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Um dia de uma enfermeira especialista em saúde materna e obstetrícia

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Hoje foi mais um turno como tantos outros como enfermeira especialista em saúde materna e obstetrícia.
São 6:20h e o despertador toca. O meu filho de 6 meses ainda dorme pacificamente no seu berço. Nasceu no mesmo hospital onde todos os dias ajudo outros bebés a nascerem.
Amamento-o. Visto-me. Despeço-me dele. Choro no caminho porque o deixei para trás para cuidar dos outros. Foi o que escolhi. É a minha missão.
São 7:30h e chego ao hospital. Cansada. Mas pronta para mais um dia. Pico o ponto. Sigo pelas escadas acima até ao segundo piso com a lancheira ao ombro, com comida que sobrara do dia anterior porque o turno não permitiu que a almoçasse.
Encontro um velhote a arfar enquanto sobe as escadas. Ajudo-o a carregar o saco de comprimidos e exames que levava. Vai para uma consulta. Começa a falar-me do filho que não o pôde acompanhar e do que já lhe custa andar. Sorrio para ele. Ajudo-o e sigo o meu caminho.
Abrem-se as portas do bloco de partos, ainda com pouca luz do dia. Tudo está tranquilo. Ouvem-se os primeiros gritos de alguém que acabou de nascer e a felicidade dos pais que o acabaram de receber em seus braços.
Fardo-me.
São 8h britânicas e recebo o turno.
Hoje estamos 2 especialistas para o bloco de partos, urgência e internamento de grávidas, coisa que se repete há dias desde que se iniciou o movimento dos enfermeiros especializados.
Estão algumas senhoras em trabalho de parto.
A minha colega fica com essas senhoras enquanto eu sigo para a urgência de obstetrícia ajudar a outra colega que se encontra a prestar cuidados de enfermeira geral, mas sendo especializada e que se encontra em protesto. Conheço-a bem. Somos colegas e amigas.
Entro na sala de triagem e vejo a tristeza nos seus olhos de quem não está a fazer o que ama. Vejo a preocupação naqueles olhos esverdeados de quem tem medo que com a sua forma de luta se prejudique alguém. Vejo a revolta na expressão de quem tanto investiu do seu tempo em família e do seu dinheiro para não ser reconhecido tal esforço e conhecimento.
Não temos tempo para conversar sobre isso.
Temos internada uma sra que acabou de saber que tinha perdido o seu bebé.
Respiro fundo de coragem antes de entrar no quarto. Entro. Dou um sorriso tímido de compaixão. A sra chora compulsivamente, em luto. Sento-me junto a ela. Olho-a nos olhos. Converso com ela. Dou-lhe a mão. Observo-a para despistar alguma potencial hemorragia.
Pergunta-me o porquê de tal lhe ter acontecido. Já não é a primeira vez. Conforto-a. Faço também encaminhamento para a psicóloga. Esta senhora vai precisar.
Ao mesmo tempo penso no tesouro que tenho em casa e o que mais me apetece é regressar e segurá-lo nos meus braços. Coisa que aquela mãe não irá conhecer. Tento-me distanciar desse pensamento. Há muito por fazer.
Dou apoio à colega da urgência. As fichas das senhoras vão-se acumulando.
Chega uma senhora com bolsa rota. Recebo-a. Consulto o seu boletim de grávida, análises e ecografias. Interpreto esses dados. Colho antecedentes de saúde sobre as mesmas e até o meio social em que vivem.
Faço a observação física. Avalio em que fase do trabalho de parto está. Faço-lhe o CTG. Interpreto esses dados do bem-estar fetal.
Faltam algumas serologias que é necessário colher.
Escrevo a nota de internamento e entrego o papel para o médico assinar. Peço ao médico que prescreva antibiótico para a senhora porque é um strepto-B positivo. Cuidado que é alérgica à penicilina. Não pode fazer ampicilina. Prescreva-lhe outro antibiótico por favor. Obrigado.
Está oficialmente internada.
Levo a senhora para o bloco de partos. Com o volume de senhoras que internei entretanto, já não posso dar apoio à urgência e fico com a outra especialista no bloco de partos.
Fico com esta senhora à minha responsabilidade. É uma senhora com uma situação familiar complicada. O pai do bebé abandonou-a. Está completamente sozinha.
É uma parturiente ansiosa e que tem um problema de coagulação sanguínea.
Tento tranquilizá-la e mostrar apoio.
Ainda não está em fase activa de trabalho de parto. Monitorizo-a e informo de que volto já. Vou só ver outra senhora.
Sigo para outra sala de parto e está uma senhora que fez indução de trabalho de parto. É seropositiva. Está muito queixosa.
Ajudo-a a lidar com as dores das contracções que vão e vêm como ondas em que tem que remar contra a maré.
Ainda não está em fase activa de trabalho de parto mas já chora e grita de dor. Com a minha experiência percebo que este trabalho de parto vai ser rápido.
