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Mário Santos sobre feminismo: “Quero que as minhas filhas possam ser quem são e não quem a sociedade acha que devem ser por serem meninas”

Quando é que despertaste para este tipo de questões ligadas ao universo feminino e aos direitos das mulheres?

Na verdade, foi acontecendo e foi um conjunto de acontecimentos. Houve um conjunto de pessoas que me inspiraram e me serviram de modelo enquanto fui crescendo, entre elas, e de um modo bastante significativo, a minha mãe e o meu pai mas por motivos diferentes. A minha mãe foi, e é para mim, um exemplo de como uma mulher pode ser forte e capaz, ativa, criativa, habilidosa, ao mesmo tempo que sabe ser gentil, sensível e generosa. O meu pai foi um grande modelo para mim de alguém que, enquanto homem, nunca aceitou completamente a sua sensibilidade e delicadeza, nunca se sentiu integrado e, por isso, se refugiou na comida e na bebida. Tendo duas irmãs mais velhas e uma mãe e avó bastante presente, sem dúvida que as minhas principais figuras de referência eram mulheres e isso ajudou-me a contactar de perto com o que podemos chamar de “universo feminino” – apesar de eu preferir não o catalogar desta forma. As questões de género e ligadas aos direitos das mulheres foram ganhando volume e isso culminou com o início da minha prática profissional como enfermeiro, num serviço de saúde materna, onde se tornou mais claro que havia um longo caminho para percorrer.

O facto de te teres tornado pai – de duas meninas – foi um momento de viragem para ti? Foi a partir daí que te passaste a autointitular pai feminista?

Sem dúvida. Com o nascimento das minhas filhas percebi bem melhor como a reprodução humana é uma questão fulcral para o feminismo, porque na gravidez, no parto e na parentalidade são expostas desigualdades entre homens e mulheres de uma forma gritante. Torna-se mais visível a posição de desvantagem da maioria das mulheres e a posição de privilégio da maioria dos homens. A norma é que seja a mulher que cuide e que nutra, porque é a mais competente a cuidar e a nutrir. E, quando não se questiona a norma, por vezes a vida segue sem que se dê conta de que há aqui um problema. Mas há. Percebi também que as minhas filhas, precisamente por serem do sexo feminino, têm sobre elas expectativas específicas – sobre como se devem comportar, do que devem gostar – e isso começou a ser insustentavelmente incómodo. Queria e quero que, acima de tudo, as minhas filhas possam ser quem são e não quem a sociedade acha que devem ser por serem meninas.

Com o nascimento das minhas filhas percebi bem melhor como a reprodução humana é uma questão fulcral para o feminismo

Como é que se criam filhos de forma feminista e se educa para a igualdade de género? É uma trajetória repleta de altos e baixos?

É uma trajetória de constante aprendizagem e reflexão sobre as nossas palavras, os nossos gestos, e as implicações das nossas ações e decisões. Para criar crianças feministas é preciso, antes de mais, sermos feministas, acreditarmos na igualdade de género, acolhermos a diversidade e sermos exemplo disso na prática. Por isso, uma criação feminista nunca é um produto acabado ou um pacote de intervenções, mas um processo.

Quais os maiores ensinamentos que pretendes passar às tuas filhas, Salomé, de dois, e Clarisse, de cinco?

Talvez seja o de que elas devem poder ser quem são e quem querem ser, apesar dos condicionamentos e das expectativas da sociedade sobre elas. E que o seu corpo merece ser cuidado e desfrutado, mas que um “não” tem de ser respeitado. E que a gentileza e o amor têm um potencial de mudança e transformação social incríveis.

No Instagram és alvo de críticas ao te intitulares pai e homem feminista? Qual o maior equívoco da sociedade relativamente a este tema?

Nem por isso. Na verdade, tem havido bastante acolhimento. Houve apenas uma pessoa que me enviou uma mensagem a criticar o facto de me identificar como feminista, porque acreditava que apenas as mulheres o podem ser. Eu discordo, claro, porque todas as pessoas têm um papel a desempenhar em prol da luta feminista, mesmo que tenham diferentes graus de privilégio ou de desvantagem. A luta feminista deve ser, antes de mais, protagonizada por mulheres e por grupos minoritários que mais sentem na pele a desigualdade, mas isso não invalida que homens não possam e não devam ser feministas. O feminismo, aliás, é libertador para homens e para mulheres.

Todos devíamos ser feministas, porque a proposta do feminismo beneficia homens e mulheres

Com base no feedback que tens por parte dos teus seguidores, consideras que começa a existir uma maior reflexão sobre os papéis de género e abertura da sociedade para a sua desconstrução? Ou este é um processo complicado?

Sinto que é um processo complicado, que ainda há muito por desconstruir e muito que fazer. Mas, por outro lado, sinto também que há hoje uma maior reflexão sobre estas questões. Olho para a facilidade com que muitas pessoas de gerações mais novas navegam por questões de diversidade e é inspirador. Acredito que o futuro será um tempo de maior igualdade e de maior aceitação.

Em 2017, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse, numa palestra, que uma pessoa feminista é alguém que percebe que existe um problema com as questões de género e que aceita fazer parte da solução. Revês-te nestas palavras?

