Teias de interesses e outras irregularidades motivam investigação no Santa Maria

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Estudo conclui que o maior hospital do país está minado por interesses de grupos poderosos, que condicionam o funcionamento dos serviços e a aquisição de material. A investigação aponta para uma teia de interesses e lealdades a partidos, maçonaria e organizações católicas.

A Inspecção-geral das Actividades em Saúde (IGAS) decidiu abrir um processo para averiguação ao Hospital Santa Maria após um estudo indicar que a unidade está minada por interesses e lealdades a partidos, maçonaria e organizações católicas.

Esta averiguação será integrada num processo de auditoria que a IGAS já tem a decorrer, a pedido do próprio ministro da Saúde, na sequência de denúncias do anterior director clínico do hospital, Miguel Oliveira e Silva, apurou a agência lusa junto de fonte oficial.

No estudo, encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é dito que o Hospital de Santa Maria, o maior do país, está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas.

O ministro da Saúde, Paulo Macedo, não comenta o caso, mas sublinha que “há um caminho feito” em prol da maior transparência e da boa governança, remetendo mais explicações para a administração do Hospital de Santa Maria.

O bastonário da Ordem dos Médicos acredita que o Santa Maria não será o único do país tomado por interesses privados. José Manuel Silva afirma que os factos alegados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos são o espelho do país.

“O estudo foi feito no maior hospital do país. Não vamos estigmatizar o Hospital de Santa Maria, porque eu tenho dúvidas de que nos outros hospitais seja substancialmente diferente, porque é o espelho da sociedade portuguesa. A sociedade portuguesa é assim e isso que é deve ser evidenciado e penalizado”, defende o bastonário.

A análise ao Hospital de Santa Maria (HSM), a cargo da investigadora Sónia Pires, salienta que, “apesar das melhorias registadas a partir de 2005”, a unidade hospitalar “continua atravessada por fortes conflitos de interesse e actos nas zonas cinzentas ou silenciadas que se configuram como corrupção”.

“A Maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos ainda são três realidades externas que intersectam a esfera do HSM”, refere o estudo “Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal, que vai ser apresentado na quinta-feira.

Retrato negro
A investigadora, que se baseou em questionários e entrevistas recolhidos entre 2012 e 2013, traça um retrato negro da instituição onde se entrecruzam os interesses públicos e privados de “grupos poderosos”, nomeadamente na classe médica e na direcção de serviços de apoio que condicionam o funcionamento dos serviços a nível de recursos humanos e aquisição de material clínico.

O diagnóstico era ainda pior há dez anos: “A situação estava fora de controlo, não havendo registos de utilização do equipamento e verificando-se roubos regulares, por parte de médicos e de outro pessoal, que se serviam a seu bel-prazer dos armazéns do hospital para fornecer as suas clínicas privadas”.

O fecho do hospital chegou a ser ponderado e foi necessária “a intervenção enérgica” do ministro da Saúde, que nomeou um novo Conselho de Administração e um novo presidente para salvar a instituição, refere o documento, acrescentando que esse dirigente e a sua família receberam ameaças de morte e chegaram a ser acompanhados por uma escolta policial.

Sónia Pires destaca que “as condições melhoraram” entretanto, mas continuam a ser “prática comum” pequenos actos de corrupção como, por exemplo, “troca de favores, fazendo passar à frente, nas listas de espera, amigos e familiares, e o médico assistente canalizar os pacientes que têm de fazer análises para laboratórios privados dos quais é sócio”.

Corrupção em queda
A corrupção foi mais evidente até meados de 2000, e sofreu uma quebra com a reorganização dos serviços. O documento revela igualmente casos de absentismo de chefias médicas nos serviços de acção médica e nomeações dos directores de serviço feitas “à revelia das normas e regulamentos”.

“Os processos de nomeação não são claros e estão atravessados por outras dinâmicas como os jogos de interesse e as lutas entre professores na Faculdade de Medicina, e a presença de dinâmicas externas próprias à sociedade portuguesa – como a maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos (ligação mais recente, temporalmente, e com ênfase particular no Partido Comunista e no Partido Socialista)”, salienta a investigadora, baseando-se nas informações que recolheu.

A prelatura da Opus Dei já desmentiu tais ligações. Em comunicado enviado à Renascença, disponibiliza-se para colaborar com as autoridades e afirma que nunca foi ouvida no âmbito do estudo agora divulgado.

Santa Maria foi a organização mais mal classificada entre as seis analisadas no estudo (Autoridade Tributária, ASAE, EDP, Bolsa de Lisboa, Hospital de Santa Maria e CTT), destacando-se essencialmente na avaliação sobre inovação e flexibilidade tecnológica.

[notícia actualizada às 21h55]

Fonte: Renascença

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