“A música ‘Eu Tenho Dois Amores’ não era muito a minha praia”

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Foi há mais de 50 anos que Marco Paulo ingressou no mundo da música, uma área pela qual sempre teve um gosto especial. A sua voz é inconfundível e muitas das suas músicas continuam a fazer história entre os grandes êxitos nacionais

Vive do sabor dos palcos e da alegria dos fãs, não fosse Marco Paulo um eterno agradecido ao seu público, pois foi ele que o manteve, e mantém, neste meio artístico.

Prova disso é que com mais de meio século de carreira, continua a dar frutos. No mês passado lançou o disco ‘Marco Paulo’, um álbum no qual interpreta músicas de outros artistas não menos conhecidos do grande público, como Pedro Abrunhosa.

Os palcos continuam a ser a sua casa e novos concertos já estão a ser preparados, como o de 12 de outubro no Coliseu de Lisboa. Antes, a 21 de junho, fará as delícias dos seus fãs com uma sessão de autógrafos na Fnac do Norteshopping, em Matosinhos.

Antes, o cantor abriu as portas de sua casa para uma conversa com o Vozes ao Minuto, na qual recorda – entre os sons da natureza, a simplicidade do seu dia-a-dia e a companhia da sua carinhosa cadela – alguns dos passos e sucessos do seu percurso artístico, sem esquecer os momentos difíceis. E, claro, o apoio daqueles que continuam a ser os seus ‘patrões’: o público.

No seu novo trabalho ‘Marco Paulo’ interpreta temas de outros artistas. Não é a primeira vez que o faz. Quem continua a ser a sua maior inspiração no meio artístico?

Não tenho. Tenho uns artistas da minha geração que são, como compositores, um bocadinho inspiração minha. Por exemplo, gosto muito de cantar os temas do Roberto Carlos, sinto que aqueles temas foram feitos para mim.

Revê-se nas letras do músico brasileiro?

Sim, nas letras, nas músicas… Dá-me a sensação de que foram feitas para mim. Sinto-me bem, os temas do Roberto Carlos são uma praia em que gosto de estar. Depois não tenho assim mais ninguém… Agora, quando faço versões é de cantores que conheço, mas não é pelos cantores [que o faço] é pelas canções.

‘Marco Paulo’ foi apresentado num concerto solidário no Altice Arena. Sendo uma voz famosa sente que deve contribuir com a sua arte para ajudar causas?

Fui convidado por um amigo e quando me pediu disponibilizei-me para estar presente. Gostei muito, estava lá muita gente e essas pessoas receberam-me muito bem.

Houve algum momento especial que o tenha marcado?

Talvez a minha participação com a Raquel Tavares e com os miúdos do coro alentejano que cantaram comigo uma música.

Foi a primeira vez que cantou com a Raquel Tavares?

Já a conhecia, mas foi a primeira vez que fizemos um disco e que cantamos em palco. Foi uma experiência muito agradável. Praticamente tivemos dois ensaios e correu tudo muito certinho, muito bem. Houve [aquela química] de parte a parte. Ela gosta muito de mim, é minha fã desde o princípio dela. Estávamos ’em casa’. Foi uma noite muito bonita para nós todos. O senhor Presidente também lá esteve e fez questão de me cumprimentar.

É bom ter o reconhecimento do Presidente da República?

É, mas englobo tudo. O senhor Presidente representa os portugueses e eu englobo tudo nos portugueses. Se o senhor Presidente foi convidado e aceitou, foi muito bonito. Mas já é normal da parte dele. Agora o que achei uma simpatia da parte dele foi ter vindo ao camarim cumprimentar-me e dar-me os parabéns. Tiramos fotografias no camarim e, [entretanto], já lhe mandei o meu disco autografado.

Da mesma maneira que não pensei quando comecei, também não penso agora quando é que vou terminar (…) Ainda tenho um público em Portugal que me estima, que me é fielUma das canções deste álbum é o tema ‘Para os braços de minha mãe’. Sente saudades do abraço da sua mãe?

