A VIDA NO COVIDÁRIO: Somos todos heróis, mas há uns mais do que outros

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Isto exige um esforço de coordenação considerável. Circuitos que não sendo fáceis, tornam-se dependentes de uma grande engrenagem de fatores de segurança. Tudo se torna mais lento, mais pesado, mais difícil.

E nunca a equipa de limpeza foi tão relevante. Temos a grande vantagem de contar com uma equipa relativamente estável – ao invés de uma subcontratação de elevada rotação – que higieniza todos os nossos circuitos e garante que a parte “limpa” de COVID-19 do serviço seja efetivamente “limpa”.

Sem esta equipa teríamos problemas sérios de contaminação cruzada dos espaços e superfícies. São absolutamente vitais para conseguirmos fazer o trabalho que fazemos. E ganham mal. Para o risco que correm, ganham desumanamente mal. Não há forma simpática ou eufemística para dizer isto. E a nossa segurança (nossa: doentes, médicos e enfermeiros) depende grandemente da sua acção. Acham que não é de valor limpar de forma sistemática todos os interruptores e puxadores das portas da unidade onde trabalho? Ou desinfetar o chão inúmeras vezes por dia? A minha segurança como profissional de saúde e a vossa segurança como doentes dependem de pequenos gestos como estes. Sim, custa a acreditar, mas vivemos numa cadeia complexa em que TODOS os contributos são importantes.

Sabemos que a saúde não tem preço, mas a ter, que seja digno. Aquilo que se passa com os vencimentos dos trabalhadores de limpeza, auxiliares de ação médica, enfermeiros (os insultuosos 7,42 euros/hora) e médicos (e sim, assumo bem aquilo que digo, por muito que encham a caixa dos comentários a dizer que ganhamos milhões e não queremos fazer nenhum) é, no mínimo questionável. Pelo menos a mim, parece-me francamente injusto. Mas, pelos vistos, não será uma preocupação para os deputados com assento parlamentar, cuja esmagadora maioria chumbou uma medida de incentivo remuneratório aos profissionais de saúde.

Somos heróis e tal, mas pouco. Tenham lá calma. Somos heroizinhos, vá. Numa semana, servimos de saco de pancada, por culpa de um sistema de saúde depauperado que não dá verdadeiramente resposta à população. Na semana seguinte, são palminhas à janela. No fundo, os profissionais de saúde pertencem a uma classe do show business: palmas na cara ou à varanda é só uma questão de estratégia, o que importa é que haja ruído! Por aqui vos digo, o show continuará a estar on.

Por fim, uma palavra de profundo e sincero agradecimento à equipa de limpeza da unidade onde trabalho. O nosso esforço não teria significado sem o vosso.

Próximo episódio: Há mais vida (e morte) para além da COVID-19.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Série

– Episódio 1: Os preparativos

– Episódio 2: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

– Episódio 3: Calor, nevoeiro, chichi, comichão… Enfim, parece tortura chinesa

– Episódio 4: A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

– Episódio 5: Somos todos heróis, mas há uns mais do que outros

Fonte: Lifestyle Sapo

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