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Vítor Fonseca: A apneia obstrutiva do sono “apresenta um aumento significativo de mortalidade para os doentes”, mas “é uma doença muito subdiagnosticada e subtratada em Portugal”

A apneia obstrutiva do sono (AOS) pode atingir qualquer pessoa, em qualquer altura da vida, sendo uma patologia que aumenta com a idade, disse o Dr. Vítor Fonseca ao HealthNews. O coordenador de Pneumologia do Hospital Dr. José de Almeida e Hospital CUF Cascais lamentou que esta doença seja subdiagnosticada e subtratada em Portugal, alertando para as consequências a nível de saúde pública e despesas em saúde, bem como para a falta de uma maior oferta de exames para diagnóstico pelo SNS. Neste Dia Mundial do Sono, o médico fez ainda questão de advertir para os riscos da Covid-19 em doentes com AOS.

 HealthNews (HN)- Como se define a apneia obstrutiva do sono?
Vítor Fonseca (VF)- A apneia obstrutiva do sono (AOS) consiste num distúrbio respiratório crónico cujos colapsos intermitentes e repetidos das vias aéreas superiores, durante o sono, levam a uma respiração irregular e a uma fragmentação do sono que originam microdespertares e despertares durante o sono, resultando em paragens repetidas da respiração e num sono não reparador.

HN- Existem dados de prevalência que permitem ter uma ideia da realidade desta condição clínica em Portugal?
VF- Segundo um estudo realizado pela Direcção-Geral da Saúde, em 2014, a prevalência de apneia obstrutiva do sono diagnosticada em portugueses com 25 ou mais anos foi de 0,89%. A prevalência é maior nos homens (1,47%) e na população entre os 65 e os 74 anos (2,35%)[1].

HN- Quais são os principais fatores de risco da apneia obstrutiva do sono?
VF- Os principais fatores de risco frequentemente associados à AOS são sobretudo a obesidade e alterações morfológicas faciais ou das vias aéreas superiores, contudo o envelhecimento com alguma perda de tónus nos músculos faríngeos, aumento do perímetro cervical e doenças do foro metabólico e cardiovasculares são igualmente fatores de risco.

HN- Em termos etários, qual é a população mais afetada?
VF- A AOS pode desenvolver-se em qualquer pessoa, em qualquer idade, no entanto há determinados grupos etários com maior risco. A patologia aumenta com a idade e mais de metade dos adultos com idade superior a 65 anos apresentam perturbações crónicas do sono, que incluem dificuldade em adormecer, fragmentação do sono e redução do tempo total de sono por noite. Estudos sugerem que, à medida que a pessoa envelhece, a prevalência da apneia do sono aumenta. As causas para a elevada prevalência nos idosos relacionam-se com o aumento de deposição de tecido adiposo nas áreas envolventes à faringe, alterações estruturais desta última e com a redundância do palato mole.

HN- Como se faz o diagnóstico?
VF- Muitas vezes, o doente não tem conhecimento dos episódios de apneia, sendo os familiares que se apercebem dos sinais, sobretudo durante a noite. Neste sentido, a família do doente desempenha um papel essencial na deteção de eventuais sinais e sintomas desta patologia, tais como: ressonar intenso, movimentos corporais frequentes e paragens respiratórias.

O diagnóstico passa pela realização de um estudo do sono. Atualmente, a maioria dos diagnósticos é realizada através do Estudo cárdio-respiratório do Sono, o qual pode ser feito no conforto do domicílio do doente, onde este dorme com um dispositivo que analisa múltiplas variáveis fisiológicas.

Em alguns casos, ou sempre que deste primeiro exame resultem dúvidas face ao diagnóstico, será proposto ao doente a realização de uma polissonografia, num laboratório do sono, já que nem todas as pessoas que ressonam ou têm sintomas semelhantes aos descritos sofrem de AOS. Existem outros distúrbios do sono passíveis de causar sonolência diurna e sono de má qualidade.

HN- Existe a perceção de que a apneia obstrutiva do sono é pouco valorizada pela população. É um facto? Se sim, como se explica?
VF- A AOS é uma doença muito subdiagnosticada e subtratada em Portugal, com necessidade urgente de medidas para incrementar a acessibilidade dos doentes ao seu diagnóstico e tratamento, uma vez que apresenta um aumento significativo de mortalidade para os doentes. Este subdiagnóstico tem importantes consequências a nível das despesas em saúde, bem como a nível de saúde pública, com um aumento significativo em doenças do foro cardiovascular (enfartes) e acidentes cerebrovasculares (AVC) – duas das causas principais de morte em Portugal.

Explica-se sobretudo por uma falta de maior informação ao público em geral e maior oferta de exames pelo SNS para diagnóstico desta doença do sono.

HN- Quais os principais sinais e sintomas que devem suscitar o recurso ao médico?
VF-
Os sintomas mais comuns da AOS são a roncopatia (o ressonar), frequentemente observada por familiares enquanto o doente se encontra a dormir, e a sonolência diurna excessiva devido à má qualidade do sono, que compromete a capacidade de raciocínio e de avaliação. Este último sintoma, que pode não se manifestar até fases mais avançadas da doença, pode levar os doentes a adormecer com muita facilidade a meio de uma conversa, no local de trabalho ou mesmo a conduzir. O risco de ter acidentes de viação é 2 a 12 vezes superior nos doentes com AOS, o que torna esta doença um importante problema de saúde pública.