É natural, são 15 anos, mas parece que foram 15 dias. É natural que tenha saudades de alguém que, além de ser minha mãe, era uma pessoa de quem gostava muito. O tempo ajuda muito a pôr as coisas no seu lugar, a acalmarmo-nos, mas a saudade existe sempre. E este tema foi muito giro porque gravei antes de falar com o Pedro [Abrunhosa] e houve um dia em que nos encontramos numa festa e eu aproveitei a oportunidade para lhe dar a novidade. Pensei que o criador e autor do tema podia não aceitar bem, mas ele recebeu logo a notícia com muita emoção. Nem acreditava que eu ia gravar uma música dele. [A verdade é que,] quando ouvi a música disse ‘tenho que pedir ao Pedro para me dar autorização para fazer uma versão ao meu estilo e à minha maneira para a minha voz’. E fiz e fiquei muito feliz por ele ter autorizado. Disse-lhe que só havia uma modificação na música que era a minha voz e o coro infantil, que achei que ficava bem na música. Nunca faria nada, quer para ele, quer para um autor estrangeiro de quem gravo versões, que ficasse prejudicado.

‘Tempo de partir’ também é uma canção presente neste novo trabalho. Já pensou na hora da partida do mundo da música?

Não, não passo o tempo a pensar nessas coisas. Da mesma maneira que não pensei quando comecei, também não penso agora quando é que vou terminar. Ainda não me passou pela cabeça. Há colegas meus muito mais velhos e com uma carreira mais longa do que eu, como é o caso do Julio Iglesias e o Roberto Carlos, e continuam a fazer as suas carreiras e o seu público é muito fiel. Eu, embora seja um pouquinho mais novo do que eles, ainda posso continuar porque ainda tenho um público em Portugal que me estima, que me é fiel.

Isso reflete-se nos concertos…

Sim e nas vendas dos discos. Ainda agora ocupei o primeiro lugar, não sei se ainda está. Um disco que ainda não era conhecido e vai para o primeiro lugar do top nacional na semana em que sai no mercado, acho que é um feito. Estou eternamente grato ao público por quando faço um concerto estarem presentes e quando lanço um disco, embora já não gravasse há dois anos, estarem à espera.

Agora já estou a gostar um bocadinho mais, [mas] não era muito a minha praia o ‘Eu Tenho Dois Amores’‘Eu Tenho Dois Amores’ continua a ser uma música obrigatória nos concertos?

É pelo público, ele gosta. Eu agora já estou a gostar um bocadinho mais, não era muito a minha praia o ‘Eu Tenho Dois Amores’. Mas como o público fez desta música um sucesso tão grande… continuo a satisfazer a vontade do público de a ouvir. Normalmente, nos concertos canto sempre.

Mas aborrece-o cantar esses clássicos?

Gosto muito de cantar músicas novas e de ter um disco novo… O que já gravei há tantos anos, já gravei. Mas tenho que fazer a vontade ao público e eles gostam de ouvir as músicas mais antigas, que eles conhecem melhor. Aborrecido não fico, porque o meu trabalho é sagrado e não posso ficar aborrecido quando canto os temas a que devo o meu sucesso. Agora, se tenho músicas novas gosto de apresentá-las.

Qual é o seu tema preferido?

Tenho várias músicas que gosto muito de cantar. Não tenho nenhuma preferida. Tenho um reportório muito grande, muitos discos gravados… Às vezes para fazer o reportório de um concerto de duas horas (os grandes concertos) tenho alguma dificuldade em escolher a ordem das músicas porque tenho muitas. E tenho que intercalar as mais recentes e as mais antigas. Agora estou um bocado apaixonado pelas músicas novas porque é sempre uma novidade e sinto-me bem. Mas não quer dizer que eu não goste de cantar as outras.

