A VIDA NO COVIDÁRIO: A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

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Episódio 4 – A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

A vida será um momento de ruído entre dois intermináveis silêncios. A frase não é minha. Não tenho esta capacidade de síntese. Como começa e como acaba o compasso de ruído que nos coube por sorte são dois momentos que, como profissionais de saúde, temos o privilégio de assistir.

Temos uma estrutura sanitária que tenta apoiar todos os seres humanos nestes dois momentos. Pública ou privada, é indiferente. O compromisso perante o ser humano é o mesmo.

O que a pandemia do vírus SARS-CoV-2 parece fazer é expor, com uma terrível clarividência, as fragilidades de todo um sistema. A admissão, a forma de triagem dos doentes, os circuitos mistos, os espaços subdimensionados, a ausência de coortes, as equipas depauperadas, o material à conta, o desenrascanço, o gato por lebre. Tudo isto são realidades que, como profissionais de saúde, estamos habituados a reconhecer. Anos de desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS) debilitaram-nos para além do aceitável.

E o que é que esta pandemia veio fazer? Veio pôr o dedo na ferida. Sem contemplações. Sem luva.

Agora que precisamos de nos reorganizar e esmiuçar o tipo, profundidade e limites da ferida, ficámos a perceber de forma inequívoca que não conseguimos manter determinadas características humanizadoras do nosso serviço. Porque simplesmente não temos uma infraestrutura que nos permita fazê-lo.

Muitas questões têm sido levantadas em torno dos nascimentos sem acompanhante, pelo risco de transmissão cruzada e do risco de contágio dos bebés das grávidas infetadas ou suspeitas.

No que toca à pediatria, a Direção-Geral da Saúde emitiu um parecer no sentido de permitir acompanhantes junto das crianças infectadas e internadas.

Nos adultos, as visitas foram suspensas. Esta realidade é transversal a todos os serviços de internamento, independentemente dos doentes serem COVID-19 positivos ou não e é extensível às unidades de cuidados intensivos.

E aqui temos um grande problema: concordamos com a recomendação da DGS, mas como é que operacionalizamos a presença de acompanhantes na enfermaria? Nos parágrafos seguintes farei de advogado do diabo para cada uma das possibilidades, para ilustrar a dificuldade do momento que vivemos.

Hipótese nº1: Permitimos acompanhante junto da criança

No caso das crianças hospitalizadas sem doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2: o facto de terem acompanhante adulto, que entra e sai do hospital, é um fator de risco de contágio. Este adulto, por muito cuidadoso que seja, tem risco real de contágio, com a agravante de poder excretar partículas virais, antes de estar sintomático e com isso contaminar o seu/sua filho(a), bem como restantes doentes no mesmo espaço. Este risco é consideravelmente reduzido se os quartos forem individuais, no entanto, sabemos que essa não é a realidade da maioria dos hospitais públicos.

No caso das crianças com COVID-19: o acompanhante ficaria 24 horas por dia, 7 dias por semana, junto da criança. Não pode ausentar-se para comer – as refeições serão providenciadas no local, não pode ausentar-se para tomar banho (a não ser que o quarto disponha de WC), terá que dormir num cadeirão (porque a maioria dos quartos não tem espaço para alojamento duplo). E estamos a falar de quarto, não estamos a falar de enfermaria.

A maioria dos pais não terá qualquer problema com isto, admitindo que seja uma situação autolimitada. E de preferência pouco grave, em que a criança está globalmente bem e inspira poucos cuidados.

Mas e se for uma situação grave? E se a criança precisar de cuidados intensivos? Com necessidade de ventilação prolongada? A maioria dos doentes COVID-19 ventilados, são-no, em média, durante 18 dias. Imagine-se, dezoito dias fechado(a) num quarto em que nunca se apagam as luzes, em que os alarmes nunca são silenciados, em que existe um enfermeiro em permanência junto do doente, equipado como um astronauta e num constante corrupio. Imagine-se a dormir num cadeirão, sem poder ser substituído por outro cuidador, a lidar 24 horas por dia com o filho gravemente doente? É uma situação limite, sem pausas, sem descanso. Nós, que muitas vezes pedimos aos pais para descansarem, irem a casa dormir, comerem em paz, não sabemos como apoiar um pai ou uma mãe nesta situação. Iremos fazê-lo, mas não sabemos como.

E se o pai ou a mãe adoecer? Não se esqueçam que é um pai de uma criança infetada, pelo que a hipótese de não estar doente é muito ligeira. Em que momento o/a mandamos para casa? Quando fica com o nariz entupido? Quando tiver febre? E voltará a entrar, colocando a equipa e outras crianças em risco? E se os pais forem doentes crónicos? Damos-lhes uma máscara? E isso basta? O que fazemos? Protegemos a criança ou protegemos os pais?

Fonte: Lifestyle Sapo

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