O QUE ESPERAM OS INSUFICIENTES RENAIS CRÓNICOS DOS ENFERMEIROS

Woman getting a transfusion
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Uma boa relação enfermeiro/doente, e vice-versa, é imprescindível para que o doente aceite melhor o seu tratamento. Esta situação é ainda mais importante quando se trata de doentes crónicos, como é o caso dos IRC, que passam no mínimo cerca de 12 horas por semana junto do seu enfermeiro.
São muito vastos os cuidados de enfermagem a prestar aos IRC num Centro de Diálise, os quais não se podem basear apenas em conhecimentos científicos e atitudes técnico-científicas, a ter com os doentes.
Quando se aborda este tema, fala-se também em humanização, em relação de ajuda, em problemas e, ainda, no facto de o IRC ser, ou não, um doente difícil. Todas estas envolventes fazem com que a relação entre o Enfermeiro e o Insuficiente Renal Crónico, assim como os cuidados a prestar, se baseiem na exigência de um conhecimento que ultrapassa o simples conhecimento científico.
O Enfermeiro de um Centro de Diálise, para além de ser um profissional, para além do seu conhecimento técnico-científico, terá que ter uma relação de ajuda muito grande com os doentes. Ele é quem está mais tempo junto do IRC. É a primeira pessoa que escuta os seus desabafos, servindo de elo de ligação privilegiado entre o doente e a equipa clínica, compete-lhe assistir o doente, e não apenas executar o ciclo hemodialítico: espetar as agulhas, ligar a máquina e esperar que passem quatro horas, desligar a máquina e dizer adeus, até Segunda ou até Quarta-feira.

 

O PAPEL DO ENFERMEIRO NO CENTRO

 O seu papel de Enfermeiro num Centro de Diálise é muito importante. Na prática, tem de fazer de Médico, Psicólogo, Psiquiatra, Assistente Social, até mesmo de Auxiliar de Enfermagem. Porque não? O Enfermeiro é, acima de tudo, uma pessoa que cuida de pessoas.
Quando começa o seu tratamento, o IRC passa por determinadas fases. A nós, cabe saber que fases são essas, que mecanismos levam a que o doente passe por elas, tendo determinadas atitudes, por forma a, em certos momentos, nos podermos antecipar a algo que poderá ser uma reacção muito negativa, transformando o momento, que poderia vir a ser de conflito, em momento positivo.
Hoje, quando tanto se fala em Qualidade e Qualidade dos Cuidados de Enfermagem, utiliza-se muito a palavra “cuidar”. Ora, cuidar é atender a .Podem-lhe chamar o que quiserem. Cuidar será sempre atender a. É o atender a, e não só o tratar de. O atender a obriga-nos a colocar à disposição do doente os nossos conhecimentos, e as nossas atitudes, em função da doença que ele transporta, colocando-nos um pouco no seu lugar. Ao fazê-lo, se calhar vamos perceber algumas das suas reacções no dia a dia. Esta compreensão ajudar-nos-á a colmatar determinadas falhas, ou procedimentos, que não consideramos ser os mais correctos. Mas, atenção. Por vezes, também os doentes podem ter razão de queixa em relação a determinadas atitudes, ou acções, por parte dos Enfermeiros.
Se, por vezes, o doente chega ao Centro de Diálise com problemas psicológicos, sociais, ou familiares, é o Enfermeiro que está ali à mão, que o ouve, quem se vê confrontado com uma reacção, por vezes impensada, da parte do doente. Mas muitas vezes também é o doente que ouve os problemas do Enfermeiro, por vezes transportados para o Centro de Diálise. O problema da conflituídade, quando se verifica, não é só porque o IRC é difícil. Por vezes, também há Enfermeiros difíceis.

 O Enfermeiro num Centro de Diálise terá que ter, como base para uma qualidade na sua acção de cuidados a prestar, os cuidados físicos, técnicos, psicológicos e, principalmente, os pedagógicos.

