Cientistas vão estudar vírus que protege contra sida

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Há mais de uma década, cientistas descobriram que um vírus chamado GBVC tem a misteriosa capacidade de reduzir a progressão da sida em indivíduos com HIV. Agora, um grupo de cientistas desenvolveu um modelo em macacos que permitirá estudar a infecção pelo GBVC e desvendar qual é a estratégia do vírus para impedir o desenvolvimento da doença. O estudo foi publicado na revista Science Translational Medicine.

Em 2009, uma equipa liderada por Esper Kallás, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), descobriu que há uma sinergia na interacção entre os vírus GBVC e HIV. «É inusitado. O GBVC reduz a inflamação causada pela infecção do HIV. Funciona como uma espécie de vírus protector», disse Kallás.

No estudo actual, desenvolvido pelo grupo de Kallás em parceria com cientistas da Universidade de Wisconsin (EUA), os cientistas conseguiram desenvolver pela primeira vez um modelo que simula, em macacos, a infecção pelo GBVC.

«Com o novo modelo, vamos poder estudar a infecção em experiências e entender exactamente o processo de protecção usado pelo GBVC. Depois vamos investigar se esse processo pode resultar em novas terapias para a sida.»

Além da protecção contra a sida, o GBVC tem outras características incomuns: ao contrário de outros vírus, não causa doenças, nem é eliminado do corpo do hospedeiro. Embora seja bastante comum – ocorre em até 8% da população mundial em geral e em até 25% das pessoas com HIV – pela falta de um modelo que permita estudar a sua infecção em animais, ainda não se sabe como é que este faz para impedir a progressão da sida.

Segundo Kallás, a descoberta do GBVC está associada a pesquisas sobre os vírus causadores da hepatite. Nas décadas de 1980 e 1990, muitos cientistas estudaram as causas das hepatites que não são provocadas pelos vírus A e B.

«No fim da década de 80 foi descrito o vírus da hepatite C. A partir daí, foram descobertos os vírus da hepatite Delta e hepatite E. Mais tarde, descobriram o que se pensava inicialmente ser o vírus da hepatite G. Mas este último vírus, muito frequente, não estava ligado à hepatite: era o GBVC», explicou Kallas.

Quando os cientistas ainda estavam a estudar se o novo vírus tinha relação com a hepatite, examinaram registos sobre pacientes com sida para descobrir se este interferia na progressão da doença.

«Foi no início da década de 2000 que alguns estudos mostraram algo totalmente inesperado: a presença do GBVC não acelerava a progressão da sida – pelo contrário, diminuía o seu ritmo. Foi surpreendente descobrir um vírus que poderia ter um efeito benéfico de protecção do hospedeiro de outro vírus», disse o pesquisador.

A partir daí, tiveram início diversos estudos para descobrir como o GBVC protegia portadores de HIV. Diversas hipóteses foram levantadas, como uma competição entre os dois vírus, ou uma capacidade de bloqueio da infecção por HIV. Até que o grupo da USP conseguiu determinar pela primeira vez que o GBVC reduz a inflamação no organismo do hospedeiro. «É como se tivesse um efeito anti-inflamatório específico para as células mais inflamadas pela infecção do HIV. Publicamos um artigo em 2009 revelando esse mecanismo», declarou.

Mais tarde, um grupo de cientistas da Califórnia, nos Estados Unidos, que estudava dados de pessoas que tinham sida antes do desenvolvimento dos cocktails, tiveram uma redução de 50% na infecção pelo HIV quando recebiam doações de sangue de pessoas infectadas com o GBVC.

Depois dessas descobertas, Kallás começou a trabalhar com um colega da Universidade de Wisconsin, David O’Connor, que liderava um projecto de pesquisa em busca de vírus emergentes no Uganda, na África.

Dispondo de técnicas de biologia molecular bastante sofisticadas, O’Connor recolheu amostras de macacos em busca de novos vírus.

«Nos seus ensaios de prospecção de novos vírus, descobriu que o vírus SIV – equivalente ao HIV em macacos – era relativamente frequente. E encontrou também com grande frequência os GBVC. Foi a partir daí que pensamos em estudar a concomitância desses dois vírus em macacos», explicou Kallas.

Fonte : Diário Digital

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