer isto dizer que para se ser enfermeiro, é indispensável o próprio deter um sem número de características, a maioria delas inatas, tais como:

  • Ser um bom gestor de emoções, que é como quem diz: TER CORAGEM! Isso mesmo!…SER EMOCIONALMENTE FORTE; ser voluntarioso, audaz, perspicaz, ser empreendedor; ter uma grande dose de sensibilidade, humildade e espírito solidário… …

E também outras que, não sendo inatas, poderão no entanto, ser cultivadas no decurso do seu exercício profissional:

  • Ser um bom ouvinte, um bom educador, um prestador de cuidados exímio; desenvolver uma enorme dedicação e espírito de sacrifício, muitas vezes infelizmente, em detrimento da sua vida pessoal/familiar e até da sua homeostasia… …

– “Essa agora!…Em que medida essas características que definem o PERFIL DO ENFERMEIRO, são diferentes das necessárias aos profissionais das outras classes?” – poderiam eventualmente os caros leitores, questionar.

– Pois é!…Acontece que para se ser enfermeiro, há uma pequena, senão grande condição sine qua non: a designada VOCAÇÃO! – E porquê VOCAÇÃO?

A resposta é efectivamente muito simples, pois repare-se:

Não é qualquer um que detém capacidade para lidar diariamente, 24 horas por dia, com o SOFRIMENTO DO OUTRO, independentemente da índole desse dito sofrimento. E aqueles que da minha classe profissional exercem competências funcionais no âmbito da prestação de cuidados directos ao doente/ família, sabem perfeitamente a que estou a referir-me.

– É suposto gerirmos as emoções, as PERDAS?…“Separar o trigo do joio”?

– Sim! É suposto(!)…mas nem vos passe pela mente que tal, seja um processo fácil de gerir, nem tampouco que seja algo passível de abjurar!

Para alguns de nós, e estou a referir-me particularmente àqueles que prestam serviço em urgência/emergência, como é o meu caso, a linha que separa a vida e a morte é, com efeito, muito ténue…ficamos regozijados quando, ainda que assoberbados com árduo trabalho, muitas vezes em ambiente de stress desmedido, conseguimos “ganhar”, entendendo-se o termo como: SALVAR UMA VIDA; mas às vezes, felizmente que raramente, apesar de todo o empenho e esforço, eu diria mesmo, sobrenaturais, “perdemos”. E “meu Deus”!…Como é difícil quando isso acontece! Não é fácil ver alguém perecer nas nossas mãos…nesses momentos impera o silêncio, a frustração, a tristeza e mais umas quantas emoções que supostamente são reprimidas e recalcadas no contexto, e então, há que “seguir em frente”(!), porque a vida é mesmo assim…umas vezes ganhamos, outras, perdemos.

Não é qualquer um que aceita de ânimo leve, porque enfim “NOBLESSE OBLIGE”(!), cumprir, no âmbito do exercício profissional, o horário do tipo roullement – vulgarmente designado por regime de trabalho por turnos – ou seja, prestar serviço em horários rotativos, que incluem os turnos da manhã, da tarde e da noite, concomitantemente ao fim-de-semana, feriados, épocas festivas, como o Natal, Páscoa, “Réveillon”… já que é necessária uma continuidade na prestação de cuidados, para assim assegurar a pretensa excelência do CUIDAR.

– “Santo Deus”!…Como é difícil!

– Sim! É extraordinariamente difícil pelos mais variados motivos que, cada enfermeiro per si, poderá sentir como sacrifício, ou não! (?), dependendo da sua visão, e do grau de afectação na sua vida pessoal, familiar, social, relativamente a esta questão, em particular.

Pois bem! A nível pessoal, confesso sinceramente que me causa um enorme transtorno, e às vezes, uma angústia acutilante principalmente pela premente razão:

– Não poder privar com os que amo e que me amam, em circunstâncias de necessidade, ou até inclusivamente, em alturas festivas, em que supostamente deveríamos estar todos juntos, em ambiente de confraternização e gratificante harmonia familiar, como por exemplo, no NATAL, época à qual atribuo uma enorme significância ( e penso que a grande maioria de nós, não é verdade?), pelas componentes que tem subjacentes – espiritualidade; solidariedade; família, amor, paz; partilha… … e realmente custa sobremaneira “virar as costas” e de soslaio, para não nos perscrutarem o fácies emocionado, denunciado por um brilho quase lacrimejante nos olhos, ainda que contido, ter que dizer: – “Consoem bem, com a graça de Deus!…Mas, não posso, pois o DEVER chama-me!”

Poderia ainda evocar outras questões relativamente às quais, nos temos que sujeitar – e estas, será que temos mesmo? – nomeadamente, questões reivindicativas que terei abordado logo no início deste texto, conforme o elucida, a título de exemplo, o artigo do semanário Sol – “Estudo alerta: os enfermeiros são os funcionários públicos mais mal pagos”– … mas não é minha pretensão, neste artigo em particular, enveredar nesse sentido, até porque estamos no Natal, e fundamentalmente porque considero que:

CUIDAR DO DOENTE, COM AMOR E DEDICAÇÃO…TEM UM VALOR INCALCULÁVEL!

E este é, indubitavelmente, o meu Karma que, ainda assim, me faz FELIZ!

Desejo-vos um FELIZ e santo Natal, se bem que Natal, poderá ser todos os dias, se nós assim o quisermos…e que o ANO NOVO, apesar da conjuntura de crise que tem vindo a imperar e que pelos vistos está para perdurar, possibilite a concretização de, pelo menos, alguns dos nossos sonhos.

Como sempre, até breve se Deus quiser.

Beijinhos

Paula Pedro

 

Fonte: Pamarepe 

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