A realidade

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Nas últimas semanas temos ouvido falar constantemente no estado caótico em que se encontram as urgências por este país fora…muita tinta tem sido gasta, horas e horas de tempo de antena e no final…entristece-me perceber que, consecutivamente, os nossos decisores estão completamente desfazados da realidade dos serviços de saúde, bem como dos seus profissionais e utentes (não será de descorar o facto de termos um ministro da saúde que é, na realidade e na sua formação, um gestor, constituindo este o único ministério onde se verifica um profissional de outra área (des)conduzindo os seus destinos).

Saber que utentes esperam 30horas!! num serviço de urgência – apenas com uma avaliação que se pretende ser rápida e de priorização em que consiste a triagem – e achar que esta situação é pontual e corresponde ora a um pico de afluência relacionado com a gripe ora em última instância à falta de estruturação física dos serviços de urgência (veja-se as declarações do ministro esta noite na RTP 1) é no mínimo ter uma visão totalmente desfazada do quotidiano destes serviços.

Por outro lado, o bastonário da Ordem dos Médicos referiu recentemente – àcerca do tempo de espera de 30h nas urgências do Hospital Fernando da Fonseca – que esta é basicamente a realidade diária destes serviços. Além disso reforçou ainda que culpar os utentes por recorrerem a  este serviço torna-se ambíguo quando a tutela da Saúde tem vindo a limitar e encerrar o acesso aos centros de saúde, num claro desinvestimento dos cuidados de saúde primários.

As urgências são isso mesmo, serviços para situações de urgência, no entanto os nossos decisores da Saúde ao longo dos últimos anos têm preferido fazer obras nos serviços de urgência, aumentar o número de camas nos hospitais, reforçar equipas médicas com tarefeiros pagos a peso de ouro ou entrar no esterismo dos media e declarar um estado de emergência devido a uma legionella, que afecta centenas de pessoas todos os dias por esses hospitais fora…e com isso incitando os Enfermeiros a cancelar uma greve!

A realidade são profissionais de saúde que se expoem todos os dias às mais variadas ameaças por essas urgências fora, desde agressões (físicas e/ou psicológicas) , infecções e todo o caos em seu redor, que potencia constantemente o erro.

A realidade diária são utentes internados em espaços outrora destinados a salas de espera, construídas com biombos, com luz artificial durante 24h por dia, sem janelas, com altifalantes gritando informações de segundo a segundo…dia e noite…

A realidade são almofadas feitas com lençois (uma vez que não há almofadas), utentes internados que não fazem levante, que persistem dias, semanas e por vezes meses num s.o. de uma qualquer urgência quando o mesmo foi estruturado para uma permanência máxima de 48h.

A realidade são Enfermeiros a fazerem turnos extra a fio, recebendo, na melhor hipótese, horas a gozar num dia 31 de fevereiro a estipular pela chefia…são Enfermeiros que durante um turno de 10h prestam cuidados a 25 utentes internados.

Esta não é uma triste história que ocorreu na última meia dúzia de dias devido a um singelo pico gripal..é antes uma pequena parte da realidade que ocorre 365 dias por ano (e por vezez 366) por esses serviçsos de urgência fora…

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