Especialista em medicina das artes alerta para risco de “retoma intempestiva”

Tempo de leitura: 2 minutos

“As restrições atuais modificaram as rotinas da prática artística e poderão ter impacto tanto do ponto de vista físico como mental”, afirma à agência Lusa a médica fisiatra, especializada em Medicina das Artes Performativas.

A atividade no pós-pandemia pode originar “um aumento abrupto das exigências físicas, psíquicas e técnicas” e, consequentemente, “aumentar o risco de desenvolver problemas, sobretudo neuromusculosqueléticos e de saúde mental”.

Por outro lado, “voltar aos palcos depois desta ausência prolongada pode também induzir níveis exacerbados de ansiedade e stress”, sublinha a médica, que integra o CIMArt – Centro Internacional de Medicina das Artes, localizado no Instituto CUF Porto, o primeiro em Portugal dedicado à Medicina das Artes Performativas.

Com quase toda a atividade cultural parada, “é importante que os artistas não desmotivem”, encarando este período como “uma oportunidade de rever alguns aspetos da prática artística”.

Ana Zão, que além de médica é pianista, sugere que o tempo seja aproveitado para planear um estudo mais regular e estruturado, “que muitas vezes é difícil de conseguir quando a agenda de ensaios, concertos, audições, concursos é mais preenchida”.

Obviando os riscos da retoma artística após confinamento, “é também uma boa altura para recuperar de lesões”.

Da situação de exceção atual, é contudo expectável que surjam “os problemas de saúde mental, nomeadamente a depressão, a frustração por não poder desempenhar a sua atividade laboral como planeado ou a ansiedade em relação ao futuro e em relação a projetos que ficaram suspensos”.

“Há consequências possíveis para as quais o artista deve estar alerta, para que as possa prevenir”, adverte a especialista, adivinhando que a diminuição de objetivos a curto prazo, “fruto, por exemplo, do cancelamento de concertos”, pode fazer esmorecer o ritmo de estudo e a vontade de tocar.

Para Ana Zão, mesmo em pandemia, “é fundamental que o músico mantenha uma atividade artística regular, mesmo que dentro do seu lar”, recorrendo também “a meios e plataformas digitais que permitem obviar o distanciamento e facilitam a partilha da cultura”.

A médica especialista avisa que é necessário estar atento, porque entre o meio artístico há algum estigma em assumir lesões, “frequentemente por receio de discriminação pelos pares e pelas instituições de que fazem parte os artistas”.

O trompista Mickael Faustino, que está a promover o trabalho em medicina das artes performativas através do projeto de divulgação musical InMusic, confirma que, entre músicos, “existe um medo de falar e de pedir ajuda”.

“Só comecei a ter cuidados quando o corpo não dava mesmo mais”, conta o músico natural de Leiria.

“É difícil falar e admitir que precisamos de ajuda, que precisamos de ser tratados. Mas precisamos de nos cuidar. As consequências desta pandemia a nível psicológico serão imensas, por isso convém termos já esses cuidados”, conclui.

Lusa/HN

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