É um dos artistas mais acarinhados pelo público. O que acha que cativou e continua a cativar o público?

Não sei… A minha voz, a minha maneira de me apresentar ao público, sempre muito coesa, muito normal, sem nada que desvirtue a minha função de cantor. Sou cantor! Podia ser jornalista, como podia ser empregado de escritório… Mas sou cantor e tento, através da minha voz, transmitir alegria, bem estar e, essencialmente, emoções. Se vou ver um cantor cantar gosto que a voz e os temas me toquem, me criem emoção, me façam sentir bem, me identifique. E isso talvez seja uma da razões das minhas músicas, da minha voz, das pessoas não se cansarem de ouvir.

E depois tenho acompanhado muito o estilo sem fugir ao meu estilo. Tinha 20 anos e cantava de uma maneira, aos 40 cantei de outra, e agora canto de outra. Sou a mesma voz, a mesma pessoa, mas a maneira de cantar, de estar, tem de ser consoante o momento que atravesso. Não posso estar agora neste momento a fazer o mesmo que fazia quando tinha 20 anos, quando comecei a cantar. Agora é tudo diferente, a minha postura no palco é diferente… Também todos estes anos, e estes tempos, foram para mim uma escola porque quando comecei a gravar e a cantar tinha 18 anos. Não tinha conhecimento de nada, era tudo muito fresco, era tudo muito recente e fazia as coisas com muita ingenuidade. Tudo o que me diziam para fazer, fazia para não desiludir as pessoas. Agora não, agora sou eu que digo como quero, como gosto, porque tive essa escola. Não apareci de um dia para o outro. Hoje isso é tudo mais fácil.

Hoje as pessoas têm uma facilidade muito grande… Gravam um disco, dois e já vão à televisão. Eu não, não fui logo à televisão quando graveiSente isso, que hoje é diferente?

Hoje as pessoas têm uma facilidade muito grande… Gravam um disco, dois, e já vão à televisão. Eu não, não fui logo à televisão quando gravei. Fui à televisão porque fui a dois Festivais da Canção, mas não fui à televisão logo cantar, fui ao festival. Depois quando gravei o primeiro disco, a pouco e pouco, é que fui entrando na televisão. Hoje as pessoas entram todas [logo] na televisão.

Hoje é um mundo mais fácil…

Há mais facilidade e mais espaço.

Mas se calhar também há mais pessoas na áerea?

Sim, há mais pessoas mas as facilidades hoje são muito maiores do que eram antigamente. As carreiras duram é menos. Tive esta escola dos concertos ao vivo, de aparecer numa altura em que as coisas não tinham o que têm hoje como produção. Antigamente era diferente. Se era melhor ou pior, não sei. Eu apanhei as duas partes, os dois lados. Havia toda essa dificuldade em ter um bom palco, um bom camarim, em ter condições de som, luzes. Hoje estou a dar valor porque tenho uma produção grande, grandes salas, grandes palcos, som e luzes, mas isso feito com trabalho desenvolvido ao longo dos anos e com o público a aceitar todo este tempo que tenho levado a cantar. Canto para o público, eles são o principal e, felizmente, onde vou tenho sempre pessoas, umas mais recentes outras mais antigas, a ouvirem-me cantar. Fiz uma carreira profissional com muita naturalidade.

Qual o momento mais inusitado que já viveu com os fãs? Por exemplo, já contou que houve uma altura em que as suas fãs iam buscar água do seu banho para pôr em frascos…

Isso acontecia. Haviam fãs que iam ao hotel onde eu estava pedir um bocadinho da água do meu banho e normalmente conseguiam que o recepcionista, junto da senhora dos quartos. Mas não sei se ela arranjava mesmo porque gosto muito de chuveiro, não tomo banho de banheira. Portanto, sendo assim, a água não ficava na banheira…

Com tantos discos de ouro, tanto sucesso, nunca se deixou deslumbrar pela fama?

