A “normal anormalidade” em Gaia. Dentro do hospital mais polémico do país

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Quase um mês depois das demissões de 52 diretores clínicos, continuam a faltar camas e o material está obsoleto. A administração garante que pessoal e meios vão ser reforçados até 2020. E sai em defesa do ministro da Saúde.

Noutros tempos, era o antigo Sanatório do Monte da Virgem – construído há 40 anos para cuidar de doentes com tuberculose. Na altura, não havia nada à volta. Era tudo pinhal. Os doentes respiravam ar puro, e apanhavam a vitamina D do sol, essencial para curar a doença.

Hoje, a Rua Conceição Fernandes, onde o hospital se situa, é uma das mais movimentadas de Gaia. A cidade cresceu, a população cresceu, a afluência ao hospital cresceu. No entanto, o edifício do hospital pouco mudou, poucas obras sofreu, embora se tenha tornado num dos maiores do país.

No hospital mais polémico dos últimos tempos, tudo parece decorrer com normalidade. As paredes a precisarem de reconstrução, o material obsoleto ou a distância que parece não ter fim entre um pavilhão e outro já fazem parte da normalidade. Até a falta de camas já faz parte da normalidade.

“Tive aqui a minha avó numa situação complicada e o médico disse-me logo que não tinha cama para a pôr. Teve que ficar no corredor e aguardar. Mas não ficou desamparada”. Maria de Fátima Santos defende sem hesitar os profissionais do hospital. Dão o que podem, garante ela.

Quanto ao resto, o presidente do Conselho de Administração assegura que estão previstas mais 71 camas e o reforço do pessoal, na sequência de um rol de saídas que aconteceu nos primeiros meses do ano. “Precisamos de 120 pessoas, sobretudo enfermeiros e auxiliares. Temos alguns problemas na área médica, mas são pontuais”, diz António Dias Alves.

Acontece que os diretores clínicos demissionários, como Marques Batista, da neurocirurgia, exigem mais do que isto: “São necessários cuidados intensivos, cuidados intermédios, o OBS do serviço de urgência, mais salas de operação, unidades de internamento. Não podemos estar mais dois ou três anos à espera… de quê? Pelo amor de Deus!”

Em marcha está a segunda fase das obras, que é suposto terminar em julho do próximo ano. Por essa altura, espera o administrador, deverá começar a terceira e última fase para tentar reabilitar um hospital muito antigo e que, reconhece António Dias Alves, não oferece as condições necessárias: “Foram havendo pequenas beneficiações, houve algumas transformações, mas estamos longe do hospital que é preciso nos dias de hoje”.

O administrador estima que o fim da fase C – a última – aconteça em setembro de 2020.

Hospital subdimensionado e subfinanciado

O problema não é único do Hospital de Gaia, mas este está pior que os outros. O diretor do serviço de neurocirurgia explica porquê: “Crescemos muito, diferenciámo-nos e estamos a ser vítimas dessa diferenciação. Cada vez somos mais procurados e temos menos capacidade de responder a toda a gente. Isto é angustiante”, desabafa.

O hospital de Gaia está cronicamente subdimensionado e subfinanciado. Tem 1,6 camas por cada mil habitantes, sendo que o rácio nacional é de 3,4 por mil habitantes e é financiado com menos de metade das verbas de outros hospitais centrais.

Isso leva Maria de Fátima Silva, que está aqui a ser seguida em várias especialidades, a concluir que se consegue o impossível. “Às vezes fazem omeletes sem ovos. Em termos de profissionalismo e competência, estão no caminho certo. Não é fácil estar no lugar onde estão, saber de falhas internas e ter que dar a cara e responder a um público enorme”, frisa.

O diretor demissionário Marques Batista fala numa situação de “rutura iminente” e lembra que a posição tomada “não é contra ninguém”, uma vez que “já passaram vários governos e várias administrações”, mas, acrescenta, “ou isto se resolve rapidamente ou vai correr mal”.

Por isso, estão a aguardar um sinal da tutela. E esse sinal, diz, deve ser dado no próximo Orçamento do Estado. “Tem que haver um reforço orçamental e um sinal que não dê para ninguém duvidar que aquela fase [das obras] vai avançar”.

Já o presidente do conselho de administração sai em defesa do ministro da Saúde: “Eu acho que a tutela tem apoiado o hospital de uma forma firme e constante. Acho que nem tudo se pode fazer de repente. O hospital realmente tem más condições há décadas. O centro hospitalar foi construído há 40 anos, em 1977, e, daí para cá, houve muitos processos, muitos governos, muitas perspetivas”.

Entretanto, o hospital vai continuando a funcionar. “Como vê, eu estou a operar”, faz notar Marques Batista. Mesmo com mais de 50 diretores demissionários.

IN: TSF

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