A TENSÃO QUE BATE LÁ DENTRO

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Quantas vezes se avaliam tensões arteriais por dia em Portugal e no mundo? Fora e dentro dos meios hospitalares?
Parecendo ser algo simples,  que permite logo uma confirmação do estado de saúde, todos parecemos mais ou menos “letrados” nesta simples tarefa.  Contudo, avaliar uma tensão pode ser  bem mais complicado e requerer mais cuidado do que à partida parece.

Começando por analisar algumas questões:

  • Como é que a pessoa se começa a sentir depois de conhecer o valor que resulta da avaliação da tensão arterial?
  • Quando é que se avalia: antes e/ou depois de que situação?
  • O que é que a pessoa procura quando recorre a um aparelho ou a um local para ser avaliada a tensão arterial?

A tensão pode sofrer oscilações  ao longo do dia; a braçadeira pode ser colocada indevidamente; pode haver situação de stress ou de calmia,  e não só, mas algumas vezes, pode oscilar por uma alteração metabólica que pode levar a uma cronicidade e mesmo ao diagnóstico de “Hipertensão”.

Quando o coração bate, a pressão para levar o sangue ao corpo, e fazê-lo mobilizar-se, é exercida resultando na chamada sístole; e quando ele “relaxa” para “ganhar novo fôlego” faz o que se designa de diástole. Portanto, conforme andar o coração e todo o sistema cardiovascular, tudo o resto se exalta ou se perturba até o encontro da homeostase.

Há causas metabólicas que podem decorrer, mas referindo-nos ao sistema nervoso e a sua influência na tensão, só o facto de estares a pensar que vai decorrer uma avaliação- em jeito de teste- já pode resultar num frenesim. Depois de sabido o resultado, se alguém olhar para o ecrã e fizer cara feia, ou disser que “está mesmo mal” ou “está mesmo baixa/ alta”; “realmente está pálido”, com alguma convicção, o avaliado pode começar a acreditar que seja mesmo verdade e passe a somatizar, em si, aquilo que não sabia que tinha, mas passou a ter.

A questão está quando- em caso de existir um gatilho nervoso-  te colocas na hipótese que é o valor que um aparelho te dá, que dita e confirma, ou não, o modo como te sentes depois de saberes.

Não são escassas as vezes que uma boa conversa que toque nos assuntos chave que levaram a uma agitação nervosa se traduzam numa queda vertiginosa da tensão e a tornem “normal”, e promovam, conjuntamente ou não, com a respectiva prescrição, numa calmia e relaxamento.

Isto de dizermos que os utentes estão “normotensos” e que a tensão  “está boa” tem muito que se lhe diga.
Primeiro: o conhecimento de quem avalia e do próprio conceito de ser “normal”.
O que é normal e anormal? Há parâmetros mais extremos que podem ser mais fáceis de observar, mas o que é “normal” para nós, pode não ser um hábito para os outros.

Daí que,  por exemplo, nas gestantes se realize o “Roll Over” que permite uma avaliação em vários pontos para confirmar a veracidade da suspeita com a parte científica basilar para justificar o diagnóstico.

Uma tensão avaliada esporádicamente, não faz a observação final.

Recentemente,  observei uma tensão avaliada com a braçadeira no punho que resultou em 190/95mmhg; que depois foi corrigida para o local devido acima do antebraço – flexura – com o novo resultado de 140/82mmhg.
Após esta variante,  mudou-se de aparelho para confirmar.  Já com o novo aparelho, avalia-se de novo no pulso e a tensão resultante é a  de 120/80mmhg;  acabando-se por corrigir o local e colocar-se a braçadeira  acima do antebraço com o resultado 107/78mmhg.

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O braço que estava a ser avaliado era o mesmo, a pessoa não se deslocou de onde estava. Os aparelhos eram diferentes. Mas porquê um valor tão diferente?

A resposta mais óbvia, é a do local onde foi colocada a braçadeira. Mas há outros factores. Reparou-se que o cabo do primeiro aparelho utilizado tinha uma pequena fuga no encaixe, que inclusive  a tinha porque, por ser comprido, estava indevidamente dobrado, o que dificultava a leitura no monitor.
Por sua vez, desconhecia-se a regularidade dos aparelhos serem ou não calibrados- porque os aparelhos utilizados também podem e precisam de ir a revisão.

Por vezes o simples facto de se avaliar depois da pessoa mudar de postura, pode resultar nesta diferença.

A título de reflexão refiro que por exemplo um oxímetro para avaliar a saturação a uma criança, se não apresentar o cabo devidamente esticado, pode dar saturações muito diferentes e já ditou o ela “estar bem” ou “estar mal”. Pude viver isso na pele um dia quando o meu filho teve necessidade de estar internado e quando no último dia, eu já o sentia bem, mas o oxímetro insistia em dizer que ainda tinha saturações de 89%, e bastou desenrolar-se o cabo para se perceber que já tinha uma saturação de 97%…

Portanto, a verdadeira questão é se passas a ser aquilo que o aparelho dita, ou aquilo que vives em ti.
Se passas a ser aquilo que o outro diz que tu és e que tens, ou se és aquilo que sentes e que acreditas.

Há que diagnosticar o motivo para os aparelhos darem os valores que dão; onde é que hoje em dia se avalia a tensão; por quem e o que  é que ela representa naquele momento; o que é que a pessoa viveu; e se até o que comeu pode estar a interferir.

Sem me alongar mais fundo nas causas que possam originar, incido, conforme refiro acima, sobre a “tensão nervosa” e chamo esta particular atenção:

Não basta pegar num aparelho. É preciso ter olhos de lince e perceber quem e o como antes de se aceitar como verdade e ver para além do que os olhos vêm.

O enfermeiro é aquele ser que estudou para fazer uso da ciência e do seu juízo crítico.

Lúcia Matias
Mestre em Enfermagem Avançada.

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