Não. Gosto de olhar para os meus discos, eles estão nas minhas paredes porque ali representam as pessoas que me ajudaram a construir a minha carreira. Se hoje tenho uma certa estabilidade e, estes 52 anos de carreira, se lanço um disco e vai logo para o primeiro lugar, se encho locais onde vou cantar é ao público que tenho de dizer ‘obrigado’ e estar-lhe eternamente grato por isso. [Mas] nada disso me encheu o papo. Não fiquei de nariz arrebitado, nada disso. Desempenho a minha função no palco por aquilo que as pessoas esperam de mim como cantor e faço a minha vida normal, estou aqui, saio, visito os meus amigos, aqueles que me visitam também a mim. Quando tenho o meu trabalho foco-me o mais possível…

Como é que reagiu aos primeiros passos pela fama?

Era numa altura em que sair à rua era difícil, entrar num restaurante era muito difícil.

E ainda não existiam as redes sociais…

E só havia um canal de televisão, portanto, não era fácil. Mas convivi sempre muito bem com isso. E hoje em dia [também] convivo bem. É ser igual às pessoas. Se for igual a elas e conviver com elas depois do meu trabalho feito – o meu trabalho é sagrado. Fora do meu trabalho sou um cidadão normal, não faço diferença nenhuma para qualquer outra pessoa. Rico ou pobre, novo ou velho, não faço essa diferença das pessoas. As pessoas são pessoas para mim. Nos espetáculos convivo com as pessoas. Posso estar duas horas a cantar e, às vezes, estou quatro a assinar autógrafos e a falar com as pessoas porque não é só assinar porque me compraram um disco, é saber se as pessoas estão bem, se gostaram do concerto, como estão de saúde. Isso é uma coisa que faço muito porque se não fossem as pessoas, eu não seria o Marco Paulo.

Editou o primeiro disco em 1966, antes da Revolução dos Cravos. Como é que foi fazê-lo na altura? Teve algum tipo de repreensão? Sentiu o peso da ditadura?

Eu não estava cá, estava em Toronto, no Canadá. Quando cheguei, dois ou três dias depois do 25 de Abril, a única diferença que senti foi no aeroporto. Muita polícia. Mas não senti a revolução e antes disso também não me apercebia porque não eram coisas de que se falasse, que fossem conversas de café ou de casa. Agora, depois de voltar do Canadá, onde tinha estado a fazer uma digressão, senti a diferença, até mesmo nos espetáculos. De tal maneira que não havia concertos. Havia para outro género de cantores, mais de intervenção. Depois voltei novamente a fazer o circuito normal dos concertos e tive a sorte de ter ‘Eu Tenho Dois Amores’, ‘Ninguém, Ninguém’, ‘Morena, Morenita’… Tanta música de sucesso que depois nunca mais parei. Corri o mundo inteiro e ainda o faço, mas não tanto como fazia anteriormente quando cantava sozinho. Hoje, como tenho uma logística de concerto diferente, já não é tão fácil deslocar-me para fora de Portugal com a equipa que tenho.

Chegou a ir à tropa… Como foram os tempos a cumprir serviço militar na Guiné-Bissau?

Tenho saudades e estou a pensar ir lá brevemente…

Que bagagem lhe deu essa experiência?

Foi na altura do conflito que havia e (…) fui substituir um camarada meu que era escriturário. Quando cheguei lá, fiquei mesmo no centro da cidade. Estive lá 18 meses. De vez em quando fazia algumas atuações, na altura do Natal, da Páscoa, de aniversários. Estava sempre presente porque já ia com nome feito daqui do continente.

Então o que fazia era escrever?

Estava na secção de justiça militar. Escritório. Estava na cidade.

Tenho a impressão que ninguém fez a carreira que eu tenho feito até agora. Não ganhei festivais, mas ganhei esta carreira de 52 anos em plena atividadeEm 1967 participou pela primeira vez no Festival da Canção com o tema ‘Sou tão Feliz’. Hoje, olhando para trás, foi verdadeiramente feliz?

