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Traumatismo crânio-encefálico

Os traumatismos crânio-encefálicos (TCE) são a causa mais frequente de lesão neurológica e a primeira causa de morte em pessoas com menos de 40 anos de idade. O TCE pode ser definido como uma lesão cerebral causada por uma força externa que afeta a dinâmica do sistema nervoso central, provocando alteração do estado de consciência (que pode ir desde o estado confusional até ao estado de coma nas situações mais graves), alterações neuropsicológicas e/ou alterações físicas, que por sua vez se repercutem e impactam a nível sócio-familiar e sócio-ocupacional. Por isso, o TCE é considerado uma forma de lesão cerebral adquirida, pois existe um funcionamento do cérebro antes do TCE, que era saudável, e um funcionamento cerebral após o TCE, que se apresenta alterado.

Os TCE resultam tipicamente de dois tipos de situação, do impacto direto de um objeto contra o crânio ou do impacto direto do crânio contra um objeto ou superfície, e de forças de inércia, como são a aceleração, a desaceleração e a rotação que geram ondas de choque dentro do crânio provocando lesões cerebrais. As principais causas de TCE são os acidentes de trânsito, os acidentes de trabalho (e.g., quedas em obras), as quedas casuais (com especial atenção para as crianças e os idosos), o atropelamento de peões, os acidentes relacionados com a prática desportiva (e.g., deportos de contacto como o boxe ou o râguebi) e as situações de violência.

Existem várias formas de classificar os TCE, sendo comumente aceite considerar dois tipos: os TCE abertos e os fechados. Os TCE abertos são aqueles em que existe perfuração do crânio, rutura traumática das meninges e dano cerebral, podendo o tecido cerebral ser atingido por estilhaços de osso, como nos casos de lesão causada por arma de fogo. Neste tipo de TCE, o cérebro fica em contato com o ar e esta situação aumenta o risco de infeção cerebral. Por estranho que possa parecer, os TCE abertos nem sempre causam perda de consciência, o que permite que a própria pessoa consiga pedir ajuda. Os TCE fechados são aqueles em que o crânio não é afetado ou apresenta sinais ligeiros de lesão. Este tipo de TCE pode causar várias lesões devido aos efeitos do “golpe” (dano causado na zona de impacto pela pancada) e do “contra-golpe” (danos causados pelo movimento do cérebro dentro do crânio: por rebote, no caso de pancada; ou pelo efeito de mecanismos de inércia, como no caso dos acidentes de trânsito). Geralmente, neste tipo de TCE existe perda de consciência e a sua duração e o seu impacto no quadro clínico variarão em função da gravidade do TCE.

As lesões que decorrem de um TCE podem causar danos primários, quando estes são produto do momento do impacto, isto é, são danos que se podem caracterizar por lesões focais e difusas. As lesões focais produzidas pelos efeitos do golpe e do contra-golpe (e.g., contusões e lacerações) e as lesões difusas produzidas pelo estiramento ou rutura dos axónios (e.g., lesões axonais difusas) causadas por desacelerações de significativa duração e velocidade, como acontece, por exemplo, nos acidentes de carro, nas quedas de uma altura significativa e nos acidentes desportivos. Por sua vez, as lesões que são produto dos TCE também podem causar danos secundários, que são consequência das complicações geradas pelo dano primário. Assim, para além das lesões que são produto do TCE em si mesmo, o TCE pode afetar o cérebro de várias outras formas, como por exemplo podendo originar um acidente vascular cerebral isquémico, causar hemorragias ou hematomas cerebrais aumentando a pressão intracraniana, também podem ser causa de inflamação cerebral por via da formação de edema, o que também gera aumento da pressão intracraniana, hidrocefalia, deixar “cicatrizes” que podem tornar-se focos epiléticos, entre outras.

