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Entrevista Paulo Temido: Noctúria é um dos sintomas habituais da bexiga hiperativa

Um terço dos doentes com bexiga hiperativa tem incontinência associada e “a grande maioria tem frequência urinária aumentada quer diurna, quer noturna (noctúria) como consequência da urgência miccional”, refere Paulo Temido, urologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e presidente da Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia (APNUG)

HealthNews – A bexiga hiperativa é, primariamente, um distúrbio neuromuscular mas também pode resultar de causas neurológicas?
Paulo Temido – A bexiga hiperativa é definida como o quadro sintomatológico: urgência miccional com ou sem incontinência, habitualmente acompanhada de frequência urinária aumentada (mais de oito micções/dia) e noctúria (necessidade de acordar uma ou mais vezes durante a noite para urinar), na ausência de infeção urinária ou outra causa óbvia que explique os sintomas.

É primariamente um distúrbio neuromuscular, no qual o músculo da bexiga se contrai inapropriadamente enquanto esta se enche, o que pode levar a perdas de urina nos momentos menos apropriados e a grande desconforto.

Na base deste distúrbio podem estar causas neurológicas, tais como traumatismos vertebromedulares, lesões neurodegenerativas (ex: esclerose múltipla, demência e doença de Parkinson) e AVC.

Outras causas não neurológicas, tais como insuficiência cardíaca, insuficiência venosa periférica, toma de diuréticos, podem estar presentes.

Há ainda um grande grupo, dito idiopático, em que a bexiga hiperativa ocorre na ausência de patologia neurológica, metabólica ou outros problemas conhecidos da bexiga.

Outros fatores, como sejam alterações comportamentais ou hábitos (por exemplo chegar a casa ou pôr a chave na porta), reação a estímulos auditivos (por exemplo água a correr), reação ao frio, consumo de comidas picantes, bebidas alcoólicas, gaseificadas ou com cafeína, também desencadeiam episódios de bexiga hiperativa.

O estudo norte-americano National Overactive Bladder Evaluation (NOBLE) refere que naquele país a prevalência é semelhante nas mulheres e nos homens. O que revelam os estudos sobre a prevalência na população portuguesa?No estudo NOBLE, a prevalência global da bexiga hiperativa é semelhante em homens (16%) e mulheres (16,9%), apesar desta se desenvolver em idades mais avançadas nos homens.

Um outro estudo efetuado em seis países europeus determinou uma prevalência semelhante.

Em Portugal, um estudo epidemiológico de 2008, promovido pela Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia e pela Associação Portuguesa de Urologia, realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto,

concluiu que 30% dos participantes revelaram sintomas de bexiga hiperativa.

No mesmo estudo, denominado “Prevalência e tratamento da incontinência urinária  na população portuguesa não institucionalizada”, a prevalência nas mulheres foi diminuindo com a idade (30% em mulheres entre os 40 e os 59 anos e 25% com idade superior aos 79 anos), acontecendo o inverso com os homens (32% em indivíduos entre os 40 e os 59 anos e 47% nos indivíduos com mais de 79 anos). Esta diferença explica-se seguramente pela influência crescente com a idade, da patologia prostática.

Apesar da evolução das prevalências em mulheres e homens nos diversos escalões etários ser semelhante ao verificado no estudo NOBLE e no estudo europeu, a maior prevalência encontrada em Portugal deverá ser por diferenças metodológicas do estudo português.

Qual é a relação entre bexiga hiperativa e noctúria?
A urgência miccional (necessidade imperiosa e inadiável de urinar) é o sintoma principal da bexiga hiperativa. A noctúria é um dos sintomas habitualmente acompanhantes.

A notúria é um sintoma multifatorial, sendo a bexiga hiperativa uma das causas. Outras causas vesicais incluem patologias que alteram a capacidade e função de armazenamento vesical, tais como a hiperplasia benigna da próstata, doença maligna vesical e medicação (por exemplo, bloqueadores beta).

As causas não vesicais da noctúria são as mais frequentes, a salientar as perturbações do sono, o aumento da diurese global (quantidade de urina produzida por dia) e a poliúria nocturna (aumento da produção noturna de urina), que é a causa mais frequente.

Que percentagem de doentes com bexiga hiperativa apresenta também noctúria?
Tal como referi, o sintoma central da bexiga hiperativa é a urgência miccional. Um terço dos doentes tem incontinência associada. A grande maioria tem frequência urinária aumentada quer diurna, quer noturna (noctúria) como consequência da urgência miccional.

As alterações comportamentais provocadas pela doença e o efeito do hábito, bem como um mecanismo de defesa para evitar episódios de incontinência, contribuem para aumentar ainda mais a frequência urinária. Nestes casos, geralmente, a noctúria é proporcionalmente menor.

São problemas diferentes que requerem abordagens também diferentes?
A noctúria é um sintoma multifatorial. Quando a noctúria é secundária a bexiga hiperativa, o seu tratamento é o tratamento da bexiga hiperativa. Inclui tratamentos conservadores, terapêutica farmacológica com anticolinérgicos ou agonistas beta 3 e anda técnicas mini-invasivas, tais como toxina botulínica ou neuromodulação sagrada. No entanto, quando a causa da noctúria é diferente, o seu tratamento deverá ser dirigido à sua causa concreta, como por exemplo o uso de desmopressina para a poliúria noturna.

Defende que se devem considerar três linhas de intervenção: educacional e comportamental, farmacológica e interventiva. De que forma podem evitar ou minorar a perturbação do sono, diminuição da qualidade de vida ou mesmo sintomas depressivos nos doentes com noctúria?
A noctúria é a causa mais comum de fragmentação do sono e perturba a sua qualidade em todos os grupos etários. O número de episódios de noctúria associa-se a uma menor eficiência do sono.

Devido à perturbação do sono a noctúria, independentemente da sua causa, tem um forte impacto na saúde e na qualidade de vida.

Esse impacto pode ser a diversos níveis: doença cardiovascular, quedas e fraturas, diabetes, obesidade, depressão, fadiga diurna, problemas de concentração e desempenho reduzido no trabalho.

O tratamento eficaz da noctúria tem, por isso, um forte impacto positivo. Quando a noctúria está associada a bexiga hiperativa, os tratamentos referidos são os recomendados para o seu controlo. São utilizados de forma sequencial e os seus objetivos são alcançar o melhor controlo sintomático possível e a melhoria da qualidade de vida.

Entrevista de Adelaide Oliveira

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