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Entrevista à presidente do CHLO. “O desafio mais complexo é a gestão dos recursos humanos. Sempre foi!”

Como avalia a resposta do CHLO à pandemia, nomeadamente no que diz respeito ao internamento de doentes-covid?

O internamento correu muito bem. Concentrámos os doentes no São Francisco Xavier, onde está o serviço de urgência. Isto implicou uma grande revolução em todo o Centro Hospitalar. Foi preciso fazer obras, condicionar o internamento do edifício 1 do HSFX de modo a isolar enfermarias com quartos de um ou dois doentes e fazer alterações em toda a ventilação desse edifício – de modo a restringir os contágios entre os profissionais das enfermarias-covid – e adaptar serviços. Reforçamos igualmente as camas de cuidados intensivos, fazendo recrutamento de espaços afins como recobros cirúrgicos ou unidades de cuidados intermédios, e fizemos formação, muita formação interna a médicos e enfermeiros de várias especialidades para poderem estar conjuntamente com os intensivistas nestas unidades.

Desde o início que estávamos programados para ter internados até 120 doentes-covid. O que aconteceu no princípio de 2021 foi transbordar abruptamente dessa capacidade. Chegámos a ter 350 doentes internados. Em resposta a esta necessidade, aumentámos as camas de cuidados intensivos e as enfermarias inteiras dedicadas nos três hospitais. Foi um desafio claramente superado pelo CHLO e pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS).

 

Tal como acontece com alguns hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), considera que também o CHLO, tendo em conta o que acabou de dizer, está subdimensionado para a população que serve?

Nenhum sistema de saúde está dimensionado para uma hecatombe deste género. Por outro lado, para aquilo que o CHLO faz habitualmente, admito que possa haver, nomeadamente na área médica, algum défice de camas sazonal. Uma gestão que fazemos com regularidade é, assim que se aproximam os meses de inverno, reforçar o internamento da área médica, retirando alguma capacidade à área cirúrgica. Além disso, instituímos uma gestão comum de camas em cada um dos três hospitais [São Francisco Xavier, Santa Cruz e Egas Moniz]; se não houver camas no serviço de Medicina, o doente vai para outro serviço e é acompanhado pelos seus médicos.

 

“Admito que possa haver, nomeadamente na área médica, algum défice de camas sazonal”

 

Que impacto teve a pandemia na atividade assistencial do CHLO?

No período do confinamento, os doentes não vinham, o que diminuiu a atividade médica e as listas de espera. No entanto, também este facto foi de algum modo acautelado com informação de cada serviço no site do CHLO, para que os doentes habitualmente seguidos no hospital tivessem forma de contactar os seus médicos ou, pelo menos, o serviço. O facto de termos concentrado no São Francisco Xavier todos os doentes-covid, ficando os outros dois dedicados aos doentes não-covid, permitiu-nos manter alguma atividade cirúrgica. De facto, houve uma quebra nas consultas (embora menor) e nas cirurgias na ordem dos 20% em 2020. Começámos a fazer teleconsultas primeiro apenas pelo telefone e depois também com imagem. No entanto, não adiámos cirurgias prioritárias e muito prioritárias. E conseguimos mudar cirurgias de uns hospitais para outros. Isso fez com que não tivéssemos tido uma quebra tão grande na atividade assistencial em comparação com outros centros.

Quais os desafios na gestão diária de um centro hospitalar com esta dimensão?

O CHLO tem três hospitais, com quatro mil trabalhadores. Alguns com requisitos muito específicos, como a urgência ou a atividade cirúrgica – onde é necessário, reunir, por vezes, dezenas de profissionais num dado momento.

Sem dúvida que o desafio mais complexo é a gestão dos recursos humanos, e sempre foi. Não há nada mais complexo que o ser humano. Criam-se expetativas e depois há um conjunto de dificuldades que nos são colocadas todos os dias, e que muitas vezes fazem gorar essas mesmas expetativas, de progressão de carreiras, de número suficiente para dedicar tempo ao trabalho e às famílias respetivas, a outras atividades, de um futuro mais tranquilo, etc.

O facto de o CHLO ser constituído por três hospitais separados fisicamente traz um problema: à luz dos números, somos um centro hospitalar pouco eficiente, uma vez que temos de duplicar ou triplicar alguns recursos – como um pequeno exemplo no número necessário de seguranças ou com triplicação de alguns serviços básicos necessários em cada um dos hospitais. No entanto, a separação física dos hospitais pode trazer eficácia em determinadas situações, como se viu no exemplo da pandemia.

