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Falta de médicos no Algarve. “É preciso indexar os vencimentos base ao custo de vida local”

É possível quantificar o défice de profissionais de saúde no Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA)?

Sim. Vamos, aliás, enviar à tutela as necessidades que temos de modo a garantir as escalas. Temos um número considerável de profissionais em falta, que vão desde assistentes operacionais a enfermeiros, médicos. É um défice transversal e que existe a nível nacional.

O défice não se prende apenas com a falta de profissionais. Para além disso, temos uma outra questão: para garantir escalas de urgência, temos de ter profissionais habilitados a fazer urgência de 24 horas. Por questões de idade, os médicos podem pedir escusa de fazer noites e urgência. Por vezes, até temos os médicos suficientes mas não temos médicos que garantam escalas de urgência.

Estarão em falta neste momento, no CHUA, dezenas de médicos?

Sim.

Quais as especialidades mais afetadas?

A pediatria, a anestesia. Temos, neste momento, no quadro do CHUA 13 anestesistas, quando precisaríamos, no mínimo, de 44 (de modo a cumprir os rácios da ACSS). Temos também falta de ortopedistas, cardiologistas, oncologistas, obstetras e ginecologistas. Temos também carência de cirurgiões que façam urgência. Estamos carenciados também na neurocirurgia, por exemplo.

 

“Temos um número considerável de profissionais em falta”

No que diz respeito à pediatria, o défice de profissionais no Algarve sente-se há já bastante tempo, afetando de forma recorrente a urgência.

Não é exclusivo do Algarve. Cada vez temos menos pediatras do SNS. Aqueles pediatras que decidiram manter-se no SNS começam a ter alguma idade e já não fazem urgência. O CHUA só tem cinco pediatras com capacidade de fazerem 24 horas de urgência. Cinco pediatras para dois serviços de urgência abertos, maternidade e internamento é pouco.

Quando ficamos sem pediatras, isso não tem a ver, como muitas pessoas pensam, com o facto de os nossos pediatras do quadro estarem de férias, mas sim com o facto de os prestadores de serviço não terem qualquer obrigação de oferecerem disponibilidade. Ou seja, quando um prestador de serviço, escalado para o fim de semana, à sexta-feira me diz que não vem, eu não posso fazer nada. Esse é o maior problema, quando estamos muito dependentes dos prestadores de serviço.

 

Num ano em que se espera uma enchente no Algarve, com o número de turistas ao nível de 2019, de que forma o CHUA se está a preparar para responder ao previsível aumento da procura?

Da forma como se prepara todos os anos. A grande vantagem de as pessoas virem de férias é que não veem doentes. O que aumenta no verão é a pequena urgência: dores de garganta, de ouvidos, traumas. O que fazemos todos os anos é reforçar as equipas de urgência, sobretudo nas especialidades mais relacionadas com o trauma.

E isso vai acontecer também este ano?

Também vai acontecer este ano.

Pode garantir, por isso, que toda a população terá assistência, se necessário, do CHUA este verão?

Sempre teve. Essa questão nem sequer se coloca. Mesmo a população da região nunca deixou de ter apoio na Pediatria e na Ginecologia/Obstetrícia. O mesmo não acontece noutras regiões, que ficam sem serviço de Ginecologia/Obstetrícia, e encaminham para Faro. Damos apoio à região e não só.

A que regiões se refere?

Ao Alentejo. Somos nós que damos apoio ao Baixo Alentejo.

São cada vez mais audíveis as queixas em relação à Urgência Geral em Faro, por falta de espaço, nomeadamente. O CHUA tem algum plano para melhor este serviço?

A situação da urgência de Faro tem a ver com o facto de o hospital não crescer. Precisamos de um hospital novo há já bastante tempo, porque as instalações atuais começam a ser exíguas. Os meios de diagnóstico (TAC, ressonâncias) começam a ocupar espaço, que nós vamos retirando. Isto é, para termos os equipamentos, ficamos com menos espaço livre em vários locais, nomeadamente na urgência. O Hospital de Faro não tem mais por onde crescer. Vamos tentando alterar circuitos, mas o espaço não cresce.

