Enfermeiros na luta contra a COVID-19: cinco testemunhos da frente de batalha

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Rita Martins, enfermeira do Serviço de Urgência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa

O dia a dia de quem trabalha em ambiente hospitalar mudou bastante nestes tempos que vivemos. Têm sido dias de adaptação a uma nova realidade que exige novas rotinas e precauções adicionais nos cuidados às crianças e famílias que procuram a nossa ajuda.

Como enfermeira, creio que aquilo tenho sentido é transversal a todos os profissionais de saúde: queremos continuar a prestar os melhores cuidados aos utentes apesar do receio de ficarmos infetados e consequentemente infetar outros doentes e obviamente as nossas famílias e amigos.

Sinto-me motivada para continuar a dar o meu melhor, esperando, no entanto, que esta fase passe depressa e que dela retiremos conclusões

A rotina mudou no trabalho e fora dele, a saudade de estar com os pais e com os amigos não tem sido fácil. Psicologicamente tem sido exigente e fisicamente também tem sido duro. Turnos mais longos com equipamentos de proteção, que protegem mas também dificultam as nossas ações, deixam-nos exaustos ao final da jornada de trabalho, mas somos equipas unidas o que ajuda a atravessar esta fase.

Felizmente adoro o que faço e ser enfermeira de pediatria é o que sempre quis fazer. Sinto-me motivada para continuar a dar o meu melhor, esperando, no entanto, que esta fase passe depressa e que dela retiremos conclusões que nos possam ajudar a melhorar enquanto sociedade.

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Cátia Montinho, enfermeira numa Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido

O meu nome é Cátia Montinho, tenho 31 anos, e sou enfermeira há 8 anos. Emigrei para o Reino Unido em 2013 para trabalhar como enfermeira e trabalho numa Unidade de Cuidados Intensivos há 4 anos e meio.

Este ano tem sido particularmente desafiante a nível profissional devido à pandemia que estamos a viver. Vou contar a minha experiência, em relação ao hospital em que trabalho.

O Reino Unido ainda não atingiu o pico da pandemia e o hospital onde trabalho já começa a ficar saturado. Quando ainda não havia medidas do governo, no meu serviço já se discutiam futuros planos para lidar com a situação caso se tornasse igual ao que se vive em Itália. Todos os dias tínhamos reuniões de equipa no início de cada turno para discutir os planos, que todos os dias aumentavam de complexidade. Começaram por cancelar todas as cirurgias eletivas e não emergentes e por fechar alguns blocos operatórios, para se tornarem possíveis quartos para receber doentes com COVID-19.

O rácio recomendado de enfermeiro por doente de cuidados intensivos é 1:1 e neste momento estamos com um rácio de 1:3 ou 1:4, tendo-nos sido explicado que existe a possibilidade de chegarmos a um rácio de 1:6

Um dos hospitais locais que se destina apenas a cirurgias eletivas e que não tem serviço de Cuidados Intensivos fechou o bloco operatório e os ventiladores foram reencaminhados para o hospital onde trabalho, com objetivo de aumentar a capacidade de cada bloco operatório para ter três ventiladores cada.

O serviço de cuidados intensivos do hospital onde trabalho tem 10 camas com 10 ventiladores, neste momento as 10 camas estão ocupadas com doentes diagnosticados com COVID-19, todos ligados ao ventilador. Cinco dos seis blocos operatórios destinados a quartos de isolamento para doentes COVID-19 já estão ocupados com três doentes cada. O rácio recomendado de enfermeiro por doente de cuidados intensivos é 1:1 e neste momento estamos com um rácio de 1:3 ou 1:4, tendo-nos sido explicado que existe a possibilidade de chegarmos a um rácio de 1:6.

Cátia Montinho, enfermeira

Os enfermeiros de cuidados intensivos estão a ser suportados com os enfermeiros do bloco operatório, mas não tendo estes últimos experiência em cuidados intensivos, torna-se desafiante numa situação stressante com esta estar a explicar e ensinar ao mesmo tempo os cuidados a ter com estes doentes. É uma responsabilidade acrescida, sendo que estes doentes são muito instáveis.

Em relação ao material de proteção, sinto que tem havido uma evolução tanto no meu serviço como no resto do hospital. O hospital segue as indicações do “Public Health England”, que se baseia nas indicações da Organização Mundial de Saúde (OMS). No serviço onde trabalho seguimos as indicações que nos são requeridas e usamos bata cirúrgica, proteção para sapatos, touca cirúrgica, máscara e viseira.

