Desmitificando e Interpretando a Gasometria Arterial

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A gasometria arterial é um exame invasivo que permite a avaliação da condição respiratória e metabólica, levando em consideração as diversas variáveis que podem modificar significativamente as concentrações dos gases sanguíneos e, consequentemente, o valor do pH, que pode culminar em uma série de prejuízos para o organismo. As alterações no equilíbrio ácido-básico podem ser de origem cardíaca, renal, endócrina, infecciosa, overdose, entre outras.

As concentrações dos gases arteriais também podem ser obtidas para a avaliação e decisão sobre a terapia existente, tal como a ventilação mecânica (VM), direcionando a mudança nos parâmetros ventilatórios (FiO2 – fração inspirada de oxigênio; PEEP – pressão expiratória final positiva; FV – frequência ventilatória; pressão de pico; pressão inspiratória máxima; relação I:E; modo ventilatório, e a administração de bicarbonato de sódio ou terapia com acetazolamida.

No exame são avaliados os seguintes parâmetros:

– pH (Potencial Hidrogeniônico): determina o grau de acidez, neutralidade ou alcalinidade do sangue.  O valor que vai de 0 a 14, sendo 7 o valor mais neutro possível, o mais próximo do 14 indica alcalinidade e mais próximo do 0 indica acidez. Um pH dentro dos limites da normalidade não significa, necessariamente, a ausência de distúrbio ácido-básico, visto que podem haver mecanismos compensatórios em ação momento da avaliação.

– pO2 (Pressão Parcial de Oxigênio): exprime a eficácia das trocas de O2 entre os alvéolos e capilares pulmonares, medido em mmHg. Depende diretamente da pressão parcial de oxigênio no alvéolo e da capacidade de difusão deste gás.

– pCO2 (Pressão Parcial de Gás Carbônico): exprime a eficácia da ventilação alveolar, medido em mmHg. Assim como o oxigênio, a troca é realizada por meio da hematose, obedecendo o grau de difusão dos gases pulmonares.

– HCO3 (Bicarbonato): metabólito que participa do processo do sistema tampão, cujas alterações sugerem desequilíbrios de natureza metabólica. Expresso em mEq/L.

– SpO2 (Saturação de Oxigênio): exprime a saturação, em proporção (%), das oxiemoglobinas carreadoras do oxigênio, ou seja, mede a capacidade das células de reter e distribuir o oxigênio para os tecidos.

– BE (Base Excess): indica o grau (índice) de retenção ou excreção de bases pelo organismo. Se abaixo do valor de referência, indica que o organismo perdeu bases e, se acima, indica a retenção de bases.

 

Coleta

O material é obtido por meio de coleta por punção percutânea e pode ser realizada nas artérias radial, braquial, femoral ou dorsal do pé. No entanto, os sítios mais comumente utilizados são o radial e dorsal do pé devido ao fácil acesso. Cabe ressaltar que se trata de um procedimento privativo do enfermeiro devidamente capacitado por se tratar de um procedimento de maior complexidade. Segundo Decreto Lei 94.406/87 – Art.8 e conforme Resolução COFEN 390/2011.

A coleta na artéria radial exige a avaliação prévia da existência de fluxo sanguíneo contralateral suficiente por meio do teste de Allen (Ver mais sobre), sobretudo para pacientes que apresentem fatores de risco relacionados a distúrbios cardiovasculares e de coagulação.

O teste é realizado comprimindo ambas as artérias no nível do punho com as duas mãos do profissional. Feito isso, solicita-se ao paciente que abra e feche a mão até que a mesma se apresente pálida. O examinador deverá liberar a pressão exercida de uma das artérias e avalia-se o retorno da coloração normal, repetindo-se a manobra na outra artéria. O teste será positivo quando o enchimento é rápido (até 5 segundos) em alguma das artérias (CRUZ; FIGUEIREDO, 2004).

Em casos de Teste de Allen negativo, ou seja, o retorno da circulação for maior que 5 segundos devemos avaliar a realização da punção em outro local.

 

MATERIAIS UTILIZADOS PARA A COLETA

  • Seringa para gasometria (heparinizada) ou seringa comum de 3 mL, aspirando a heparina (em torno de 1 mL) e devolvendo o conteúdo para o frasco.
  • Agulha 25×7 ou Scalp nº 21.
  • Um pacote de gaze estéril ou algodão.
  • Clorexedina alcoólica a 0,5%.
  • Luvas de procedimento.
  • Bandeja limpa com álcool 70%.

 

EXECUÇÃO DA TÉCNICA DE COLETA

  • Lavagem das mãos.
  • Preparo do material.
  • Comunicar ao paciente ou acompanhante quanto ao procedimento que será realizado.
  • Escolher o local da punção.
  • Realizar o teste de Allen se o local for a artéria radial.
  • Colocar o membro em hiperextensão.
  • Realizar assepsia do local com a Clorexidina alcoólica em movimento retilíneo.
  • Introduzir a agulha ou scalp a 45° para artéria radial e 90° no caso da artéria femoral.
  • Coletar de 1 a 3 mL de material.
  • Após a retirada da agulha realizar a compressão vigorosa local de 3 a 5 min.
  • Realizar o curativo compressivo na região.
  • Realizar a anotação de enfermagem contemplando informações sobre o procedimento e possíveis eventos adversos que ocorreram.

