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A guerra e a saúde, relembrar o VIH

Mário André Macedo: Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

Já faz algum tempo que não escrevo sobre o impacto da invasão russa na saúde, que se faz sentir mais intensamente nos ucranianos, naturalmente, mas cujos seus efeitos não se ficam por aqui. O caso do VIH é um bom exemplo, não só das consequências que diferentes políticas públicas têm nos resultados em saúde, como da disrupção causada pela guerra.
Em 2017, três em cada quatro novos casos de VIH na Europa, ocorreram na Ucrânia e Rússia, sendo que a transmissão ocorreu maioritariamente por partilha de seringas infetadas, e não por contactos sexuais. Um padrão diferente do resto da Europa, tanto em dimensão, como na forma predominante de contágio. Agora, com os milhões de refugiados causados pela guerra, aumentam as preocupações que devido a políticas restritivas e punitivas no campo das adições, associado a dificuldades no acesso a testes e medicação, estejam criadas as condições ideias para causar um aumento do número de casos.
Vale a pena analisar melhor a influência que as políticas públicas produzem no controlo do VIH. A Ucrânia e Rússia sempre apresentaram um padrão diferente do resto da Europa. Resultado de uma estigmatização e excessiva criminalização das políticas de combate às adições. Até 2014, as terapêuticas de substituição de opioides eram proibidas na Ucrânia. Em 2023, continuam a ser proibidas na Rússia. Esta opção causa um aumento dos comportamentos de risco, como a partilha de seringas, que por sua vez, produz diretamente um aumento de novos casos. Graças à nova abordagem ucraniana ao problema, em 2022, apesar de manter ainda taxas elevadas de novos casos de VIH, a tendência já era decrescente, num claro contraste com a Rússia e as regiões ocupadas.

Os países que mais acolhem refugiados ucranianos, como a Polónia ou Hungria, sem esquecer a já referida Rússia, não são reconhecidos pela universalidade do sistema de saúde ou facilidade de navegação no sistema. E as políticas relativas a consumos e adições estão longe de ser as ideais. Por esse motivo, um em cada três novos casos de infeção por VIH em refugiados ucranianos na Polónia, o diagnóstico é efetuado já no estadio de SIDA, o que demonstra que a vigilância e a testagem não são efetuadas de forma correta, o que leva a atrasados no diagnóstico, agravamento do estado de saúde e novas oportunidades de transmissão do vírus. Na Rússia, não há menção nem notícias de tentativas de cruzar dados de saúde dos 4,5 milhões de refugiados ucranianos. Em combinação com as políticas públicas de saúde do país, significa que até 50 mil pessoas vivem sem acesso ao indispensável tratamento antirretroviral.

Acabar com a epidemia de VIH na Ucrânia é agora uma responsabilidade dos vários países da região. Em caso de insucesso, o retrocesso nos indicadores de saúde regionais será considerável. Descriminalizar o consumo e apoiar as pessoas, acesso fácil a testes e a medicação antirretroviral, incluindo a terapia pós exposição, fazem parte das ferramentas ao nosso dispor para controlar de vez a epidemia do VIH. Como em tantos outros exemplos na saúde, a estigmatização, a marginalização e a criminalização, não vão resolver problemas de saúde pública. Pelo contrário, apenas os agravam.

 

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