Sem dúvida. O feminismo não é monolítico, é plural. Mas na sua base há este reconhecimento de que há um problema e de que podemos fazer a nossa parte na construção da solução. Daí podemos partir para reconhecer que é preciso repensar (ou abolir) o binarismo e as suas consequências, e podemos integrar uma visão mais interseccional através da qual fica mais claro que nem todas as mulheres estão na mesma posição de desvantagem e nem todos os homens estão na mesma posição de privilégio. Há muito para fazer e que bom se mais e mais pessoas refletirem sobre estas coisas e começarem a querer ser parte da solução.

Desde 2012 que a atriz Emma Watson, embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas, é porta-voz da campanha HeForShe que pretende mobilizar mais homens para as questões de desigualdade de género. Consideras que todos os homens devem ser feministas e se devem insurgir contra a desigualdade de género?

Todos devíamos ser feministas, porque a proposta do feminismo beneficia homens e mulheres. Além da motivação – que deveria ser suficiente – para lutar pela efetiva igualdade de direitos e de oportunidade, há exemplos concretos de como o feminismo é vantajoso para os homens ou de como pesa e prejudica os homens esta prevalência de conceções tradicionais de género: há mais suicídios, mais acidentes graves e mais criminalidade entre homens do que entre mulheres, há menos reconhecimento social e clínico do sofrimento mental de homens, há uma falta de reconhecimento da importância do luto do homem na perda gestacional e uma falta de reconhecimento da relevância do envolvimento e da participação do homem na gravidez e no parto – quando isso é desejado e consentido pela grávida – , entre outras questões.

Para criar crianças feministas é preciso, antes de mais, sermos feministas, acreditarmos na igualdade de género

É possível fazer um retrato dos homens e pais feministas em Portugal? Da tua experiência, acreditas que estamos perante um universo muito reduzido?

Há mais homens feministas por aí, felizmente. Poucos serão os que abertamente se identificam como tal, mas alguns deles estão a fazer um excelente trabalho de visibilização das questões de género e das desigualdades entre homens e mulheres, tanto nos meios digitais como em outras plataformas e iniciativas. Outros tantos não assumem publicamente que são feministas, mas sabem que o são. E há ainda alguns que o são, pela sua conduta, pelas suas ações, pelas suas palavras, pelo seu posicionamento, apesar de não o reconhecerem e de não se identificarem como tal, eventualmente por não compreenderem o que significa ser feminista.

Por que motivo é que não existem mais homens a seguir os teus passos e a dizê-lo publicamente? Achas que o sexo masculino sente vergonha em assumir esta posição ou que muitos homens simplesmente não compreendem a importância de serem feministas?

Na verdade, muitos homens nunca sentiram necessidade de lutar por estas questões. Apesar de o feminismo ser benéfico para todas as pessoas, não podemos ignorar a posição de privilégio em que a maioria dos homens estão. Poucos homens terão sentido que, por serem homens, numa entrevista de emprego lhes foi questionada a sua intenção de constituir família ou de ter filhos. Poucos homens terão sentido que, por serem homens, perderam o poder de decidir sobre o seu corpo e que lhes foram realizadas intervenções que não consentiam. Poucos homens terão sentido que, só por serem homens, temeram pela sua segurança e pela sua vida quando se encontram no meio de um grupo de mulheres ou quando saem à noite. Então, sem dúvida que a relevância do feminismo não é tão clara para (a maioria dos) homens como é para (a maioria das) mulheres.

Continua a haver quem ache que o machismo e o feminismo são dois extremos de uma mesma linha

Pegando no recente exemplo de Rita Matias, deputada do Chega, constatamos que, em pleno século XXI, ainda existem muitas mulheres que ainda não sabem o que é o feminismo. Os homens estão consciencializados para este tipo de temáticas?

Sim, claro, há muita desinformação entre mulheres e entre homens. Continua a haver quem ache que o machismo e o feminismo são dois extremos de uma mesma linha, como se o feminismo fosse a opressão sobre homens, e o machismo fosse a opressão sobre mulheres. Não é. Há ainda muito trabalho de esclarecimento e consciencialização a fazer.

A desinformação é o maior inimigo do feminismo?

É um dos inimigos. Talvez o maior inimigo seja a normalização da desigualdade.

Atualmente há quem se questione sobre a pertinência da celebração da Dia Internacional da Mulher e sobre a forma como é celebrado. O que tens a dizer a este respeito? Consideras que esta é uma data que nunca deve ser esquecida?

Quem me dera que este dia deixasse de fazer sentido. Como referi numa publicação há um ano, as mulheres são a maioria mais invisível da nossa sociedade. Apesar de serem um grupo maioritário, continuam a ser uma minoria nos lugares de poder, de protagonismo, e de decisão pública e política. Enquanto isto for a norma, esta é uma data de que não nos devemos esquecer.

As mulheres são a maioria mais invisível da nossa sociedade. Apesar de serem um grupo maioritário, continuam a ser uma minoria nos lugares de poder, de protagonismo, e de decisão pública e política

Qual o teu maior objetivo enquanto pai e homem feminista?

Contribuir com as minhas palavras, as minhas ações e o meu exemplo para cultivar uma maior consciência sobre como as conceções tradicionais de género nos condicionam e limitam, e lutar por uma maior igualdade de direitos e de oportunidades entre todas as pessoas, independentemente do seu género ou do sexo que lhes foi atribuído à nascença.

Fonte: Lifestyle Sapo

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