 

“Precisamos de um hospital novo há já bastante tempo”

O CHUA está também subdimensionado no que diz respeito ao número de camas para internamento?

O CHUA está subdimensionado. O número de camas é menor do que aquilo que está recomendado. Temos um défice de 100 camas na região. A população cresceu e os hospitais continuaram do mesmo tamanho. A agravar este cenário, temos muito pouca resposta social, ou seja, resposta para saída dos doentes que estão no hospital mas que não precisam de lá estar, e que aguardam vaga em lar ou numa unidade de cuidados continuados. Essas pessoas ocupam, neste momento, 70 a 80 camas, quase 10% das vagas. A rede de cuidados continuados e de cuidados paliativos também está subdimensionada na região.

O Algarve continua a não ser uma região atrativa para os profissionais de saúde, nomeadamente para os médicos. Que razões levam os médicos a não se fixarem na região?

Uma das razões tem a ver com os vencimentos, que são iguais aqui, em Viseu, na Guarda ou em Lisboa. O custo de vida aqui é muito elevado, o que significa que as pessoas veem ganhar o mesmo e gastar mais. Se um médico puder trabalhar num sítio onde gaste menos, vai optar por esse local, é natural. Tudo no Algarve é mais caro, a comida, a água, as casas, os colégios.

Que medidas se poderiam tomar para contornar essa situação?

Em primeiro lugar é preciso indexar os vencimentos base ao custo de vida dos locais onde os médicos trabalham. Isso é viável, existem dados publicados pelo INE. Por outro lado, poderíamos até manter o mesmo ordenado base mas introduzir os contratos por produtividade, ou seja, aumentar os vencimentos mediante o alcançar de determinados objetivos – toda a gente gosta de ser recompensada pelo trabalho que faz. Fazermos contratos de 40, 35 ou 20 horas diz muito pouco aos médicos mais jovens, para os quais é mais interessante terem objetivos para cumprir e terem a possibilidade de se diferenciarem. Poderem fazer determinado projeto ou investigação é aquilo que muitas vezes faz com as pessoas fiquem. Por outro lado, o que atrai mais os médicos são também hospitais que estejam equipados para poderem ser realizadas as técnicas mais adequadas. Com hospitais obsoletos, não conseguimos atrair as pessoas.

O CHUA poderia oferecer, por iniciativa própria, algum tipo de incentivo?

Não temos qualquer autonomia, infelizmente. Mesmo para contratar temos de pedir autorização ao Ministério.

Como tem evoluído, em 2022, a atividade assistencial no CHUA?

Temos vindo a aumentar a atividade. Temos um problema com as listas de espera, quer de consultas quer de cirurgias, que tem estado a evoluir favoravelmente. Embora se saiba que, nos últimos dois anos, as pessoas não foram referenciadas pelos médicos de família.

Alguns centros hospitalares já igualaram ou ultrapassaram os indicadores de 2019 nos primeiros meses deste ano. É o caso do CHUA?

O CHUA continua a ter internamento Covid, cerca de 40 doentes, pelo que não temos ainda a capacidade pré-Covid – os doentes Covid ocupam camas que poderiam ser ocupadas por doentes que seriam operados. Aumentámos muito o número de cirurgias de ambulatório. Nas restantes cirurgias estamos a recuperar e a aproximarmo-nos dos níveis de 2019. Em relação às consultas, devemos estar já a ultrapassar os números de 2019.

A Drª está há quase dois anos à frente do CHUA. Quais foram os maiores desafios que enfrentou até agora?

Um dos desafios é a quantidade de investimentos que são necessários e o pouco dinheiro que temos para os concretizar. O desafio é encontrar dinheiro, nas mais diversas candidaturas europeias e financiamentos, para reequipar e atualizar o CHUA.

Outro desafio é o dos recursos humanos. Conseguirmos manter as escalas de urgência e a atividade normal com menos profissionais não é fácil. E não tenho autonomia para aliciar as pessoas.

