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Um em cada sete doentes oncológicos falharam cirurgias no confinamento

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O estudo, publicado na revista The Lancet Oncology, contou com a participação de cinco mil cirurgiões e anestesistas de 61 países que analisaram dados de 15 tipos de cancro sólido mais comuns. A investigação envolveu 435 doentes oncológicos de 15 hospitais portugueses.

“Aquilo que o estudo mostra é que quanto mais restritas são as medidas de confinamento maior é a probabilidade de as cirurgias oncológicas serem adiadas, o que pode obviamente ter repercussões para aquilo que são os resultados para os doentes em termos de sobrevida a longo prazo e recorrência dos cancros”, disse à Lusa Joana Simões, médica interna de Cirurgia Geral do Hospital Garcia de Orta, em Almada, que participou na investigação.

Segundo Joana Simões, doutoranda da Universidade de Birmingham, que coordenou o trabalho, entre os países analisados Portugal “situava se na gama de países com medidas mais restritivas em termos de confinamento”, o que significa que “terá sido dos países em que os doentes estiveram mais suscetíveis a este tipo de atrasos nas suas cirurgias oncológicas”.

“O estudo revela, do ponto de vista pragmático, que em situações com confinamentos tão restritos como aquele que foi adotado em Portugal, o adiamento de cirurgias pode ir até 15% dos doentes, ou seja, que um em cada sete doentes acaba por não conseguir ter a sua cirurgia feita durante o período em estudo”, afirmou Joana Simões, sublinhando que “mesmo aqueles que são operados têm atrasos significativos no ‘timing’ da cirurgia”.

Explicando que o estudo só avaliou resultados da cirurgia a curto prazo – “três a cinco meses após a decisão” -, a especialista sublinha que está descrito na literatura que “estes doentes têm maior probabilidade de recorrência dos cancros a longo prazo e de diminuição da sobrevida global”.

“Obviamente que isto pode ter um impacto a longo prazo naquilo que é o resultado do tratamento do cancro e é por isso que é tão importante lançar o alerta, a partir destes dados, não só para as administrações hospitalares, mas também para a Direção Geral da Saúde e o Ministério de Saúde, para que isto seja planeado de forma coordenada sob o ponto de vista intra e inter-hospitalar”, disse.

Liderados por especialistas da Universidade de Birmingham, os investigadores concluíram que embora os confinamentos mais restritos impostos pela pandemia de Covid-19 tivessem sido essenciais para proteger o público em geral da propagação de infeções, levaram a “atrasos significativos na cirurgia oncológica e potencialmente mais mortes por cancro”.

“Estas poderiam ter sido evitadas se as operações tivessem prosseguido a tempo”, defendem os autores do estudo, em comunicado.

Os investigadores pedem uma reorganização global durante a recuperação da pandemia para fornecer “vias cirúrgicas eletivas protegidas” e “camas de cuidados intensivos que permitirão que a cirurgia continue em segurança”, bem como o investimento na capacidade de aumento para futuras emergências de saúde pública.

“Esta reorganização é fundamental porque nós sabemos que há uma assimetria muito grande naquilo que é a gestão das listas de espera do ponto de vista regional e do ponto de vista hospitalar e não é admissível que um doente tenha maior ou menor probabilidade de ver seu cancro tratado e curado a longo prazo dependendo do sítio onde vive e do tipo de planeamento que existe no hospital ou no serviço a que recorre”, defendeu Joana Simões em declarações à agência Lusa.

“Aquilo que é importante fazer é, nesta fase – em que poderá haver outros fatores de stress no sistema, sejam eles uma nova onda de pandemia, um surto de gripe ou falhas dos serviços por outros motivos quaisquer -, proteger estes doentes porque são doentes muito vulneráveis àquilo que é depois o impacto na sua sobrevida a longo prazo”, acrescentou.

Os investigadores compararam cancelamentos e atrasos antes da cirurgia do cancro durante os confinamentos mais restritos com os períodos apenas com restrições ligeiras. Durante os confinamentos totais, um em cada sete doentes (15%) não recebeu a cirurgia programada numa mediana de 5,3 meses após o diagnóstico, todos tendo como motivo a pandemia de Covid-19. Durante períodos de restrição ligeira, a taxa de não operação foi muito mais baixa (0,6%).

Joana Simões lembra que, apesar de nestes casos os doentes com cirurgia atrasada não terem tido “uma menor taxa de receção dos seus cancros” – os cirurgiões conseguiram remover cirurgicamente o tumor -, outras investigações dão conta de que os efeitos a longo prazo podem ser piores nestes doentes.

“Sabemos por outros estudos que foram publicados por outros grupos de investigação que os efeitos a longo prazo, por exemplo, a cinco anos após o diagnóstico de cancro, podem ser piores em doentes cuja cirurgia foi atrasada”, exemplificou.

Para monitorizar estas situações, os investigadores defendem que estes doentes possam vir a ser seguidos de forma mais próxima pelos seus médicos assistentes.

“Aquilo que os médicos, os cirurgiões e os projetos de investigação futura precisam de fazer daqui para a frente é perceber que estes doentes (…) talvez precisem de um seguimento mais apertado, ou diferente. É nisso que os próximos projetos de investigação precisam de se focar e os cirurgiões e os médicos em geral precisam também de estar alerta para isso e, provavelmente, ter uma atenção diferente com estes doentes”, concluiu.

LUSA/HN

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