Acho que estava tão nervoso, tão sério que por muito que dissesse ‘sou tão feliz’, não estava a achar. Depois cheguei a uma altura em que reparei que a minha canção não ia alcançar uma pontuação boa. E acabou por ganhar o Eduardo Nascimento com ‘O Vento Mudou’. Depois voltei novamente a concorrer com o ‘É O Fim Do Mundo’ e também não fui classificado, mas tenho a impressão que ninguém fez a carreira que eu tenho feito até agora. Não ganhei festivais, mas ganhei esta carreira de 52 anos em plena atividade.

Em relação ao Festival da Canção, comparando com quando participou, nota alguma diferença?

Continuo a acompanhar, mas já não tem aquele espírito que tinha naquela altura. Sei que no dia em que fiz o festival, que não ganhei, não podia ir à rua, dar um passo. Para já era muito jovem, em segundo lugar tinha boa figura e tinha uma voz que as pessoas gostavam muito, diferente do que era normal. Depois levava sempre canções muito fortes, mas que não eram festivaleiras. Só tive um bocado de receio quando fui para a tropa, que a minha carreira ficasse por ali. Mas não, estava numa boa editora, tinha um bom produtor… Eles conseguiram contrabalançar as coisas de maneira que eu estivesse na Guiné e que viesse de seis em seis meses ao continente, e pudesse gravar. Quando eu voltava lançava os discos e vendia os discos como cerejas.

Em 1978 vendeu mais de 50 mil cópias do tema ‘Canção Proibida’. O que é que nunca proibiu na sua vida ou o que esteve sempre presente?

Como não tinha grandes estudos, era um bocado ignorante porque não me apercebia de nada, não sabia de nada. Só cantava. As pessoas gostavam de me ouvir e eu gostava de me ouvir. Mas tinha sempre aquela preocupação de desempenhar a minha profissão com muita dignidade porque não ia servir só um patrão. Ia servir os meus patrões que era o público. Eles é que compravam os meus discos e me iam ver cantar.

Já contou em outras entrevistas que o grande apoio na sua carreira foi a sua mãe…

Foi porque não tinha o apoio do meu pai. Ele era uma pessoa encantadora, mas não tinha o apoio dele. A minha mãe apoiava-me como todos as mães, elas são um bocadinho vaidosas. Para as mães, os filhos delas são os mais bonitos, os melhores, e qualquer mãe, por qualquer falha que os filhos possam ter, ela defende-o sempre. É natural que a minha mãe reparasse que aquilo que eu gostava mais de fazer era cantar, porque eu andava sempre a cantarolar. Tanto que ia para empregos que o meu pai me arranjava e passava o tempo todo a cantarolar. Ia sempre para escritórios porque era aquilo que gostava de fazer e nos intervalos, hora do almoço, estava sempre a cantar. Sentia o feedback da parte dos funcionários, dos patrões, os encarregados toleravam porque gostavam de me ouvir cantar.

Os meus pais sempre me disseram que a profissão de músico não era bem vista nessa altura. Era de pessoas que não tinham mais nada para fazer, de pessoas que não sabiam fazer mais nada. mas achava que isso não era verdadeE há algum conselho da sua mãe que ainda hoje permaneça?

