Portugal devia ter urgências descentralizadas e fora dos hospitais

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Perito da Organização Mundial da Saúde defende ainda que deviam ser criados centros de trauma em algumas regiões do país

O perito da Organização Mundial da Saúde Nelson Olim defende que Portugal devia ter serviços de urgência descentralizados e fora dos hospitais para os casos menos prioritários, além de criar centros de trauma em algumas regiões do país.

Em entrevista à agência Lusa, o cirurgião português considera que “o hospital é um recurso demasiado caro e especializado para ser quase desperdiçado em urgências ambulatórias”, com casos menos graves ou prioritários, que deviam estar mais próximos do cidadão.

“Os hospitais, quando fazem uma triagem na urgência, são obrigados a ver o doente independentemente do nível de prioridade. E o hospital tem de despender recursos para isso. Ainda ninguém quis de facto implementar uma urgência descentralizada, que permita ao cidadão que tenha um problema não emergente ou grave ter acesso a um médico sem ser no hospital”, afirma.

A sobrecarga nas urgências acontece, no entender do especialista em emergência médica, porque “não há um acesso fácil ao conselho médico”.

“Tem de haver uma reestruturação profunda das urgências para que apenas os doentes urgentes ou emergentes tenham acesso e sejam observados por profissionais que tenham uma capacidade especifica”, defende.

Essas “urgências ambulatórias”, para casos menos graves ou prioritários, poderiam estar ligadas aos centros de saúde, com acesso a alguns exames complementares de diagnóstico e terapêutica.

“O que não faz sentido no modelo português neste momento é manter a urgência ambulatória dentro do hospital. O hospital é um recurso demasiado caro e especializado. As urgências ambulatórias deviam estar mais próximas do cidadão, descentralizadas e de acesso fácil, provavelmente ligadas aos centros de saúde, com um horário de 24 horas em muitos dos casos. Porque é disto que o cidadão precisa”, advoga Nelson Olim.

“Se uma pessoa acorda às três da manhã a vomitar, até pode precisar de ser vista por um médico, mas não num hospital”, exemplifica.

Os dados oficiais mostram que cerca de 40% dos atendimentos em urgência nos hospitais públicos no ano passado foram considerados pouco ou nada urgentes, sendo quase 2,2 milhões de casos.

O perito nota que chega a ver nas farmácias em Portugal pessoas a pedir conselhos médicos, o que só acontece por não terem um acesso facilitado a um clínico.

Sugere, por isso, uma reestruturação da urgência, defendendo ainda a criação de centros de trauma, porque Portugal “continua a não ter hospitais verdadeiramente dedicados e com capacidade” para o trauma.

Estes centros teriam a cargo casos emergentes decorrentes de acidentes de viação, de grandes acidentes de trabalho ou de outro tipo de desastres.

“A grande diferença destes centros tem a ver com as competências técnicas de quem lá trabalha, além de um vasto leque de meios complementares de diagnóstico e terapêutica disponíveis 24 horas por dia, incluindo, por exemplo, radiologia de intervenção”, explica à Lusa.

Esta é a tendência “que se vai vendo pelo mundo”, com hospitais que têm dentro do seu serviço de urgência centros dedicados ao trauma.

“É o caminho da profissionalização. Não é só a especialidade de urgência e emergência que tem de avançar. Tem de avançar em paralelo uma reestruturação geral da urgência, tornar mais acessível ao cidadão e até mais barata para o Estado, tirando-a dos hospitais. E ao mesmo tempo, do ponto de vista do trauma, criar condições para ter quatro unidades – Porto, Coimbra, Lisboa e Faro – com competências mais dedicadas”, declara Nelson Olim.

Ministério aguarda dados adicionais

O Ministério da Saúde pediu dados adicionais e mais fundamentação ao grupo de trabalho criado para propor medidas que melhorem os serviços de urgência, segundo fonte oficial.

O Governo tinha criado em janeiro um grupo de trabalho para estudar e propor medidas para melhorar os serviços de urgência, sendo que as propostas deviam ser apresentadas em quatro meses.

Questionada pela agência Lusa sobre os resultados desse trabalho, fonte oficial do Ministério indicou que “na ausência de alguns dados relativos a fundamentação, o gabinete da secretária de Estado da Saúde solicitou ao grupo de trabalho informação adicional”, que ainda aguarda para depois analisar.

No despacho que criou o grupo de trabalho, a secretária de Estado Raquel Duarte considerava que “urge criar condições para melhorar o funcionamento dos serviços de urgência”, lembrando que os diferentes serviços de urgência do país têm optado por diversos modelos de organização.

“A existência de equipas dedicadas tem impacto no funcionamento do serviço de urgência e funcionamento dos serviços hospitalares (…). Estes factos aliados ao reconhecimento, na comunidade médica, da medicina de urgência/emergência como uma competência/especialidade médica com características próprias torna necessária uma avaliação das práticas atuais nesta área”, justificava o despacho.

Falta especialidade em medicina de urgência e emergência em Portugal

Portugal é um dos quatro países europeus que ainda não têm a especialidade de medicina de urgência e emergência, mas a Ordem dos Médicos admite estudar em breve a sua criação.