 Os conhecimentos e os cuidados técnicos em hemodiálise assentam numa Formação que, por vezes, no nosso país, é manifestamente insuficiente. Normalmente, o Enfermeiro só toma contacto com a Hemodiálise quando vai estagiar, ou trabalhar, para um Centro particular, uma vez que são ainda poucos os Hospitais que praticam este tipo de tratamento. Por norma, é nos Centros de Diálise privados que os Enfermeiros estagiam durante alguns meses, entre 150 a 180 horas de aprendizagem, para depois, nalguns casos, ficar a trabalhar no próprio Centro.

 A formação que lhes é dada incide, basicamente, nos ensinamentos técnicos e científicos ministrados pelo responsável de enfermagem do próprio Centro, assim como pelos restantes colegas. Não apresenta, regra geral, nenhum programa previamente estudado. E se essa formação é por vezes insuficiente para que se consiga estabelecer uma relação técnico/científica entre o enfermeiro e o doente, isso não significa que o Enfermeiro, quando começa a trabalhar, não saiba o que está a fazer. Saberá, com certeza.

 Quando se começa a trabalhar em Hemodiálise, tem-se uma grande preocupação: saber depressa como puncionar correctamente, de forma a que os doentes não tenham receio. E isto, porque se nota quando os doentes começam a chamar o colega mais velho: têm medo do mais novo.

 Quer-se depressa aprender a puncionar, quer-se depressa saber ligar o doente à máquina, desejando que não haja problemas com o monitor. Porque se o alarme do monitor não disparar durante o tempo de Diálise, para o enfermeiro é óptimo. Mas depois esquece-se um pouco que as intercorrências, os problemas que podem surgir numa Sala de Diálise, são tantas, e tão variadas, que não passam só por aquilo que se aprende nas 150 ou 180 horas de estágio. Até porque se pode ter o “azar” de nesse período não surgir nenhuma intercorrência mais diferenciada. O desempenho futuro de um Enfermeiro num Centro de Diálise passa muito por aquilo que possa aprender, ou estudar, fora do Centro.

AS CONDIÇÕES DE TRABALHO NA ENFERMAGEM

 Mas aqui, outra problemática se levanta. Hoje em dia, o tratamento da Hemodiálise está assente, em 80% dos casos, em Enfermeiros que trabalham em duplo emprego. Isto implica que o Enfermeiro vá para um Centro de Diálise cumprir com uma tarefa complexa, de manter uma relação empática, e “cuidar” de 3, 4 ou mais doentes que lhe são distribuídos naquele dia, quando já tem uma carga horária superior àquilo que devia. Temos consciência de que não é fácil, depois de um dia de serviço no Hospital, ir para o Centro de Diálise. Então se o dia no Hospital correu mal, o do Centro, logo à partida, tem grandes possibilidades de correr igualmente mal.

 É importante que o Enfermeiro tenha noção dos problemas psicológicos que o doente tem. Mas também é importante que, da parte dos doentes, haja uma certa compreensão em relação aos Enfermeiros.

 Sabemos que quando um Enfermeiro começa a trabalhar num Centro de Diálise, ele consegue manter uma melhor relação com os doentes, do que a maioria daqueles que já lá estão há mais tempo a trabalhar. E quando dizemos boa relação, não quer dizer mais ou menos amigo. Quer dizer que quando o Enfermeiro possui um determinado à vontade dentro da sala de Diálise, está mais descansado em relação às intercorrências que possam surgir. Essa confiança poder-se-à traduzir por atitudes, ou procedimentos, que revelem um maior alheamento ao que o rodeia. Ao contrário, o Enfermeiro que está há menos tempo na Hemodiálise está particularmente atento, ou procura estar, por forma a não deixar transparecer aquela “insegurança” que o Enfermeiro normalmente sente da parte do IRC. Sabendo que o doente possa pensar que o conhecimento desse Enfermeiro, no que diz respeito à relação técnico/científica, poderá não se aproximar da experiência do colega mais antigo, procura compensar esse défice com uma relação de ajuda ao IRC, traduzida num maior grau de humanização.