Os meus pais sempre me disseram que a profissão de músico, ator, não era uma profissão muito bem vista nessa altura. Era de pessoas que não tinham mais nada para fazer, de pessoas que não sabiam fazer mais nada. Achava que isso não era verdade mas bebia tudo o que o meu pai me dizia sobre o futuro. A preocupação dele era o futuro. Se eu chegasse à idade que cheguei, se eu vivesse mais anos e os artistas hoje são muito populares e passado um ano ou dois já ninguém se lembra deles… Eles preocupavam-se muito com o futuro e isso ficou-me marcado. Nunca pensei de a partir dos meus 20 anos governar a minha casa até hoje. A minha voz me ajudar a governar a minha casa, a minha independência. Viver exclusivamente da minha voz. A ela devo-lhe tudo. Só não lhe devo a saúde porque a minha voz não é médica, só não lhe devo o ser eterno porque não se pode ser. Sou do tempo em que para ter um disco de ouro tinha que vender 50 mil discos, enquanto hoje basta vender 7.500. E eu ganhava esses prémios em 15 dias, um mês.

A sua avó cantava no coro da igreja, o tio pertencia à banda da GNR e o pai tocava na “banda da terra”… A música sempre esteve presente na sua família? Isso influenciou-o de alguma forma, ou a música já nasceu consigo?

Não porque não cheguei a conhecer a minha avó, nem nunca vi o meu pai a tocar ou o meu tio. Não foi influência, foi uma coisa natural, já nasceu comigo. Nós somos quatro irmãos, agora três porque a minha única irmã faleceu há três anos, portanto, sou eu e mais dois irmãos, um mais novo e outro mais velho do que eu. E nenhum [sabe cantar], nem pensar. Era o único que gostava de cantar, gosto de cantar, e tenho voz para cantar tudo aquilo que quiser. Se quiser cantar ópera, canto ópera, se quiser cantar fado, canto fado, se quiser cantar uma canção romântica, canto… Mas como tive um estilo que criei e que o público se habituou a ele, não tenho necessidade de mudar. O que está bem não se muda.

Além da música, concretizou mais um sonho: foi apresentador de televisão. No primeiro episódio do programa ‘Eu Tenho Dois Amores’, em 1994, quando se estreou nesta área, disse: “Os meus dois amores são as cantigas e a televisão”. Hoje, continuam a ser esses os seus dois amores?

Não. Os meus amores agora são os meus fãs, a minha família, os meus compadres, os meus amigos, que fazem parte daquele grupo de um dos meus amores, que são as pessoas mais próximas de mim. Depois tenho o meu afilhado, que é como um filho.

Ao fim de mais de 50 anos de carreira, se pudesse mudava alguma coisa no seu percurso ou fazia tudo igual?

Não mudava nada. Nem músicas, nem produtoras, tudo o que tive foi gente que me ajudou muito.

Sem dúvida que o apoio do público foi fundamental durante a sua carreira, principalmente nos momentos difíceis por que passou. Além da família, foi pelo público que lutou quando foi diagnosticado com cancro?

Lutei primeiro para me salvar. Tentei lutar para poder ter a oportunidade de viver mais alguns anos. Felizmente já lá vão 22/23 anos desde que tive o primeiro problema. Depois claro que tive a ajuda do público, da família mais próxima, uma criança com cinco anos, que era o meu afilhado, sempre próximo de mim, também me deu muita força. O público sempre muito generoso comigo e não aceitava que eu pudesse estar com cancro. Nunca lhes passou pela cabeça que isso pudesse acontecer. E têm sido talvez essas coisas que me têm dado força e ao mesmo tempo quando alguma coisa menos boa me acontece, dar a volta. Sei que tenho um apoio muito grande.

O que se sente quando se consegue matar o ‘bicho’ do cancro? O que lhe veio logo à memória?

Chorar. Quando me disseram que as coisas estavam tratadas, que tínhamos vencido esse grave problema, chorei eu, choraram os médicos, choraram os enfermeiros, chorou a família, amigos.

Foi um momento muito emotivo?

Foi! Quando os últimos exames apareceram e que eu podia sair do hospital porque tinha tudo corrido bem, foi chorar e dizer à Nossa Senhora que lhe agradecia muito e agradecer a Deus por me ter ajudado a ultrapassar aquele problema.

O que mais pediu a Nossa Senhora?

