O cancro da próstata e a sexualidade: as explicações de um urologista

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O cancro de próstata é muito sensível à radiação pelo que a radioterapia é uma opção terapêutica eficaz na cura da doença. Existem várias modalidades de administração desta energia: externa ou intracorporal, com várias técnicas que permitem conformar a energia administrada de modo a poupar os tecidos circundantes. Embora não tenha repercussão imediata e direta sobre os feixes vasculo-nervosos, os seus efeitos a médio prazo 3-5 anos, acabam também por se refletir na capacidade erétil, de causa neuro-vascular.

Já o tratamento cirúrgico denominado prostatectomia radical, implica a exérese da totalidade da próstata, vesiculas seminais e gânglios regionais, ao contrário das cirurgias para a doença benigna, em que apenas é removido o interior da próstata. São candidatos a cirurgia os doentes com doença localizada ou mesmo localmente avançada. Existem feixes nervosos, responsáveis pela obtenção da ereção que correm intimamente relacionados com as faces laterais do órgão, e que podem ficar seccionados ou seriamente comprometidos durante o procedimento cirúrgico, quer de forma direta quer indireta por ação das fontes de energia usada.

Convém referir que o urologista se concentra em primeiro lugar na exérese completa do órgão, no sentido de não deixar tecido remanescente – margem cirúrgica negativa. Existem também técnicas cirúrgicas que permitem poupar um ou os dois feixes vasculo-nervosos, mas que dependem da extensão local da doença e da sua localização particular.

Destacam-se as técnicas que recorrem a cirurgia laparoscópica ou robótica. Num mundo cada vez mais apoiado em recursos tecnológicos, a esmagadora maioria das publicações incidem sobre os resultados da cirurgia robótica, que são similares aos da cirurgia aberta em termos de margens cirúrgicas, um pouco melhores no que diz respeito à continência e tendencialmente superiores na preservação doa feixes vásculo-nervosos. Ainda assim os melhores resultados dependem em primeiro lugar do cirurgião. Se os feixes ficarem danificados existirá uma disfunção da ereção de causa neurogénica.

A recuperação

A recuperação dependerá sempre de uma multiplicidade de fatores. As co-morbilidades como é o caso da diabetes ou hipertensão, os hábitos de consumo ou adição, a capacidade sexual e erétil prévia ao diagnóstico, uma relação estável com parceira disponível para acompanhar e intervir ativamente no processo de reabilitação, são fundamentais. No caso do tratamento hormonal é expectável um retorno à normalidade, decorridos cerca de 18-24 meses após a interrupção dos fármacos.

Nos doentes submetidos a radioterapia quer externa quer com braquiterapia, uma reabilitação precoce com auxílio de fármacos vasodilatadores, permite uma manutenção da capacidade eréctil e retardam as consequências mais tardias.
Nos doentes submetidos a cirurgia, também a intervenção precoce, através do uso dos mesmos fármacos, acrescida do recurso a dispositivos de ereção por vácuo, são fundamentais e importantes na reabilitação. Na realidade porém, estas medidas nem sempre são iniciadas precocemente devido à incontinência urinária consequente à cirurgia, que poderá nalguns casos demorar várias semanas ou meses até ser atingida; ou se existe necessidade de tratamento complementar com recurso a radioterapia externa. É expectável a recuperação total ou parcial da capacidade eréctil a partir dos 6 meses de pós-operatório. Nos casos em que a perda da ereção é total, após os 12 meses, a única solução possível é o recurso à colocação de prótese peneana.

Um acompanhamento especializado e multidisciplinar por parte do urologista, equipa de enfermagem dedicada e andropsicólogas. É necessário captar e estimular a adesão do doente e sua parceira no sentido de compreenderem e aceitarem as diferenças inerentes à nova situação de forma a diminuir a taxa de abandono e desinteresse. As mulheres dos homens com cancro de próstata têm um papel muito importante e ativo na reabilitação sexual daqueles.

Combater o negativismo e o isolamento a que estes doentes habitualmente se remetem, com a informação especializada adequada, acompanhamento por parte da equipa médica e um bom apoio familiar.

Os números do cancro da próstata

O cancro de próstata é muito prevalente, sendo a doença maligna mais frequente no homem. Segundo os dados reportados a 2009 pelo Programa Nacional da Doenças Oncológicas da DGS, a incidência é cerca de 108 casos por 100.000 homens.
O conceito de recuperação sexual carece de melhor definição. Se se pensar num retorno completo à situação pré doença a taxa é relativamente baixa, cerca de 25-30% dos casos. No entanto, é possível conseguir obter capacidades erétil que permita uma relação penetrante capaz e satisfatória em muitos casos, obviamente dependentes da multiplicidade de fatores já enunciada. Como mensagem final gostaria de dizer que na esmagadora maioria dos casos é possível e desejável manter a sexualidade do casal, mesmo que não se atinga uma capacidade erétil total de forma espontânea.

Um artigo do médico Rui Sousa, urologista e diretor do serviço de urologia do Hospital de Cascais.

Fonte: Lifestyle Sapo

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