Temos tido muita oferta de fatos de proteção de corpo inteiro de pessoas fora do hospital e por agora temos usado esses fatos também.

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Luís Pereira, enfermeiro da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos do Hospital Dona Estefânia, Lisboa

O COVID-19, essa entidade tão falada nos últimos tempos e com aquele aspeto fofo de bolinha com cornículos, anda a deixar-nos a todos à beira de um enorme ataque de nervos. No maravilhoso mundo da pediatria dizem-nos que não é tão grave, mas que eles lá morrem, morrem, ou então ninguém entenderia toda a preparação que tivemos de fazer até agora… Sim, não foi só no Serviço de Infecciologia que se prepararam para a COVID-19, nós, a Unidade de Cuidados Intensivos também nos preparámos e… Não, não temos só 2 ventiladores… Temos pelo menos 10 prontos para a ação… Não acreditem em tudo o que leem nos jornais.

Permitam-me, já agora, abordar a história dos ventiladores… Vamos ter mais 100, 200, 300 ventiladores… Mas quem os opera? O Camões? Onde estão os intensivistas e anestesistas para os programar? E os enfermeiros de intensivos para os operar? Não se formam médicos e enfermeiros de cuidados intensivos de um dia para o outro. Nem nascem de buracos no chão por geração espontânea. Vamos com calma meu povo… Não basta ventilar… É preciso saber ventilar.

Para nós enfermeiros, desde o tempo da Florence Nightingale (vejam no Google quem é) tudo o que envolve o doente é uma preocupação. Desde toda a montagem de uma unidade até à limpeza e desinfeção. É preciso olhar para o mais pequeno pormenor que tenha entrado em contacto com o doente. Parece pacífico, mas é enfermagem na sua plenitude. Problema disto tudo: diariamente a Direção-Geral da Saúde (DGS) emana novas normas e orientações (muitas delas que desorientam mais do que orientam) e que alteram pormenores que se tornam “pormaiores”.

Sempre que toca a trompeta castelhana (vai entrar um suspeito entenda-se) entra tudo em alerta vermelho… Tudo começa a ser operacionalizado de acordo com os procedimentos (nascidos quase todos das nossas necessidades específicas, intensivas e pediátricas)… Começa o veste, veste e veste dos equipamentos de proteção individual e a seguir chega a criança (infelizmente e geralmente mal) que requer a intervenção de, no mínimo, dois enfermeiros de intensivos pediátricos, um intensivista pediátrico, um anestesista e um cirurgião pediátrico.

No meio de toda esta confusão esquecemo-nos que nós próprios. Somos humanos com família, muitos de nós casados com outros profissionais de saúde e com filhos

Um bom par (ou mais) de horas depois – nos quais a criança foi entubada, ventilada, sedada – começa o ritual do despe, despe e despe… Talvez a fase mais importante para evitar a infeção do profissional… Mas não pensem que o trabalho se cinge aos “astronautas” que estiveram/estão no interior do quarto de pressão negativa a intervir na criança… No exterior existem mais dois enfermeiros de intensivos, um deles chefe de equipa, que laboram para que nada falta à equipa no interior e que tem combates hercúleos com o telefone agilizando terapêutica, exames complementares de diagnóstico, hemoderivados e até… Comida e água para os colegas que irão sair completamente desidratados e esfomeados dos quartos de pressão negativa.

Luís Pereira, enfermeiro
Luís Pereira, enfermeiro

Ao fim de todos este tempo alguém de nós lembra-se “os pais”. Sim, eles também estão em crise e estiveram todo este tempo, pacientemente (geralmente) a aguardar… Um de nós desloca-se à sala de espera e dá-lhes uma breve palavra. Temos de informar, esclarecer, confortar e… Chorar por vezes.

No meio de toda esta confusão esquecemo-nos que nós próprios. Somos humanos com família, muitos de nós casados com outros profissionais de saúde e com filhos… Tem sido de particular dificuldade toda a gestão familiar. Fazemos turnos também em casa, revezando-nos nos cuidados aos filhos.

Nós, enfermeiros e restantes profissionais de saúde, lutamos pela criança doente e no final do dia lutamos pelo colega que está ao nosso lado. Porque esta é, com todos os seus defeitos e virtudes, a nossa segunda família.

Se é enfermeiro, partilhe o seu testemunho connosco neste Dia Mundial da Saúde. Envie um mail para [email protected]

Fonte: Lifestyle Sapo

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