COVID-19: Sentimento de “humilhação” leva milhares de profissionais de saúde às ruas de Paris

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E se combater o vírus faz parte das suas funções como profissionais de saúde, o cansaço acumulado de quem esteve na primeira linha e aguarda melhorias no hospital e na sua carreira, faz-se sentir de forma pesada.

“Eu sou enfermeira nos cuidados intensivos e acolhemos vários pacientes com a covid-19. Tivemos de transformar metade das nossas camas para acolher esses pacientes o que foi complicado tanto a nível físico como emocional. Muitas pessoas morreram e tivemos de gerir também as famílias”, contou Evelyne, enfermeira no Hospital de la Salpêtrière, em Paris, um dos epicentros do combate ao vírus na capital.

Antes da pandemia, Evelyne já equacionava deixar a profissão, mas agora é quase uma certeza.

“Eu sou enfermeira há dois anos nos cuidados intensivos e vejo mais coisas negativas que positivas. Há uma degradação na nossa carreira e penso mesmo em mudar completamente. Para ficar era preciso uma verdadeira revalorização do nosso trabalho e dos salários”, indicou esta jovem parisiense.

Em França, cerca de 30% dos enfermeiros abandonam a profissão nos primeiros cinco anos de carreira devido aos baixos salários, ao desgaste físico e à falta de progressão.

Na região parisiense, um dos principais motivos é mesmo a falta de meios para viver numa das cidades mais caras do Mundo, já que um enfermeiro em início de carreira no hospital público ganha cerca de 1.700 euros e alugar uma casa pode chegar aos mil euros.

“As pessoas não conseguem viver do seu trabalho, os salários são baixos e os bónus que recebemos serviram só para cobrir saldos negativos no banco. A vida é muito cara e até percebo que as pessoas prefiram outro tipo de carreiras”, admitiu Patrick Pelloux.

Quanto aos médicos, Pelloux refere que quem opta por exercer a profissão como médico liberal pode mesmo ganhar quatro vezes o salário de um médico do hospital público.

Às palavras de ordem “Mais dinheiro para o hospital” e “Demissão” para Olivier Véran, ministro da Saúde, juntaram-se ainda o som de petardos e incêndios deflagrados pelos designados ‘black blocs’, ativistas que se infiltraram o protesto, a que a polícia respondeu com o lançamento de granadas de gás lacrimogéneo, num confronto que já se tornou habitual nas manifestações em Paris.

A CGT quer agora uma nova jornada de mobilização geral. “Queremos claro uma grande greve, mas não só dos hospitais. Há tantos problemas em todo o lado que precisamos vir para a rua o mais rápido possível”, defendeu Martinez.

No entanto, os profissionais de saúde têm as suas reticências. “Nós não podemos fazer greve. Se fizermos, as pessoas morrem. Além disso, até para estarmos nesta manifestação tirámos dias de férias e outros colegas vieram porque fizeram porque fizeram o turno da noite”, descreveram Laura e Emanuelle.

Uma dedicação que só é possível, segundo Pelloux, neto de emigrantes portugueses, devido aos valores de cidadania de quem trabalha no serviço público.

“Somos talvez loucos por continuar a trabalhar no hospital público, mas é algo de que nos orgulhamos, talvez por cidadania e dever republicano e talvez seja por isso que não temos consideração por parte do Governo, porque eles sabem que, apesar de tudo, vamos continuar”, concluiu.

Fonte: Lifestyle Sapo

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