São mais de 80 países no mundo que criaram já a especialidade em medicina de urgência e emergência, 27 deles na Europa, segundo a Sociedade Europeia para a Medicina de Urgência/Emergência, que defende que a especialização e um sistema bem organizado são “capazes de aumentar a sobrevivência e reduzir a incapacidade depois de qualquer situação de urgência ou emergência médica”.

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Em Portugal, o centro da discussão será a Ordem dos Médicos (OM), entidade que tem a competência para definir e criar novas especialidades médicas, como lembra o bastonário Miguel Guimarães.

Atualmente existe em Portugal uma competência em emergência médica, a que pode aceder qualquer médico, mas não há qualquer especialidade específica que englobe medicina de urgência e emergência. São cerca de 780 os clínicos que têm atualmente essa competência em emergência.

O representante dos médicos admite que este debate se possa fazer em breve dentro da OM, contudo não acredita que seja através da criação da especialidade que se consiga alterar o problema dos serviços de urgência em Portugal.

“Neste tipo de matérias, a Ordem faz sempre uma reflexão profunda, juntando responsáveis de várias especialidades. (…) É importante que as várias especialidades que têm liderado o serviço de urgência, como medicina interna ou cirurgia geral, estejam de acordo com a criação da especialidade”, adiantou o bastonário em entrevista à agência Lusa, vincando que esse acordo é fundamental.

Miguel Guimarães reconhece que a criação da especialidade “pode ter vantagens e também pode ter algumas fragilidades”.

Um dos principais problemas que o bastonário antecipa prende-se como o facto de a legislação atual dispensar os médicos de fazer urgência noturna a partir dos 50 anos e qualquer urgência a partir dos 55 anos.

Quando atingem estas idades, os médicos passam a trabalhar nos seus serviços de base, consoante a sua especialidade, o que não aconteceria no caso de uma especialidade de urgência e emergência.

Apesar desta “fragilidade”, Miguel Guimarães também admite que “a diferenciação é o caminho que a Medicina tem seguido” e adianta que os médicos que atualmente têm competência em emergência médica “são altamente treinados para salvar vidas”, o que nem sempre acontece com médicos sem esta competência.

Mesmo encarando que será um tema a debater e a analisar, o bastonário salienta que a criação de uma especialidade não resolve “os graves problemas dos serviços de urgência”, com “condições de trabalho péssimas”, falta de recursos humanos e demasiado afluxo de utentes.

Também o presidente do colégio da competência em Medicina de Emergência, Vítor Almeida, considera que a criação da especialidade não é, só por si, “a varinha mágica que vai resolver os problemas do serviço de urgência”.

Ainda assim, Vítor Almeida considera que a existência da especialidade seria uma “peça fundamental do puzzle”, além de uma reforma e reorganização do sistema.

“Perante o panorama que temos, faz sentido acabar com algumas anomalias. Por um lado, somos um país grande consumidor do serviço de urgência e por outro temos um número muito elevado de médicos sem acesso a especialidade”, exemplificou em entrevista à Lusa.

Vítor Almeida frisa que os padrões europeus apontam “claramente para a implementação de uma especialidade própria” em medicina de urgência e emergência, sendo uma realidade que não se fica pela Europa.

“O caminho é ter uma especialidade própria, independente das outras, seguindo os cinco anos de currículo europeu [em formação especializada, após o curso da Medicina]. E dar aos médicos que hoje já trabalham no serviço de urgência a possibilidade de aceder à especialidade diretamente, mediante avaliação curricular”, defendeu.

A ideia seria que médicos de medicina interna, anestesistas ou cirurgiões gerais, por exemplo, que trabalham já em urgência, pudessem ter acesso à nova especialidade de modo automático, após uma avaliação por parte da Ordem dos Médicos, até para que estas pessoas com experiência “acabem por liderar o processo” de arranque da especialidade e também de formação de novos especialistas.

Ao nível da emergência, em contexto pré-hospitalar, Vítor Almeida recorda que é essencialmente uma atividade do INEM, que tem “muito poucos médicos” a trabalhar a tempo inteiro, além de ter a prestar serviço “muitos médicos” indiferenciados, isto é, sem qualquer especialidade.

“O objetivo é acabar com este tipo de situações e caminhar para o médico dedicado ao pré-hospitalar e com carreira”, argumenta Vitor Almeida.

Ao mesmo tempo, o especialista recorda que há também muitos médicos tarefeiros, indiferenciados, a trabalhar em serviços de urgência básica.

No fundo, a criação de uma especialidade específica iria profissionalizar o trabalho em urgência e torná-lo homogéneo nos vários hospitais do país, com os profissionais a passarem pelo mesmo círculo formativo.

Em declarações à Lusa, o médico português Nelson Olim, perito da Organização Mundial de Saúde, defende que a urgência/emergência “é uma especialidade em si, que requer conhecimentos técnicos próprios e competências que um médico que faz 12 ou 18 horas de urgência por semana não consegue adquirir”.

Convencido de que a especialidade iria “melhorar a qualidade do serviço prestado aos cidadãos”, Nelson Olim entende que será também “um fator importante para ajudar a uma reestruturação maior” dos serviços de urgência no país.

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