“Eliminar a Hepatite C não significa a eliminação das sequelas da doença”

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No âmbito da meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a eliminação da Vírus da Hepatite C (VIH) até 2030, entrevistámos a Diretora Técnica do Programa de Substituição em Baixo Limiar de Exigência da Organização não-governamental para a Inclusão Social Ares do Pinhal, Elsa Lucas Belo.

 

Saúde Online (SO) | A associação Ares do Pinhal atua essencialmente em 4 áreas de intervenção: Redução de Danos, Tratamentos, Reinserção e Formação. Pode, por favor, explicar-me sucintamente no que consistem?

Elsa Belo (EB) | Sim, Ares do Pinhal atua em várias vertentes ligadas à intervenção nos comportamentos aditivos e dependências. Foi a primeira resposta da sociedade civil a este fenómeno em 1986, quando o país se confrontava com a elevada prevalência de pessoas com problemas de consumo de drogas, sem resposta! A Ares do Pinhal surge primeiro com a resposta para o tratamento com uma Comunidade Terapêutica, situada fora dos grandes centros populacionais, em Mação, que é uma zona de pinhal e por isso o nome Ares do Pinhal (ar puro). Atualmente, a Comunidade Terapêutica está dividida em 4 fases, sendo a terceira fase mais voltada para a formação e reinserção familiar, social e laboral. A quarta fase é um Apartamento Terapêutico para quem necessita de autonomização com suporte. Ninguém sai do Projeto Ares do Pinhal com alta clínica sem enquadramento ou sem inserção, desde que tenha saúde, claro!

Em 1997, no contexto de reabilitação do Bairro do Casal Ventoso, fomos convidados pela CML para desenvolver o Programa de Substituição Opiácea de Baixo Limiar de Exigência, uma intervenção sobre uma população completamente refém da rotina do tráfico e consumo de drogas, em situação de sem abrigo, com comportamentos de risco contínuos, numa situação de destruição absoluta. Hoje em dia, esse mesmo Programa estendeu-se a toda a cidade de Lisboa, através de Unidades Móveis que vão de encontro aos vários focos de consumo na cidade e a locais de fácil acesso às pessoas que dele necessitam. É sobretudo um Programa de saúde da pessoa e de saúde pública. Fazemos a ligação das pessoas aos serviços sociais e de saúde. Acompanhamos cerca de 1200 utilizadores de drogas por dia numa relação de confiança e proximidade.

O desenvolvimento deste Programa, que é hoje reconhecido pela OMS como um Programa de Boas Práticas no tratamento das doenças infeciosas (o que muito nos orgulha), é apoiado pelo SICAD, pela CML e monitorizado pela ARSLVT – DICAD.

SO | É prática habitual fazer análises clínicas para despistar a eventual presença de doenças transmissíveis, como o VIH, Hepatites, Sífilis e Tuberculose. Quando o resultado é positivo o paciente é referenciado para a consulta de especialidade. No caso da Hepatite C, como é efetuado todo esse processo?

EB | É verdade! Tentamos que todos os doentes que passam por nós façam análises a esses marcadores, através de um protocolo já antigo com o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge. No caso dos positivos para a Sífilis, é administrado o tratamento nas Unidades Móveis. No caso do VIH, a referenciação é feita de imediato para as consultas de especialidade hospitalar com quem temos uma ligação direta já consolidada. A nossa equipa acompanha à consulta os doentes que necessitam desse apoio, e todos os casos são monitorizados em relação aos exames complementares de diagnóstico, consultas e medicação ATV.

A Hepatite C veio trazer-nos outros desafios. Temos vindo a percorrer um caminho nem sempre fácil. Inicialmente tentámos fazer “o encaminhamento convencional”, através das Unidades de Saúde Familiar, mas tendo em conta a dificuldade de mobilização dos nossos doentes, desenvolvemos protocolos informais com as consultas de especialidade dos hospitais. Temos trabalhado em parceria muito próxima com alguns especialistas de Gastro que têm dedicado muito do seu tempo pessoal a avaliar e a tratar estas populações mais vulneráveis e temos ainda o privilégio de contar com uma especialista que se desloca às nossas Unidades Móveis para avaliar os utentes que têm dificuldade em se dirigirem à consulta hospitalar.

No fundo, procuramos sempre inovar e ir atrás de respostas que possam ser mais fáceis e mais rápidas para as pessoas que acompanhamos. Neste momento, por exemplo, estamos a fazer rastreios nas Unidades Móveis com teste rápido para a definição de RNA da Hepatite C, através duma parceria com a Cepheid. Esta parceria tem sido excecional, têm sido gratificante ver que podemos com muita rapidez fazer a triagem das pessoas que necessitam de tratamento e isso tem evitado inúmeras deslocações e desgaste quer da equipa quer dos doentes.

SO | Qual o papel que  os Centros de Saúde podem desempenhar neste processo?

EB | Os Centros de Saúde podem e devem ter um papel fundamental quer no rastreio quer no encaminhamento para o tratamento da doença, mas fundamentalmente a nível da população em geral, já que as populações de risco vão tendo outras respostas mais indicadas junto das Equipas. Se os Médicos de Medicina Geral e Familiar não tiverem a clara consciência da importância do seu papel na eliminação do Vírus da Hepatite C, Portugal não vai atingir o objetivo definido pela OMS.

SO | Já estão a trabalhar em conjunto com os Centros de Saúde? Se sim, com quais e em que medidas?

EB | A nossa população dificilmente se consegue organizar para se deslocar ao Centro de Saúde e ir a uma consulta com data e hora marcada. Também lidamos com o problema do afastamento destas populações do Sistema Nacional de Saúde desde há muitos anos, o que significa que não têm médico de família atribuído e às vezes nem RNU! A proximidade das equipas de Redução de Riscos e Minimização de Danos tem permitido apesar de tudo a aproximação e a inserção destes doentes no Sistema Nacional de Saúde e Social.