Pedia que me desse a oportunidade de voltar a cantar. Pensava que a partir daí já não ía cantar. Ela sempre me ouviu e Deus sempre me ouviu. Quando peço à Nossa Senhora, peço a Deus. Isso é que é a minha devoção. Hoje não lhe peço tanto, mas agradeço. Ainda há dias estive em Fátima com uns amigos e não fui à Nossa Senhora pedir porque não é a santinha que está ali e que toda a gente lhe vai pedir coisas. Eu pedia nas alturas e agora vou-lhe agradecer e às vezes lembro-me de pessoas que me pedem a mim, para eu pedir à Nossa Senhora. Tento fazer aquilo que me pedem, mas não sou um santo, sou o Marco Paulo. O humilde cidadão que canta e que é conhecido, muito conhecido.

Não há muito tempo teve outro susto de saúde… Temeu pelo pior?

Eu não me apercebi muito. E nessas alturas tento não me aperceber porque ter um problema de saúde qualquer pessoa pode ter – uns têm mais sorte, outros menos, uns conseguem continuar a fazer a sua vida normal, outros não ficam cá. Portanto, nessas alturas tento não me aperceber e ser um bom doente, porque também é importante. Não há bons doentes, ninguém quer estar doente, mas tentarmos compreender e tentar saber que há sempre alguém que está pior do que nós e não tem ninguém que lhes diga: ‘Está melhor? Precisa de alguma coisa?’ Eu nesse aspeto, felizmente, tive e estou-lhes muito grato.

Mas não teve nada a ver com cancro?

Não! Foi uma baixa de tensão que tive porque não me alimentava convenientemente. Tinha muitos concertos e não me alimentava. Mas agora está tudo bem, tudo resolvido, como felizmente aconteceu com o cancro, com o rim… Sinto-me bem, com mais força, com mais garra. Quando se tem um problema qualquer na vida e que não é muito agradável, parece que nós nos enchemos com muita força e coragem. E é isso que tem acontecido.

‘A Chave do teu coração’ é outro tema cantado por si… Quem tem a chave do coração de Marco Paulo?

Ninguém, nem eu!

Nem a sua mãe?

A minha mãe tem-me a mim, não tem só a chave do meu coração. Um dia a gente vai encontrar-se. E se eu puder, se lá em cima puder, gostava de poder cantar para ela. Mas ninguém tem a chave do meu coração. Sou uma pessoa livre, sou de todos, de toda a gente. Tento ser o mais carinhoso, o mais agradável, o mais generoso para todas as pessoas. Um bocadinho como o meu afilhado. Como sendo meu afilhado, não vê as pessoas pela idade, pelo seu estado social, ele dá-se com toda a gente, tem um coração tão generoso que não faz diferença nenhuma das pessoas. E eu também não faço. Às vezes as pessoas até se admiram e dizem: ‘Oh Marco Paulo, você é o Marco Paulo, está assim a falar com toda a gente?’. Não, eu sou o Marco Paulo porque as pessoas quiseram que eu fosse o Marco Paulo.

Como é que gostava de ser recordado quando se retirar dos palcos?

Sei, porque sou humano, que vou ter saudades. Porque hoje se estiver um mês sem ir à televisão, sem cantar, sem ensaiar, sinto saudades, vontade de voltar a fazer tudo isso. Agora quando um dia pensar que em tal data vou deixar de cantar – sabe que eu também ouço muitas pessoas e quando digo que vou deixar de cantar noto que ficam tão tristes, choram, ficam tão emocionadas porque passaram momentos tão felizes a ouvirem-me cantar, momentos que elas nunca sabem como é que me hão-de agradecer. Esta notícia nunca vai ser fácil de dar porque sei que muita gente ao saber que já não pode ir aos meus concertos, já não pode ver-me na televisão, é como se o mundo para essas pessoas desmoronasse. Sei porque falo com elas, não estou a dizer isto da boca para fora.

Fonte: Lifestyle Sapo

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