O material a ser analisado deverá ser acondicionado em um recipiente de conservação térmica e entregue no laboratório em até 30 min.

 

VALORES DE REFERÊNCIA E INTERPRETAÇÃO

  • pH = 7,35 a 7,45
  • pO2 = 80 a 100 mmHg
  • pCO2 = 35 a 45 mmHg
  • HCO3 (Bicarbonato) = 22 a 28 mEq/L
  • Saturação de O2 ≥ 95%
  • BE = -2 a +2

A interpretação deste exame, para identificação do tipo e etiologia do distúrbio, depende da análise conjunta dos dados, uma vez que eles estão inter-relacionados.

O pH abaixo dos valores de referência indica meio ácido e acima indicam meio alcalino. Qualquer fator que reduza a ventilação pulmonar, retém CO2 e aumenta a concentração deste na corrente sanguínea, e consequentemente, do ácido carbônico por conta da reação H2O (água) + CO2 (gás carbônico) = H2CO3 (ácido carbônico), o que contribui para a diminuição do pH, resultando em Acidose Respiratória. Esta pode possuir diversas causas como lesão no centro respiratório, obstrução das vias aéreas, infecções respiratórias agudas, edema pulmonar, entre outras.

Quando a ventilação pulmonar está aumentada, a pressão parcial de CO2 diminui, ou seja, há aumento na difusão entre CO2 e O2 ocorrendo uma maior liberação de gás carbônico, consequentemente a liberação de íons H+ é menor, bem como a reação do ácido carbônico, aumentando do pH que resulta em Alcalose Respiratória. Pode ser causada por hiperventilação secundária à ansiedade ou por VM, lesões no SNC, tumores, encefalites, hipertensão intracraniana, entre outras.

Em conclusão, alcalose e acidose metabólica são causadas pela alteração nas concentrações de HCO3, sendo acidose quando ocorre a diminuição da concentração deste íon e alcalose quando ocorre elevação. Pode ser causada por insuficiência renal, cetoacidose diabética, perdas excessivas de bases (diarreia), hipóxia, entre outras.

 

Exemplo de interpretação 1:

Resultado:

  • pH = 7,52
  • pCO2 = 30 mmHg
  • HCO3 = 24 mEq/L

Interpretação:

O pH aumentado significa alcalose, a pCO2 diminuída significa diminuição da acidez pela via respiratória e o HCO3 está normal. Portanto tem-se uma alcalose respiratória (não compensada).

 

Exemplo de interpretação 2:

Resultado:

  • pH = 7,48
  • pCO2 = 48 mmHg
  • HCO3 = 36 mEq/L

Interpretação:

O pH aumentado significa alcalose, a pCO2 aumentada significa aumento da acidez pela via respiratória e HCO3 aumentado significa diminuição da acidez pela via metabólica. Portanto, tem-se uma alcalose metabólica parcialmente compensada.

 

Exemplo de interpretação 3:

Resultado:

  • pH = 7,3
  • pCO2 = 60 mmHg
  • HCO3 = 30 mEq/L

Interpretação:

O pH diminuído significa acidose, a pCO2 aumentada significa aumento de ácidos pela via respiratória e o HCO3 aumentado significa . Portanto, tem-se uma acidose respiratória parcialmente compensada.

Novas publicações irão abordar o manejo de alterações dos gases sanguíneos bem como destacar os sinais e sintomas de cada situação.

 

REFERÊNCIAS

Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo – COREN. Parecer COREN-SP 004/2013 – CT PRCI nº 102.931/2012. Ementa: Realização de Gasometria Arterial por profissional de enfermagem. [on line]. Disponível em: http://portal.coren-sp.gov.br/sites/default/files/parecer_coren_sp_2013_4.pdf [Jun/17]

Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo – COREN. Parecer COREN-SP CAT Nº 21/2009. [on line]. Ementa: Cateterização arterial por enfermeiros para coleta de sangue e realização de gasometria. Disponível em: http://portal.coren-sp.gov.br/sites/default/files/parecer_coren_sp_2009_21.pdf [Jun/17]

CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução COFEN Nº 390/2011. [on line] Disponível em http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-3902011_8037.html [Jun/17].

CRUZ, Isabel Cristina Fonseca da; FIGUEIREDO, José Eduardo Ferreira de. Procedimentos de Enfermagem: incrivelmente fácil. 1ª Edição. Rio de Janeiro. Editora Guanabara Koogan, 2004.

MURTA, Genilda F. Saberes e Práticas: guia para ensino e aprendizado de enfermagem. São Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2006 (Série Curso de Enfermagem).

PORTH, Carol Mattson; MATFIN, Glenn; Tradução Aline Vecchi … [Et. al.]. Fisiopatologia. 8º Ed, Vol 1; Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010.

Fonte Enfermeiro Aprendiz
Através de MURIEL OLIVEIRA

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