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Entrevista a Tomé Lopes: “A noctúria quando mais grave é mais problemas traz”

Acordar frequentemente durante a noite para urinar não é “natural da idade”, mas sim um sinal de alerta para a noctúria. Muito prevalente, mas ainda “muito subvalorizada” esta patologia tem um forte impacto na qualidade de vida dos doentes. De acordo com especialista em urologia, Tomé Lopes, a principal causa da noctúria é a poliúria nocturna, estando ainda associada a um conjunto de doenças crónicas, à bexiga hiperativa e à hiperplasia benigna prostática. Um diagnóstico tardio dificulta o tratamento dos pacientes.

Para alguém que pouco sabe sobre a noctúria o que destacaria sobre esta patologia?
A noctúria é um sintoma onde se verifica um aumento do número de vezes que uma pessoa urina durante a noite. Habitualmente durante o sono normal a pessoa não urina durante a noite.

A prevalência nos homens e mulheres a partir dos 60 e 65 anos é maior, mesmo não havendo grandes patologias associadas.

O facto de as pessoas associarem este sintoma à idade fazia com que as pessoas pouco falassem. Hoje em dia, já começam a referir mais este problema e também os médicos estão mais atentos e questionam mais os doentes sobre este assunto. Muitas vezes é possível diagnosticar outras patologias que estão por trás da noctúria.

 

A noctúria foi reconhecida pela International Continence Society, em 2020, como uma “entidade comum” de elevada prevalência. Representa um problema de Saúde Pública?
Acho que representa. A noctúria é um dos mais prevalentes e incomodativos sintomas do aparelho urinário inferior. Afeta homens e mulheres de todas as idades e tem uma prevalência estimada em 15 a 28% nos homens e 21 a 34% nas mulheres. Seis ou sete homens ou mulheres em cada 10 levantam se pelo menos uma vez por noite para urinar. Muitas pessoas não referem este sintoma ao seu médico porque acham que é algo natural da idade e não consideram que seja um sintoma de uma patologia. De facto, a noctúria provoca muitos problemas, nomeadamente, perturbações do sono; no dia-a-dia causa alterações de comportamentos no âmbito profissional e social com diminuição da qualidade de vida; a perturbação do sono está associada a depressão, a um aumento de morbilidade (com quedas e fraturas no idosa) e de mortalidade . Portanto, a noctúria quando mais grave é mais problemas traz.

Qual é a sua prevalência em Portugal?
Um em cada três homens com mais de 60 anos tem noctúria. No caso das mulheres estes valores aproximam-se ao dos homens. Estudos científicos vieram demonstrar que as mulheres também são tão afetadas como os homens, mas mais relutantes em reportar o sintoma.

Considera que se trata de uma doença ainda subvalorizada e sub-tratada?
Sim. Considero e muito. Hoje em dia, já se valoriza e trata mais a noctúria, mas ainda é muito subvalorizada. Ainda existe falta de conhecimento sobre este assunto e, muitas vezes, as pessoas subestimam este problema.

Quais são as principais causas desta patologia?
A principal causa é a poliúria nocturna (que consiste no aumento da produção de urina durante a noite). Está também associada a duas grandes patologias urológicas, nomeadamente, a hiperplasia benigna prostática e à bexiga hiperativa.

Por outro lado, há situações como a diabetes, a apneia do sono, as doenças cardíacas que, se mal controladas, podem provocar a noctúria, assim como algumas medicações. As perturbações de ingestão de líquidos podem também causar este sintoma. A noctúria é um sintoma complexo com fisiopatologia multifactorial.

E como se manifesta?
A manifestação é precisamente o acordar para urinar duas ou mais vezes por noite.

As guidelines da Associação Europeia de Urologia indicam que em homens jovens se a produção de urina durante a noite é 20% superior à produção global de urina nas 24h já é noctúria. Nos homens com mais de 65 anos considera-se noctúria se a produção de urina for superior a 33% da produção global nas 24 horas.

Existem alguns sinais de alerta?
Não. Apenas a pessoa acordar durante a noite demasiadas vezes para urinar.

De que forma esta patologia impacta a qualidade de vida dos doentes, designadamente em termos psicológicos?
Quando as pessoas acordam várias vezes durante a noite nem sempre conseguem recuperar o sono rapidamente. A pessoa passa uma noite muito perturbada que traz consequências no seu dia-a-dia, como por exemplo perturbações no trabalho, uma vez que tem menor capacidade de concentração. Os doentes passam a ter também perturbações na sua vida familiar e social. Pode levar a um aumento de depressão. Nos mais idosos pode levar ao aumento de quedas e subsequentes fraturas.

Quais podem ser as consequências de um diagnóstico tardio?
Deve-se fazer um diagnóstico o mais precoce possível. Ou seja, a pessoa deve estar atenta aos seus sintomas e mencionar de seguida ao seu médico. Quando mais tarde, mais dificuldade temos em que o doente melhore e que reduza o número de vezes que urina durante a noite.

Entrevista de Adelaide Oliveira

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