Outros sinais podem ser episódios abruptos de despertar noturno com falta de ar e palpitação cardíaca, dores de cabeça de predomínio matinal, insónias, sono fragmentado e sensação de sono não reparador (sensação de cansaço após uma noite de sono). A má qualidade do sono apresenta outros sintomas, nomeadamente défice de atenção, dificuldade de concentração, presença de irritação, ansiedade e impaciência durante o dia, bem como alterações de memória.

HN- Apneia obstrutiva do sono e Covid-19: uma ligação perigosa?
VF- Os doentes com AOS apresentam um maior risco de morte ou de internamento hospitalar após contraírem o novo coronavírus SARS-CoV-2, de acordo com os dados publicados no Journal Sleep Medicine Reviews[2].

O risco é também elevado porque, frequentemente, quem sofre de AOS sofre também de outras patologias, como diabetes, obesidade e hipertensão arterial, e estas comorbilidades fazem com que estes doentes sejam incluídos nos chamados “grupos de risco” e, como tal, tenham uma maior probabilidade de morte pela Covid-19[3].

Paralelamente, num estudo[4] recente sobre os distúrbios de sono em tempos de pandemia, verificou-se uma alta prevalência de problemas de sono tanto na população em geral (32,3%) como nos profissionais de saúde (36%), sendo os doentes com Covid-19 o grupo com maior incidência de perturbações de sono (74,8%). Embora seja necessário clarificar estes resultados, a estreita relação entre sono e imunidade é já bem conhecida na comunidade científica, sendo indiscutível a importância de dormir bem para reforçar as defesas do sistema imunitário.

HN- Quais as intervenções farmacológicas e não farmacológicas que podem ser instituídas para minorar o problema?
VF- O tratamento da SAOS depende de vários fatores, como a gravidade da doença, o número e a duração das paragens respiratórias, a existência de outras patologias e as características morfológicas do doente.

Nos casos de apneia obstrutiva do sono moderada a grave, o tratamento mais indicado, sujeito a avaliação, diagnóstico e prescrição médica, é a ventilação por pressão positiva contínua, habitualmente denominada de CPAP (Continuous Positive Airway Pressure), que previne o encerramento da via aérea superior durante o sono, corrigindo assim as paragens respiratórias. Além de ser um equipamento fácil de usar e transportar, é bastante silencioso, apresentando uma grande variedade de máscaras nasais e permitindo humedecer ou aquecer o ar, consoante necessidade e preferência de cada doente.  Este tratamento não só reduz a sonolência e o cansaço diurno, como reduz o risco de acidentes de viação, bem como o de doenças cardiovasculares.

Por outro lado, aplicável no tratamento da apneia do sono ligeira e na roncopatia simples, o DAM (Dispositivo de Avanço Mandibular) consiste num dispositivo médico intra-oral que permite uma maior passagem de ar através das vias aéreas durante o sono. É um dispositivo feito à medida de cada doente, de pequenas dimensões, muito cómodo e de fácil transporte, constituindo uma alternativa válida, mas apenas nos doentes selecionados e por prescrição e indicação médica.

Existem ainda casos específicos em que o doente apresenta apneias quase exclusivamente em decúbito dorsal. Uma opção para estes casos é a terapia posicional, que visa impedir que o doente durma nessa posição, induzindo-o a dormir em decúbito lateral. A este respeito, já existem no mercado português dispositivos cervicais que, mediante um sensor de posicionamento, vibram sempre que o doente se posiciona em decúbito dorsal.

HN- Uma nota final.
VF- A propósito do Dia Mundial do Sono, que se assinala a 19 de março, é importante deixar o alerta de que os doentes com apneia obstrutiva do sono estão expostos a um maior risco de morte ou de internamento hospitalar após contraírem o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Em contexto de pandemia, a teleconsulta e a telemonitorização dos doentes têm-se revelado adjuvantes, ao permitirem, ainda que à distância, manter os doentes controlados e vigiados em termos de adesão e eficácia terapêutica, diminuindo ou mesmo evitando o risco de uma deslocação do doente ao hospital.

[1] Rodrigues, A. P., Pinto, P., B. Nunes; Bárbara, C. (2014). Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono: Epidemiologia, diagnóstico e tratamento. Um estudo da Rede Médicos-Sentinela (pp. I/26-20/26, Publication). Lisboa: Direção-Geral da Saúde.

2 University of Warwick. “COVID-19 patients with sleep apnoea could be at additional risk.” ScienceDaily. ScienceDaily, 14 September 2020.www.sciencedaily.com/releases/2020/09/200914112218.html

3 University of Warwick. “COVID-19 patients with sleep apnoea could be at additional risk.” ScienceDaily. ScienceDaily, 14 September 2020.www.sciencedaily.com/releases/2020/09/200914112218.html

4 Jahrami H, BaHammam AS, Bragazzi NL, Saif Z, Faris M, Vitiello MV. Sleep problems during the COVID-19 pandemic by population: a systematic review and meta-analysis. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):299-313. doi:10.5664/jcsm.8930

Entrevista/HN/RA

 

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