O país parece estar a caminhar para um modelo de grandes hospitais, que servem uma vasta área geográfica, e que concentram todos os serviços, como o projeto desenhado para o agora Centro Hospitalar de Lisboa Central, que vai passar a concentrar os serviços no futuro Hospital de Todos os Santos. Seria benéfico fazer o mesmo no CHLO?

Há modas. Houve uma altura em que se dizia que juntar tudo num mesmo edifício seria uma catástrofe porque ninguém seria capaz de gerir. O meu hospital ideal seria a concentração de todos os serviços no mesmo local, em edifícios separados e não muito altos, interligados, com muito espaço à volta e bons transportes. Esse é um problema do São Francisco Xavier, tem maus transportes e acessos – nunca os acessos deste hospital foram pensados para terem um tráfego correspondente a duas mil pessoas por dia, e ainda que a Câmara Municipal de Lisboa conheça o problema, ainda não fomos capazes de o resolver.

 

“Há um ‘assédio’ aos médicos do CHLO”

 

O SNS debate-se com uma carência crónica de recursos humanos. Está satisfeita com o número de médicos e enfermeiros que trabalham atualmente no CHLO?

Na pandemia, houve um aumento do número de profissionais. As necessidades mais prementes que tínhamos, de enfermeiros e técnicos profissionais, foram colmatadas. É verdade que em relação aos médicos isso não aconteceu. Todas as decisões que se tomam agora numa organização com esta dimensão têm reflexos muito claros anos depois, e as decisões que foram tomadas durante o período da troika tiveram consequências, algumas com efeitos muito nefastos que se estão a notar agora. Quando temos um número estrito de médicos, qualquer saída obriga-nos a suprir essa falta com os médicos que temos. Ora, isso, durante muitos anos, torna-se insuportável no dia a dia e para os médicos, que apesar das dificuldades apostaram no CHLO como local de trabalho e desenvolvimento profissional.

Abriram muitos hospitais privados, cujo maior chamariz serão as condições económicas e a ausência de obrigatoriedade de fazer urgência, para além de estruturas físicas muito bem-adaptadas ao fim a que se destinam, o que não acontece nos hospitais públicos, geralmente espaços adaptados e de difícil reconfiguração.

Há um ‘assédio’ aos médicos do CHLO?

Há um assédio, não só aos médicos do CHLO, mas aos médicos de todos os hospitais do SNS. Isso cria-nos dificuldades. Eu sou médica anestesiologista, uma especialidade cujo número de médicos é manifestamente inferior ao necessário e não há médicos disponíveis para serem contratados. Este é um exemplo de especialidade em que o número de médicos do país é inferior ao que deveria ser, e uma especialidade em que a responsabilidade e qualidade de vida é claramente mal avaliada, até por estruturas com responsabilidades maiores nesta questão. A um anestesista pede-se que seja o primeiro a entrar e o último a sair.  O número de procedimentos que carecem de anestesista para diagnóstico ou terapêutica todos os dias cresce, e bem! E sendo este um médico com enorme responsabilidade na vida dos doentes, e uma vez que a questão financeira é um assunto fechado no SNS, não é muito apetecível ser anestesista apenas no SNS.

Está a referir essa especialidade em particular por causa da situação, noticiada recentemente, que dava conta da falta de anestesistas no Egas Moniz e que levou o CHLO a encaminhar doentes para clínicas privadas na zona de Lisboa? Quer esclarecer o que se passou?

O que acontece nos hospitais do SNS, quando não há capacidade cirúrgica, é que as pessoas recebem um vale-cirurgia para serem operadas no setor privado ou social. Dar um vale cirúrgico é a pior coisa que há, porque o doente vai ser operado por uma equipa que não conhece, num sítio que não conhece, eventualmente mais depressa que no SNS. Noticiou-se logo que estávamos a financiar os privados. O que aconteceu é que o CHLO, preocupado com os doentes, preferiu que alguns dos seus doentes, em especialidades e procedimentos escolhidos, não saíssem com vales cirúrgicos para qualquer sítio, mas que fossem os seus médicos a operá-los ainda que em condições diferentes do habitual. Os doentes foram operados num operador privado, que nos cedeu sala, médico anestesista e enfermeiros de sala de operações. Foi um muito bom ato de gestão por parte do CHLO. Agora, dizer que este ato fez os privados viverem à custa do SNS é uma afirmação tonta, até porque efetivamente muita da atividade habitual dos hospitais privados deve-se, de facto, a demoras nas respostas que o SNS dá e assim tem sido há muito tempo.

 

“Dar um vale cirúrgico é a pior coisa que há”

Não há uma aposta real no SNS, na sua opinião?