Chamo o anestesista e peço-lhe para vir fazer sequencial a esta senhora.
O anestesista chega. Inicia a técnica de introdução do cateter. Presto-lhe apoio. Não consegue realizar a técnica por a sra não conseguir colaborar no posicionamento.
Observo a sra. Já tem dilatação completa. O bebé vai nascer.
O anestesista sai da sala.
Peço ajuda a uma auxiliar porque a sra se encontra muito agitada e tenho receio que se magoe. Tento acalmá-lá e ajudá-la a respirar enquanto rapidamente calço as primeiras luvas que me calham à mão. Receio não conseguir proteger-me mais do que com as simples luvas porque não há tempo para mais. Faço o parto. Termino de me equipar. Suturo a senhora. Chamam-me da outra sala de partos.
A colega generalista refere que a senhora da bolsa rota está a perder sangue.
Rapidamente descalço as luvas, lavo as mãos e sigo para lá.
Confirmo que está com hemorragia. Um potencial descolamento de placenta. Avalio o bem-estar da mãe e do bebé. Chamo o obstetra, que confirma o descolamento. Temos que ir rápido para o bloco operatório.
Contacto o pediatra.
Preparo a sra para o bloco, ponho soroterapia a correr, algalio-a e levo-a, preparo a unidade para receber o recém-nascido.
Circulo na cesariana. Recebo o bebé juntamente com o pediatra. Infelizmente o bebé precisou de ser reanimado. Colaborei na reanimação do bebé, preparei a incubadora de transporte (que mais parece uma nave espacial) e encaminhei o bebé para a neonatologia.
Regresso para dentro do bloco. A sra está a descompensar hemodinamicamente. Agilizo o contacto com o serviço de sangue. Contacto a equipa de reanimação.
Rapidamente o bloco operatório enche-se de gente e de compressas ensanguentadas num frenesim para se salvar aquela vida que acabou de gerar outra.
Estão dois obstetras, um anestesista, um médico da equipa de reanimação, um enfermeiro de apoio à anestesia, um enfermeiro a instrumentar, eu, e outro com a equipa de reanimação.
A maluqueira de fármacos a administrar (com diferentes dosagens, concentrações e incompatibilidades) e derivados de sangue terminou.
Conseguimos estabilizar a senhora.
Regresso às salas de parto. A outra colega especialista ficou a assegurá-las.
Vamos acompanhando as senhoras em trabalho de parto, fazendo a vigilância do seu trabalho de parto, vigiando também os seus bebés. Ficamos inundadas em processos para escrever. Temos que nos salvaguardar uma vez que trabalhamos num contexto onde infelizmente nem tudo corre como gostaríamos e onde existem a maioria de processos de litígio na área da saúde.
Tenho contas para pagar e um filho para criar. Tenho que descrever tudo ao maior detalhe porque apesar da ânsia em ajudar o outro, um dia poderei estar num banco de tribunal e tenho que me conseguir defender. Poderei vir a perder tudo o que tenho na vinha vida pessoal em detrimento da profissional.
O dia continua. Mais uma vez não almocei. Acho que até me esqueci que a fome existia.
Como estamos com falta de pessoal hoje é mais um dia em que não gozarei as horas de amamentação e regressarei ao colégio do meu filho já muito depois da hora que gostaria.
Amanhã é sábado e trabalho. Domingo também. Já saiu a escala para o Natal e dia 25 também estarei a trabalhar. O primeiro Natal do meu filho e o primeiro de muitos que estarei ausente.
As prendas serão humildes porque a mamã ainda está a pagar o empréstimo de 7000€ que contraiu para pagar a especialidade.
Mas não faz mal. Guardamos as prendas para quando regressar a casa, te pegar ao colo, e termo-nos mutuamente como a maior prenda do Mundo.
São 16h. Passo o turno aos colegas que chegam. Muitos ficarão para fazerem 16h de trabalho hoje porque continuamos desde há anos com falta de pessoal.
São 17h. Pego o meu filho nos braços. Penso na mãe que perdeu o seu bebé. Sinto-me grata. Abraço-o com força, confortando-me por saber que hoje e todos os dias faço a diferença para as mulheres e famílias de quem cuido. Hoje e todos os dias salvo vidas.
Porém penso que:
– Hoje e todos os dias avalio necessidades psicológicas e sociais e encaminho-as de acordo.
– Hoje e todos os dias tenho à minha INTEIRA responsabilidade duas vidas de cada vez: mãe e bebé.
– Hoje e todos os dias corro riscos inerentes à minha actividade profissional: lesões músculo-esqueléticas, contacto com doenças contagiosas, contacto com químicos, etc.
– Hoje e todos os dias ponho em causa os meus direitos para prevalecer os dos outros.
– Hoje e todos os meses recebo 1200€ de base. Trago para casa perto dos 1000€.
A responsabilidade, devoção, conhecimentos e risco inerentes à minha profissão merecem muito mais do que isso.
Não concorda?

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