OS FILHOS, OS FILHOS DOS ENFERMEIROS E O COVID

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Filhos são tesouros.
Dádivas do céu que caem no nosso ventre, nos preenchem o coração de ternura e de amor, como nunca imaginámos que poderia existir e ser sentido por alguém.
Até ao momento em que os temos – imaginamos. Até os sentirmos, sonhamos como será e a que saberá ter um filho nos braços.
A cada dia da sua existência vivemos com uma parte de nós fora do corpo. Temos o coração preenchido por sorrisos quando os sabemos bem e percebemos em consciência que mais do que as nossas palavras, são os nossos actos que lhes ficam na memória.

Nos tornamos eternamente responsáveis por educar alguém que há medida que os anos passam, vai sendo uma pessoa cada vez mais crescida: um adulto, como nós hoje: estranho mas maravilhoso- por vários motivos, e porque aprendemos a colocar-nos no papel dos nossos pais e percebemos que muitas vezes os criticámos e não os estávamos a entender tão bem como até então.

É belo e trabalhoso, mas é um trabalho que dá gosto porque espelha o fruto da sua dedicação. Sabe bem ver o resultado do nosso esforço e empenho.
Organizar as roupinhas, preparar as refeições, o seu quarto, ensinar o pouco que sabemos sobre a casa, a escola, a rua, brincar, relembrar a simplicidade da vida e que a maior alegria é apenas SER.

É querer proteger e não saber bem como. É saber que terão um caminho do qual não os conseguimos defender integralmente mas pelo qual é importante que passem. Afinal, até aprendermos a andar, e a equilibrar-nos, caímos algumas vezes e é nesses momentos que também aprendemos a ficar mais fortes. É importante que passem por alguns momentos para chegarem a outros mesmo que no nosso coração queiramos evitar ao máximo que percebam algumas coisas do mundo, mais cedo do que o esperado, para poderem viver pelo máximo de tempo o conto de fadas da infância.

Cada pai e mãe tentam à sua maneira, nos seus contextos de vida e família, monoparental, até, ou mesmo com os avós e outros parentes, estabelecer uma forma de padrão de crescimento e convívio como apoio aos cuidadores principais da criança.

Todos se ajustam aos vários contextos laborais, aos horários das escolas e aos afazeres particulares de uma vida, por si só, individualmente exigente.
Sustentar uma família é um desafio que requer carinho, tempo, atenção. Há sempre os que não a têm de facto, vivem a solo e se sentem a solo e sem este prezado e inestimável calor.
Foi no seio de famílias que crescemos todos: pobres e ricos. É a partir dela que se geram as pessoas que anos mais tarde ocupam os mais variados lugares da sociedade.

Vos falo hoje dos pais em tempos COVID- que muito respeito tenho pelos pais que estiveram a trabalhar em casa, a ter que cuidar, alimentar e ser com as suas crianças e ainda, no dia seguinte, sem escape, a terem que continuar a desenvolver a mesma tarefa com a mesma dedicação. De facto, estes novos tempos exigiram que começássemos a olhar mais para o trabalho de um educador e professor, para os computadores e para a capacidade de resiliência e ajuste de cada um.

Cada profissão tem o seu quê. Uns ficaram sem ter trabalho, outros ficaram com trabalho mas por casa e a lidar com essa realidade.

Cada um com os seus desafios.

Os enfermeiros têm a penosidade de terem que estar lá, junto, na beira e de terem que se chegar à frente e voltarem para casa com todo o cuidado e sapiência, suores e respeito por um desconhecido/ conhecido, que a todos preocupa, mas ao mesmo tempo, a terem que VIVER.

O meu desafio foi o de estar em processo litigioso com o pai do meu filho, o de ter que tomar decisões para proteger a todas as gerações, e viver esse processo na véspera do COVID e dentro do COVID, o que me levou a estar dois meses e meio sem estar com o meu filho.

Foi chegar a casa e olhar para cada parte da casa e sentir saudades da desarrumação, dos sorrisos altos e dos barulhos da brincadeira e de ouvir dizer: “mãe, brinca comigo”. Foi entregar a quem dele cuidasse a tarefa de o fazer como se fosse eu e ainda por cima com as fragilidades de uma situação como a que vos refiro, fora as que são de conhecimento mundial.

Foi vir vestir bata e touca, óculos de mergulho e viseira, máscara… e saber que só ía estar a vê-lo da varanda uma vez por semana e a perceber que tudo estava a ficar confuso e indefinido.

Foi suspirar e ter que vir encarar de frente. Escutar por vezes os outros a falarem dos seus desafios com os filhos em casa e a desejar que também eu os pudesse relatar – com ele lá em casa de modo normal.

Foi querer escolher ficar com ele e não me darem alternativa se não a de vir trabalhar, pois teria até as escolas abertas -para pais que estivessem na linha da frente -“preparadas” para o receber.

Foi perceber à volta da enfermagem, com outros colegas, com os seus testemunhos, que há quem se borrife, nos veja como um número e que o objetivo é termos que trabalhar eficientemente, e escutar muitos a terem que quase em desmaio, sustentar tudo até caírem mesmo para o lado. Foi ver a aflição nos olhos.

Foi tanta coisa e tanta coisa foi. Com algumas bençãos pelo caminho.

Agradeço por tudo. Aprendi que há pequenas coisas a agradecer e agora, que ele finalmente voltou para junto de mim, com maior definição,  lembrar a importância de saber sentir cada pedacinho sem pressa do amanhã;  saber que todos os momentos são poucos porque a vida passa depressa, ver algumas consequências desta ausência prolongada e a perceber ainda mais a importância que a educação, o cuidado e o carinho têm- do acompanhamento que só a família e em família se consegue.

Permitam-me que particularmente hoje agradeça a todos os enfermeiros, assistentes operacionais, médicos e bombeiros, a esses entre tantos outros, mas que merecem uma louvação para além das palmas, mas com RESPEITO em categoria e visível.

Há sempre uma palavra a dizer e uma decisão a tomar.

Somos pessoas como todos os outros.
Não escolhemos morrer, não escolhemos ficar sem família e viver isolados. Cada um escolheu a sua profissão como contributo à sociedade.

Feliz dia da criança e que todos nos lembremos do quanto a nossa história contribuiu para sermos quem somos hoje, e sobretudo que não deixemos de recordar e manter viva a criança que há em nós.

Grata por quem leu tudo até ao fim.

 

Lúcia Matias

Mestre em Enfermagem Avançada

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