Estão a sentir?

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Há uns anos atrás, começava por ouvir, sentada na sala de aula, que seria porventura o último ano em que poderia escolher onde queria exercer. Que os anos vindouros aparentavam não ser os melhores. Não foi preciso, de facto, procurar muito longe para escolher não só o local como o serviço em que queria exercer.

Fui realizando o meu percurso e limando arestas no caminho. De iniciada a perita, hoje em dia, revejo-me muito mais no que Benner refere do que propriamente na altura em que me foi incutida a leitura.

Singrados nove anos, quis a vida, em jeito de privilégio, que integrasse o apoio a uma lista que me permitiu, em contexto de campanha, ir ter com os enfermeiros e escutá-los em vários pontos da região Sul do País, que conhecesse realidades que apenas ouvira falar, ou até, que me eram completamente desconhecidas.

Vi enfermeiros cansados, desiludidos com o rumo que a profissão estava a tomar apesar de fazerem a ressalva de terem gosto em ser enfermeiros.

Do que pude escutar saliento a desilusão progressiva quer em termos do significado de enfermagem para as pessoas, que muitas vezes só verdadeiramente a compreendiam e salientavam quando de facto dela necessitavam; a ausência de progressão de carreira juntamente com o não retorno, por maiores que fossem os esforços em tirar uma pós graduação, cursos adicionais de aperfeiçoamento, mestrados ou mesmo, doutoramentos; a sobrecarga de trabalho atribuído a um só profissional que se desfaz em gémeos múltiplos para conseguir manter em consciência o seu trabalho no mínimo do que sabe ser o aceitável.

Como se entende, este último aspecto, que provoca um overload -borderline constante  (se me permitem fazer esta alegoria que para mim se encaixa bem na visão da atrocidade que é pedida diariamente aos enfermeiros) que leva ao burnout.

Às tantas escutei, também, que a Ordem parecia não se pronunciar a respeito destes assuntos com a veemência esperada e com o reflexo condicionado esperado perante o que estava aos olhos de todos. Este facto trazia muita indignação e porventura uma sensação acrescida de abandono.

Tudo isto como reflexo do que também sentia, confesso.

No meio do tanto e do tudo percebi que, apesar de utilizarem palavras diferentes, o desagrado dos que escutei tinha uníssono.

Volvidos dois anos, quase, desses momentos, tanto, mas tanto se passou, que o que está aos olhos de todos fala por si.

Onde estão as pessoas continuam a estar os enfermeiros e quase que esse facto assume  a mesma proporção que a globalização mundial: a enfermagem preenche o ecrã e não é uma desconhecida de quem recorre esporadicamente a ela e tudo o que se passa é do conhecimento de todos.

Na sua responsabilidade e em tudo o que corresponde à continuidade e melhoria de cuidados de saúde: vêm-se enfermeiros que não estão em background.

Há um acréscimo – a Ordem está com os enfermeiros e os enfermeiros estão com a Ordem; fala-se de enfermagem e dá-se a conhecer a enfermagem; diminuiu o receio de dialogar sobre o que está menos bem e de se procurarem alternativas que não e apenas meras palavras abafadas que em nada de visível resultam.

Não obstante, mais do meramente um grande ênfase à visibilidade,  se exclui a  continuidade merecida de reconhecimento de todas as vertentes da profissão e se tentam caminhos que ESTÃO a dar frutos.

Este facto é único, até ao momento e é o essencial para que possamos dar o salto na verdade do que temos que mudar.

Em jeito de reflexão acrescento: se a bandeira atribuída for sempre a de cor vermelha, ninguém se aproxima das águas com receio das ondas e da tempestade. Contudo, se quem a comanda decidir colocar a bandeira verde, todos podem mergulhar na água com segurança. Quem é que decidiu a cor? Não foram as pessoas?

A moderação, a consciência e a ponderação que norteiam os actos vêm das pessoas e do modo como encaram as circunstâncias.

Fazer um caminho acompanhado é muito diferente de estar sozinho.

Realço que nem nos incêndios que deflagraram deixámos de querer contribuir voluntariamente por todos, mesmo que isso seja uma aspecto de Dever ressalvado no nosso Código. Estiveram lá inúmeros enfermeiros e, na alínea respectiva, não está estipulada  limitação de enfermeiros em situações de catástrofe. Todos os que quiseram estiveram lá com o seu esforço e competência.

Há várias formas de chegar mais longe e de fazer a diferença.

Há coisas que mais do que palavras, ao serem gestos contínuos, repetidos,  tornam-se hábitos.

Começa a ser hábito ouvir-se falar de enfermagem cada dia no ecrã e ouvir-se dizer que os enfermeiros estão a dar passos na conquista do lugar merecido.

O facto de desconhecermos um facto não pode permitir que façamos de uma inverdade uma discussão de verdade e levar, sob desconhecimento, medo ou pressão, a esquecer isto:

ninguém está sózinho.

Ninguém está sózinho e nesse sentido o espírito de que “todos somos um só” neste caminho, faz com que a missão esteja a ser cumprida e passo a passo a que cheguemos mais longe.

Somos setenta mil enfermeiros…

Dizem que os tremores de terra sucedem com movimentos das placas tectónicas.

Estão a sentir?

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