Na sequência de um TCE dá-se a manifestação de um conjunto de alterações físicas, sensitivas, cognitivas, emocionais e de conduta, que podem ocorrer de forma isolada ou combinada. O perfil de alterações depende, principalmente, da natureza e da gravidade do TCE, da localização e do tipo de lesão cerebral, da presença ou não de lesões cerebrais secundárias e das características pré-mórbidas da pessoa. Por estas razões, não é possível considerar um perfil de alterações padrão, podendo as alterações manifestarem-se num ou em vários dos domínios referidos e geralmente afetam as capacidades que possibilitam uma vida independente, trazendo dificuldades à participação da pessoa no trabalho, na escola, na família, nas atividades sociais e de lazer e nos relacionamentos interpessoais.

Desta forma e apesar de existir uma considerável variabilidade nas alterações manifestadas entre as pessoas, a nível físico pode ocorrer a perda total ou parcial do movimento de um ou mais membros ou de um dos lados do corpo. Este tipo de situação conduz a dificuldades na marcha, em subir e descer as escadas, dificulta a realização das tarefas quotidianas. As alterações físicas também podem envolver a rigidez de movimentos e a descoordenação motora. As alterações sensitivas relacionam-se com as alterações ao nível da somestesia, ou seja, com o sentir das coisas através do tato e não só, o sentir calor, sentir frio e a dor física. Este tipo de alterações pode colocar a pessoa em situações de risco face a queimaduras ou ferimentos, como cortes. Inclui-se aqui as alterações sensoriais como, a diminuição do olfato, do paladar, da acuidade visual e auditiva.

No domínio cognitivo pode estar alterada qualquer função cognitiva ou várias, ainda assim destacam-se as alterações de atenção, de concentração, de linguagem (que podem afetar o falar, o repetir, a leitura ou a escrita), de raciocínio, de planeamento, de organização e sequenciação das ações (o que interfere negativamente com a capacidade da pessoa resolver problemas), de memória e de aprendizagem, o que condiciona muito a aquisição de novas informações e o uso dos conhecimentos anteriormente aprendidos. Por vezes, mesmo quando não existem alterações físicas, as funções motoras, como o movimento voluntário, podem estar afetadas, o que se reflete em dificuldades ou incapacidade de executar uma sequência de ação, podendo limitar a marcha, o vestir-se, o pentear-se, etc. Para além destas alterações, acrescem, a lentificação, dificuldades em atribuir significado e em interpretar os diferentes elementos do contexto e agir em conformidade, inibindo respostas automáticas desajustadas e gerando comportamentos adaptativos. No conjunto, estas alterações limitam ou inviabilizam a tomada de decisões vantajosas.

No domínio emocional e de conduta sublinham-se as alterações de humor e a labilidade emocional, podendo a pessoa oscilar rapidamente e sem razões que o justifiquem, entre a tristeza e a euforia ou vice-versa, dificuldade na autorregulação emocional e comportamental, desmotivação, desinteresse, egocentrismo, desinibição sexual, baixa autoestima e baixa autoconfiança.

Estas dificuldades ou incapacidades interferem em vários aspetos da participação social, como as atividades de lazer, a participação e integração ocupacional e/ou escolar, a dinâmica familiar, podendo existir um cuidador que prescinde do seu trabalho para cuidar, adicionando dificuldades de interação interpessoal e de momentos de socialização, conduzindo, não raras vezes, a isolamento social.

Face à multidimensionalidade e diversidade das alterações que estão associadas aos TCE, é natural que a resposta adequada a estes pacientes não se encerre na intervenção de profissionais de uma ou duas áreas do conhecimento, mas que seja fundamental uma intervenção que resulte da integração de profissionais de várias áreas, como a medicina, a terapia da fala, a psicologia – psicoterapia e neuropsicologia – a terapia ocupacional, a fisioterapia e a enfermagem, pois só assim se pode ter em vista uma maior qualidade de vida para estes pacientes e os seus cuidadores/famílias.

Espero que tenha sido um tema do seu interesse e que de alguma forma lhe possa ter sido útil.

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