Faltam médicos em 80% dos blocos de partos em Portugal

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Saem, em média, dez especialistas por ano do SNS. Quadro de médicos está envelhecido, o que diminui a resposta ao nível dos serviços de urgência. Jovens especialistas são atraídos pelas melhores condições oferecidas pelo privado.

A denúncia é feita pelo colégio da especialidade da Ordem dos Médicos (OM): 80% das equipas de urgência de ginecologia e obstetrícia apresentam um “défice permanente de recursos humanos”, revela o jornal Público. Nos últimos dez anos, a perda de médicos foi significativa, com menos 20 especialistas, em média, por ano.

O colégio da especialidade ressalva que em 70% destas situações o défice de recursos humanos é “ligeiro a moderado” mas alerta que em 10% dos casos a situação é “grave”. No documento, a que o Público teve acesso, a OM destaca os casos dos hospitais Amadora-Sintra, Braga e Faro, onde deveriam existir pelo menos cinco médicos em permanência na urgência e onde estão apenas três (em Braga e Faro) e dois no Amadora-Sintra.

 

Situações de “rutura”

 

No caso deste último hospital, a falta de recursos humanos levou mesmo os chefes de equipa de ginecologia e obstetrícia a apresentarem uma carta de demissão, em julho, em que davam duas semanas à administração do hospital Fernando da Fonseca para resolver os problemas detetados. Num sábado de julho, a urgência do hospital – que serve uma população de mais de 600 mil pessoas – foi assegurada apenas por um especialista e um médico interno, ou seja, metade do mínimo exigido, o que obrigou à transferência de grávidas para outras unidades.

O hospital garante que já abriu um concurso para contratar médicos tarefeiros, que terminou na semana passada, não estando ainda colocado nenhum médico para reforçar a urgência. O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, critica a administração do Amadora-Sintra e avisa que saíram dez médicos do hospital só nos últimos dois anos.

Também a maternidade enfrenta o mesmo problema de falta de profissionais. Em meados de julho, os chefes da equipa de urgência ameaçaram com a demissão e com a interrupção das horas extraordinárias. Os médicos acabaram por não cumprir as ameaças, que, a concretizarem-se, poderiam ter consequências graves, considerando que é esta unidade que recebe as gravidezes de risco de outros hospitais da área da Grande Lisboa.

O presidente do colégio da especialidade da OM alerta que estas urgências estão numa situação de “pré-ruptura, com períodos de ruptura, por falta de recursos humanos”. João Bernardes revelou ao Público que a OM está a preparar um documento para apresentar ao Ministério da Saúde.

 

Só metade dos especialistas no SNS

 

Apesar de Portugal até apresentar um rácio de especialistas de ginecologia e obstetrícia acima de muitos países europeus, apenas metade dos cerca de 1400 médicos exercem no Serviço Nacional de Saúde(SNS). Segundo as contas da OM, saíram cerca de 10 especialistas por ano do SNS. Contudo, o saldo até seria positivo, uma vez que, ao mesmo tempo, foram contratados 15 especialistas por ano. O problema é o envelhecimento do quadro de especialistas do SNS: na última década, em cada ano, cerca de 25 médicos passaram a barreira dos 55 anos, idade a partir da qual estão dispensados de fazer urgências.

Mais de metade dos especialistas do SNS já têm mais de 55 anos e o cenário não deve melhorar no curto prazo. Nos últimos anos formaram-se muitos especialistas nesta área mas a maior parte foi atraída pelas melhores condições oferecidas pelo setor privado, nomeadamente a nível salarial.

Contudo, o Ministério da Saúde garante que o número de especialistas no SNS até tem aumentado nos últimos anos. Em 2015, existiam 804, em 2016 já eram 832 e em julho deste ano o número já ascendia a 862. No último concurso foram ainda abertas 30 vagas para esta especialidade.

Apesar de o número de nascimentos até ter diminuído no ano passado, há cada vez mais partos complicados – devido ao facto de as mulheres terem filhos cada vez mais tarde -, o que aumenta a pressão sobre as equipas de urgência. O diretor do serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria destaca o aumento das patologias associadas, o que faz aumentar o trabalho fora do bloco de partos. “As urgências de ginecologia estão cheias”, diz Nuno Clode ao Público.

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