Um Olhar Diferente Sobre o “Burnout”…

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Nos últimos anos, as notícias sobre o “burnout”, ou esgotamento, nos profissionais da saúde têm sido abundantes, tendo a Ordem dos Médicos realizado um estudo nacional sobre o tema em 2016 e as Ordens dos Farmacêuticos e dos Enfermeiros realizado diversas reuniões nos anos mais recentes.

O “burnout” é descrito como uma resposta ao stress profissional prolongado e manifesta-se sob a forma de um conjunto de queixas somáticas e alterações no estado de humor.

As manifestações mais comuns são do foro afectivo (tristeza, irritabilidade, labilidade emocional, apatia), cognitivo (capacidade de concentração, memória, autoestima), físico (fadiga, dispneia, palpitações, hipertensão, sintomas digestivos, cutâneos, musculares) e comportamental (agressividade, isolamento, consumo de álcool ou outras substâncias, maior risco de acidentes).

As repercussões no ambiente de trabalho são também comuns, assumindo a forma de uma postura mais negativa, menos construtiva, com redução do entusiasmo, do empenho e da eficácia profissional.

De acordo com o referido estudo da Ordem dos Médicos, em 2016 o “burnout” estava presente de forma moderada em 21,6% dos profissionais da saúde avaliados (médicos e enfermeiros) e de forma elevada em 47,8%, sendo as más condições de trabalho o factor mais correlacionado com a sua presença.

São números que só podem impressionar pela sua grandeza e que justificam uma profunda reflexão e, ainda mais, uma adequada intervenção.

No final de Dezembro de 2018, Rajvinder Samra publicou no British Medical Journal um pequeno artigo dedicado à história do “burnout”*

Este termo é atribuído ao psicólogo Herbert Freudenberger que, em  1974, a ele se referiu associando-o aos profissionais da saúde e ainda hoje o “burnout” é entendido como exclusivo desses profissionais.

Curiosamente, três anos antes, em 1971, surgiu um dos primeiros relatórios sobre o “burnout” em locais de trabalho e nele não se abordavam indivíduos com responsabilidades de prestação de cuidados mas sim os controladores de tráfego aéreo norte-americanos, onde se identificavam sintomas de exaustão e declínio da quantidade e qualidade do trabalho realizado.

E o paralelo entre o “burnout” descrito nos controladores aéreos, nos profissionais da saúde e noutros, como as autoridades policiais ou o pessoal docente, é bastante óbvio.

O mau ambiente profissional, escassa formação, equipamento obsoleto, escassas pausas, fadiga, tarefas monótonas, foram algumas das causas então apontadas, para lá de um aumento exponencial no tráfego aéreo acompanhado de um aumento modesto no número de controladores.

Em 1973, na sequência de uma série de colisões aéreas fatais relacionadas com erro humano, a Administração Federal de Aviação solicitou um estudo prospectivo que envolveu 416 controladores aéreos ao longo de três anos. Nesse trabalho está bem patente o “burnout” nas suas diversas manifestações, da hipertensão arterial aos distúrbios de natureza psiquiátrica.

Ainda mais interessante, neste estudo verificou-se que os trabalhadores que desenvolviam “burnout” eram os que exibiam anteriormente melhores indicadores de saúde psicológica, melhor estado de humor, menos ansiedade e menor consumo de álcool. Com base nesses achados, o relatório concluiu que os profissionais que mais temiam o “burnout” eram os mais competentes e mais bem preparados e que o próprio receio de sofrerem de “burnout” surgia como um importante factor desencadeador.

Ou seja, o “burnout” não é apenas uma quebra na resistência individual. Ele pode afectar indivíduos que já estiveram expostos a cenários bem mais difíceis, como no contexto de guerra.

Assim sendo, é importante repensar as mais recentes tendências na educação médica, com um foco crescente no desenvolvimento de resiliência como ferramenta de excelência profissional e de prevenção do “burnout”.

O paradoxo revelado no estudo sobre os controladores aéreos é crucial ao mostrar que são os profissionais que mais se esforçam por atingir os seus ideais profissionais os mais vulneráveis ao “burnout”, sob a forma daquilo que Samra descreve como “altruísmo patológico”, pelo qual os indivíduos que se envolvem de um modo genuíno em gestos altruístas terminam involuntariamente por se magoar a si mesmos e aos que pretendiam ajudar.

Esta visão histórica é reveladora da importância da complexidade do ambiente de trabalho e contrasta com a actual atribuição do “burnout” à mera satisfação das exigências emocionais dos profissionais.

O desempenho profissional e os resultados dependem de factores individuais, de equipa, de organização, de regulação e de natureza ambiental. O modo como todos esses factores interagem é muito complexo mas decisivo.

Portanto, é importante treinar competências que ajudem os profissionais da saúde a lidar com a complexidade, individualmente e em equipa, melhorando os algoritmos de decisão, a comunicação e a resolução de problemas.

O treino preventivo e a formação sobre as reacções normais ao stress laboral agudo e crónico ajudarão a modificar a cultura profissional agora vigente.

A prestação de cuidados de saúde é tão nobre quanto exigente. O stress associado a lidar com pessoas doentes é incontornável e pensar o contrário é meio caminho andado para o insucesso.

A redução do “burnout” passará por medidas a nível organizacional e individual. Os profissionais da saúde devem participar de um modo activo na concepção do seu ambiente de trabalho de modo a que se possam desenvolver locais mais saudáveis e  mais seguros.

O volume de trabalho deve ser reconfigurado em consonância com as limitações cognitivas, emocionais e físicas dos profissionais, existindo, em simultâneo, formação de toda a organização e suporte dos órgãos de gestão.

Nunca conseguiremos criar ambientes de trabalho perfeitos. Em Saúde, a complexidade é crescente, irreversível e inerente à evolução científica. Melhorar as condições em que os doentes são tratados e em que os profissionais exercem as suas funções é um trabalho nunca terminado que a todos deve envolver, num espírito de constante comunicação e de partilha.

O stress nunca poderá ser evitado. Ele é, afinal, um das rodas motrizes das profissões ligadas à Saúde. Mas o “burnout” pode ser mantido bem longe. Isso só depende de todos e de cada um de nós.

* Rajvinder Samra Brief history of burnout, BMJ 2018;363:k5268 doi: 10.1136/bmj.k5268 (Publicado a 27 de Dezembro de 2018)

Fonte: Saúde Online

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