 

QUALIDADE E HUMANIZAÇÃO

 

Numa Unidade de Diálise, cabe ao Enfermeiro ser o motor da humanização e do conhecimento. O Enfermeiro tem, por vezes, de ser Médico, Assistente Social, Psicólogo, etc., Especialidades que a Lei consagra dever fazer parte do quadro de pessoal de um Centro de Diálise. Não acontecendo assim, por vezes os Enfermeiros têm um papel, também aí determinante, no prevenir e precaver o doente para muita coisa que pode acontecer em Hemodiálise. O tempo que medeia entre uma sessão de Diálise pode ser aproveitado para transmitir conhecimentos e esclarecimentos aos doentes, nomeadamente sobre como devem tratar o seu acesso vascular, como devem proceder quanto à alimentação, que não devem trazer mais do que 1 a 1,5 kg de peso por dia (entre as sessões de diálise), que devem beber sempre menos do que no dia anterior, etc.

 Cabe muitas vezes ao Enfermeiro a transmissão de todo este tipo de conhecimentos, bem como o aconselhamento ao doente, por forma a que a qualidade de vida de um IRC, e a qualidade do trabalho executado pelo Enfermeiro nos Centros de Diálise, seja cada vez melhor. Não é fácil, por vezes, arranjar tempo. E aí o Enfermeiro tem sempre essa desculpa. Não é fácil, e não é difícil. Há momentos, há dias, que se calhar não se pode: mas outros há que, se calhar, até se consegue.

 As reuniões nos Centros, entre Enfermeiros e Médicos, servem de pequenas sessões para enriquecer o conhecimento sobre determinadas matérias. Porque não fazer isso com os doentes dos respectivos Centros? Porque não combinar encontros, ou reuniões, entre o Pessoal de Enfermagem e os doentes?

Compete também ao Enfermeiro esta atitude pedagógica, aplicada no seu dia a dia na Sala de Diálise.

 Cabe aos Centros de Diálise proporcionar boas condições de trabalho aos profissionais e de assistência aos IRC. Cabe aos Enfermeiros, que trabalham em Diálise, continuar a “fazer pressão” para que os cuidados que possam ser prestados aos doentes sejam cada vez melhores. Mas também cabe aos doentes assumir uma atitude construtiva para, todos em conjunto, lutarmos por melhores condições técnicas, físicas e humanas que permitam desenvolver eficazmente o nosso trabalho.

 Se temos hoje ao nosso dispor meios técnicos mais avançados, tal não significa que o ciclo hemodialítico, ou o atendimento aos IRC, sejam mais fáceis, ou menos preocupantes para o Enfermeiro. Pelo contrário, há que prestar toda a atenção para que o processo de tratamento decorra da melhor forma possível, sem intercorrências desagradáveis.

 Em nossa opinião, a informação ajuda, o conselho amigo, ajuda, a relação de amizade ajuda. É preciso combater a ideia de que se deve manter distância do profissional em relação ao doente. Esta ideia está errada, está há muito ultrapassada; a relação de amizade entre o profissional de saúde e o doente não tem nada a ver com questões de profissionalismo. É evidente que aproxima mais as pessoas, pode criar em determinadas situações mais emoção. Mas a confiança também resulta da amizade.

 O que nós queremos dos IRC é que as pessoas percebam que devem ter, em relação ao profissional de saúde, o mesmo comportamento que querem que ele tenha em relação a si. O melhor exemplo que podem dar ao Enfermeiro para os ajudar, é saber relacionar-se com ele. É preciso protestar, denunciar o que está mal, mas com elevação, com dignidade e, acima de tudo, respeitando quem está do outro lado. Só assim é que nós podemos sensibilizar o profissional de saúde para que, também ele, em relação a nós, tenha um comportamento cada vez mais adequado.

 

Da Brochura “Enfermagem Nefrológica”,
Editada pela APIR

Fonte: Associação Portuguesa de Insuficientes Renais

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