A Unidade de Saúde Familiar (USF) de Sete Rios e Lumiar têm ajudado a desbloquear algumas situações mais emergentes principalmente quando se trata da saúde da mulher ou de cuidados de enfermagem.

Temos em vista a colaboração mais próxima com a USF da Baixa, devido ao facto de esta lidar de perto com as populações migrantes, que no nosso Programa têm aumentado significativamente nos últimos anos.

Mas o objetivo de Ares do Pinhal é fazer a ligação de todos os doentes ao Centro de Saúde da sua área de residência, mesmo sabendo que pode levar muito tempo a concretizar.

SO | Têm em curso algum projeto de aproximação dos pacientes à cascata de cuidados de saúde?

EB | Sim, esse tem sido o nosso foco. No que concerne à Hepatite C, temos um acordo com a consulta de Gastrenterologia do Hospital de Santa Maria que tem permitido a consulta e exames complementares (tudo feito no mesmo dia), no mesmo ato médico, ficando despois a Ares do Pinhal responsável por dar todos os outros passos necessários, como a articulação com a Consulta e com a Farmácia Hospitalar até fazer chegar ao doente o tratamento administrando.

Com o Hospital Egas Moniz temos tido a possibilidade de ter no terreno uma médica de Gastrenterologia, que vê o doente nas nossas Unidades Móveis, ficando a Ares do Pinhal responsável por complementar tudo o que é necessário até à cura. Fazemos nós a colheita de sangue e transportamos para o hospital, articulamos com a Farmácia Hospitalar, levantamos a medicação, administramos e registamos em Toma de Observação Direta (TOD).

Mas o nosso trabalho não é só com estes Hospitais. Vamos fazendo um trabalho de articulação próxima com o Hospital dos Capuchos, com o Hospital Curry Cabral, com o Hospital Beatriz Ângelo e posso garantir-lhe que existem muitos médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar empenhados em trabalhar connosco na eliminação do Vírus da Hepatite C. Mas tudo faz parte de um caminho que leva tempo a percorrer…

SO | Existe disponibilidade dos serviços de cuidados de saúde hospitalares se deslocarem aos domicílios dos pacientes fazerem um acompanhamento mais rigoroso?

EB | Só posso responder em relação à disponibilidade que demonstram em colaborar connosco e sob esse aspeto só podemos dizer bem. O importante é que os médicos dos serviços hospitalares saibam que há equipas de proximidade que podem, em parceria, fazer a extensão do trabalho hospitalar cá fora. A nossa equipa está preparada e já deu muitas provas disso mesmo. Temos uma equipa multidisciplinar, a formação necessária e as condições para fazer esse trabalho de articulação com todos os serviços.

SO | Acredita que Portugal vai cumprir a meta de eliminação da Hepatite C até 2030?

EB | Acredito sim!

SO | A Ares de Pinhal já sente uma diminuição de casos de VHC dentro da população que acolhem e tratam?

EB | No Programa de Redução de Danos deparamo-nos com uma percentagem muito interessante de pessoas já tratadas, e no Programa das Comunidades Terapêuticas todas as pessoas fazem tratamento, pelo que existe uma diminuição geral de pessoas infetadas. No entanto, muito há ainda por fazer para atingirmos a eliminação da Hepatite C na nossa população.

SO | Quais os maiores desafios no que toca à erradicação desta doença junto da população de toxicodependentes?

EB | São vários! Desde a educação, à prevenção, ao rastreio, à ligação aos cuidados de saúde e à sensibilização para o tratamento que continua a ser desvalorizado por algumas pessoas. Mas o maior desafio penso que será chegar às pessoas, rastrear e avaliar, fazendo um trabalho de monitorização que permita o cumprimento do tratamento até ao fim, sem as perder de vista. Depois, apostar também na prevenção da reinfeção caso os comportamentos de risco se mantenham.

SO | O que é possível fazer para melhorar as práticas de forma a cumprir a meta estabelecida pela OMS?

EB | É sair para fora dos serviços e ir ao encontro das pessoas e fazer pontes com a sociedade civil. A Ares do Pinhal tem colocado em primeiro lugar a intervenção sustentada por princípios éticos em que o doente tem de ser sempre o centro da nossa prática. Penso que é fundamental trabalhar a literacia em saúde.

SO | Para eliminar o VHC é necessário atingir as populações marginalizadas pela sociedade. Quais as principais preocupações da associação, tendo em conta a experiência que têm no terreno?

EB | Não chegar a todas as pessoas, por exemplo pessoas que abandonam o nosso Programa, familiares e amigos dos utentes que possam estar contagiados.

Por outro lado, temos diagnosticado um conjunto de barreiras que temos de ter em conta para envolver este tipo de pessoas no processo de tratamento, nomeadamente: estigma nos hospitais, formalidades burocráticas, tempos de espera dos hospitais, o tempo de espera para a chegada da autorização da medicação, entre outros, o que faz com que se percam muitas pessoas pelo caminho.

Também nos preocupa o facto de estarmos dependentes da “boa vontade” e disponibilidade pessoal dos médicos e equipas para marcação de consultas e follow-up das situações, pois essa questão pode significar a não continuidade do acompanhamento e de cuidados necessários futuros.

Depois, tendo presente a marginalidade desta população, temos receio de não conseguir chegar a tempo de situações que evoluam para cancro/cirrose e outras.

Por fim, eliminar a doença não significa a eliminação das sequelas da doença. Preocupa-nos que não existam estruturas adequadas para dar suporte a estas situações.

 

EQ/SO

Fonte: Saúde Online

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