O SNS respondeu à pandemia como nenhum privado. O SNS responde a doentes com VIH, hepatite C, ao enfarte agudo do miocárdio, ao AVC, às doenças complexas, aos doentes complexos com polipatologias, às urgências e emergências, aos doentes de trauma, etc, etc, etc… para responder a tudo isto tem que haver uma aposta no SNS, o que não responde é a tudo da mesma forma…

Como é que avalia a formação médica levada a cabo no CHLO?

A formação médica é também uma aposta deste Centro Hospitalar. Priorizamos o ensino pré e pós-graduado e também a investigação clínica, como parte de uma aprendizagem, mas enriquecedor do ponto de vista dos curricula dos internos com grande aporte no sentido da publicação de artigos científicos, o que é particularmente significativo depois na avaliação destes internos quando fazem os seus exames para Especialistas.

Não só há uma grande diferenciação nos serviços, como há capacidade de enviar os internos para centros de diferenciação especializados. Nunca recusei que os internos fossem para estágios em áreas carenciadas do CHLO para poderem ficar depois neste Centro e colmatar essas mesmas faltas ou carências.

O CHLO tem tido a capacidade de reter os médicos recém-especialistas?

Gostava muito de os reter e nem sempre consigo. Vou dar-lhe um exemplo. A Anatomia Patológica é uma especialidade médica carenciada e com um número pequenos de médicos, mas fundamental no diagnóstico. Como o CHLO tem centros de referência em áreas como o transplante, o Sistema nervoso central, o coração por exemplo pedimos a um dos internos que se diferenciasse no sistema nervoso central e foi estagiar num centro de referência fora do país. Esse médico ainda não tinha feito o exame de saída e já estava contratado pela Fundação Champalimaud. É imbatível, tanto a nível financeiro como ao nível das condições de trabalho.

Outro problema prende-se com o topo da carreira médica. Agora têm aberto 250 vagas para assistente graduado sénior, mas, durante alguns anos, não houve concurso. Estamos a correr atrás do prejuízo com duas gerações diferentes de médicos – uma de médicos mais velhos, que não estão calibrados para a área da investigação, e outra de médicos jovens na casa dos 30 anos, que se movem na vaga dos cursos de pós-graduação e trabalhos publicados. No meio não há nada. É bastante desigual. Há sempre a dificuldade de calibrar o concurso, de modo a que, por um lado, não se descure o trabalho feito e produzido mas que não se traduziu em certificados e, por outro, valorizar pessoas que investiram muito na sua formação e não têm ainda muito trabalho feito.

 

“Estamos a tentar robustecer a dinâmica de investigação”

Mas, no que diz respeito à retenção de médicos, o que o CHLO tem feito?

O que se tem de fazer é qualificar os centros hospitalares, diferenciando-os, quer nos processos assistenciais, quer na investigação. No CHLO existe um departamento de investigação clínica, que se tem vindo a robustecer. O CHLO recentemente faz parte de um centro clínico académico e de um laboratório colaborativo. Só isso já tem um enorme potencial, é um fator de atratividade para médicos e doentes. A investigação é indissociável da boa atividade assistencial.

Que projetos ou áreas de diferenciação do CHLO quer destacar?

Temos três grupos de investigação importantes. Nas áreas da cardiologia, da insuficiência cardíaca e na neurologia e neurociências destacamo-nos pela qualidade dos profissionais e pela quantidade de doentes que tratamos. Isso é que permite que fazer conhecimento. Temos uma enorme diferenciação na área da Cardiologia Pediátrica – o Hospital de Santa Cruz é o grande centro de referência das cardiopatias congénitas, recentemente certificado para as redes europeias, que recebe doentes de todo o país e também dos PALOP. Também na área da infeciologia.

Já temos oito centros de referência acreditados: centro de cirurgia da epilepsia refratária, da cardiologia estrutural, das cardiopatias congénitas, do transplante cardíaco adulto e pediátrico, do transplante do rim do adulto, do cancro colorretal e o centro de referência de intervenção neurovascular.

Estamos a tentar robustecer a dinâmica de investigação e estabelecer parcerias com outras instituições, como o Instituto Gulbenkian de Ciência, agora dentro da Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica.

Há mudanças na calha a breve prazo no CHLO?

Temos muitos projetos, alguns que implicam investimento em infraestruturas. Um deles, muito importante, vai ser feito no Hospital de Santa Cruz. É a construção de um edifício onde esperamos vir a ter parte do serviço de cardiologia pediátrica e que vai permitir alargar este serviço. Vai permitir também a construção de uma unidade de cuidados intensivos polivalente, desta vez em Santa Cruz, onde fazemos procedimentos muito diferenciados.

TC/SO

Fonte: Saúde Online

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