 

“Os concursos [para colocação de médicos] demoram muito tempo. Só servem o privado”

Espera que o novo concurso para colocação de recém-especialistas leve mais médicos à região?

Já temos identificados alguns médicos que mostraram intenção de virem trabalhar para o CHUA. O problema é que os concursos demoram muito tempo, as pessoas acabaram a especialidade em março e prevê-se que o concurso esteja concluído em agosto. É muito tempo, é um período em que perdemos os médicos para o privado. Se um médico acaba a especialidade em março, deveria continuar a poder ganhar como interno até o concurso estar concluído. Nós precisamos destes médicos, deveríamos poder contratar de imediato, evitando o aliciamento do privado. Estes concursos, da forma como estão a nível nacional, só servem o privado.

O CHUA tem um projeto de consultas descentralizadas, em que leva as especialidades hospitalares aos centros de saúde, aproximando os cuidados das pessoas. O projeto já arrancou em Aljezur, com a Pediatria. A que outros locais e especialidades querem alargar o projeto?

Queremos levar os cuidados onde eles são necessários, começando a integrar os cuidados nos cuidados de saúde primários. Temos já a Medicina Interna e a Pediatria em Aljezur. Temos uma unidade móvel em Aljezur onde as crianças nascidas no último mês são vistas. Temos também em Aljezur os cuidados paliativos ao domicílio.

Vamos estender o projeto a Albufeira, Tavira e São Bartolomeu de Messines, com a Medicina Interna, a Pediatria e a Cirurgia Geral. A necessidade de outras especialidades depende da população, vamos adaptando. A ideia é irmos ao encontro do que a população precisa. Quando vemos um doente no hospital não percebemos qual é o seu contexto familiar, as condições do domicílio, que fazem parte da doença e saúde da pessoa.

Quando o doente está em contacto com o médico de família, o médico de família tem a visão do contexto do doente – se tem apoio, dificuldades. Esta visão é partilhada entre colegas, com os médicos e enfermeiros do CHUA. Isto permite que os médicos de MGF se sintam mais próximos dos colegas. Isto vai também diminuir a necessidade de primeiras consultas, que são pedidas, muitas vezes, só porque os médicos de família têm dúvidas e não têm como esclarecer, o que faz também diminuir o stress para os doentes de terem de ir a uma consulta hospitalar e diminui a necessidade de exames complementares de diagnóstico.

A população, sabendo desta interação entre os médicos, ganha maior confiança nos serviços. Por exemplo, 90% das situações que chegam à urgência de Pediatria não precisavam de ir à urgência, o médico de família conseguiria resolver. É também verdade que muitas pessoas não têm sequer médico de família e outras, tendo, podem não ter acesso. Se criamos acesso às consultas na proximidade, as pessoas optarão pelo centro de saúde.

 

É um projeto com especial relevância numa região com uma rede de transportes públicos muito débil.

Esse foi um dos principais problemas que identifiquei. As pessoas têm muita dificuldade no transporte. Os transportes públicos são muito escassos. A quantidade de ambulâncias que o CHUA pede para transportar as pessoas para as consultas é enorme.

Há algum outro projeto já iniciado pelo CHUA ou na calha para ser iniciado que gostasse de destacar?

Sim, a hospitalização domiciliária. Foi um projeto que cresceu. Já tínhamos no Barlavento e agora também temos no Sotavento. O que aconteceu foi que expandimos a hospitalização domiciliária aos lares. Antes, só era possível nos casos em que os doentes tivessem, nas suas casas, cuidadores. Nos lares, existem cuidadores diferenciados. Tínhamos doentes dos lares que, ao virem para o hospital, pioravam muito a parte cognitiva. Percebemos que era possível que os nossos profissionais fossem ver estas pessoas aos lares – em que o ambiente é o mesmo e não há uma mudança tão grande. As pessoas recuperam mais rápido. É um projeto inovador, iniciado no Algarve.

SO

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Fonte: Saúde Online

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