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Victor Ramos e Constantino Sakellarides fazem balanço da conferência “Estados Gerais – Transformar o SNS”

Na conferência, Manuel Lopes (Diretor da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Évora e Membro do Conselho Geral da Fundação para a Saúde) desenvolveu algumas das principais mensagens em 2023: participação social em saúde; planeamento e gestão estratégica das profissões de saúde; cultura e liderança organizacional adequadas; equidade no acesso a cuidados de saúde de qualidade; integração e continuidade de cuidados; “Percursos de saúde” e personalização dos cuidados; sistema de informação ao serviço das pessoas; inovação tecnológica; modelo e métodos de investimento e de financiamento. Constantino Sakellarides, coordenador da iniciativa “Transformar o SNS” e Membro do Conselho Geral da Fundação para a Saúde, apresentou dez princípios para uma boa governação e governança na saúde: distinguir dois níveis de governação e governança – saúde e sistema de saúde; assumir a centralidade das pessoas; realizar metas assumidas; atuar sistemicamente (complexo e interativo); desenvolver competências estratégicas – análise, planeamento e direção, criando um novo dispositivo; gerir o conhecimento (inteligência distribuída e colaborativa); transformar tecnologicamente (gerir a transformação tecnológica); qualificar o Estado – Estado empreendedor; articular o público, o social e o privado (cooperação); dar importância ao discurso, focado e mobilizador.

Na sua apresentação, Constantino Sakellarides disse que “precisamos de uma história que se possa contar”. “Não vale a pena lista de medidas, vale a pena termos uma história para contar.”

Depois do evento, Constantino Sakellarides resumiu desta forma a história contada esta quarta-feira nas instalações da FMUL: “Eu diria que a reunião proporcionou, aos que assistiram presencialmente ou à distância, várias histórias interessantes. Começámos por resumir aquilo que foram as principais mensagens dos Estados Gerais durante o ano passado, o que é que as pessoas disseram, o que é que preocupa as pessoas. E depois dissemos o seguinte: vamos interpretar isto. Temos dificuldades, porquê? Ora, essa resposta é complicada, torna-se perigosamente técnica, perigosamente incompreensível. O desafio é articular um conjunto de novos instrumentos de governação que permitem transformar o Serviço Nacional de Saúde num serviço melhor. Mas isto tem que ser dito de uma forma articulada. Daí aquela citação que eu gosto muito: ‘O universo é feito de histórias, não de átomos’. O que quero dizer é que aqueles elementos que são importantes para governar melhor têm de ser vistos no seu conjunto e de forma articulada, de forma que, se estiver na assistência a ouvir aquilo, daquela história que lhe contam cria a sua própria história, que lhe permite, face às situações, sozinha ou em companhia dos colegas, saber como reagir. Ou seja, o que pedimos às pessoas é que façam a sua própria história sobre o processo de mudança que é preciso gerir e o que nós damos é o material para cada um construir a sua própria interpretação. Mas não uma interpretação acomodada, é uma interpretação com vontade de transformar. Como é que nós conseguimos ultrapassar as dificuldades, que no passado não conseguimos, com novos instrumentos que dão promessa de que essa transformação é possível.”

Ao HealthNews, Victor Ramos, presidente da Fundação para a Saúde – SNS, respondeu à mesma questão: “As coisas não acontecem por varinhas mágicas. É preciso um trabalho prévio, de organização; um trabalho continuado; um trabalho de inclusão de muitas perspetivas. Isto hoje foi um momento de síntese num percurso. Não foi nem o princípio nem o fim de nada. Portanto, há um trabalho, aqui faz-se uma síntese, recapitula-se. Este tipo de continuidade e de interligação que se vai fazendo, que é moroso, não se compadece com imediatismos ou com foguetes e, portanto, não dá muito nas vistas, nem queremos isso. Queremos, como o Professor [Sakellarides] dizia, que se vá construindo uma inteligência coletiva, um conjunto de valores, de perceções, e que esses valores sejam suficientemente fortes para motivar a energia, o brio, a criatividade, para contagiar. Claro que tem que haver um enquadramento concetual, de visão, de missão política, também, mas depois há um manancial de oportunidades e de ação que é possível com os talentos a todos os níveis. O trabalho da Fundação é esse. Nada de muito espetacular, do ponto de vista de coisas heroicas. É um trabalho de ligação, de conexão. Gosto da palavra, que não é muito usada, liderança ‘conectiva’. Conectividade é muito usada no digital, e vê-se o que ela produz. Ora, precisamos de conectividade social e nas organizações. São mundos diferentes, mas têm uma coisa em comum, que é interligar, fazer fluir conhecimento, comunicação, informação.”

Com Constantino Sakellarides e Victor Ramos, houve ainda oportunidade para comentar o debate da tarde, dedicado aos cuidados de saúde primários. Sakellarides frisou que “o que é original no Serviço Nacional de Saúde português é a centralidade do centro de saúde”. “O centro de saúde é, de facto, a peça central.” Se o enfraquecermos, “perdemos o centro de gravidade do Serviço Nacional de Saúde”.

O coordenador da iniciativa deu o exemplo da vacinação nas farmácias, e explicou: “É bom, é um recurso da saúde importante. (…) Queremos boas farmácias, mas bons centros de saúde, também. Porque vacinar é uma oportunidade para conversarmos. (…) Portanto, nós não queremos substituir o centro de saúde pelas farmácias, mas queremos que a farmácia funcione melhor e que ofereça mais informação, mais coisas; mas é simultaneamente com um bom centro de saúde. Termos boas farmácias com um centro de saúde decrépito, a dissolver-se devido ao gigantismo da construção de agrupamento que fizeram, não é bom. Portanto, a grande discussão da tarde foi como fazer renascer aquela referência central do nosso Serviço Nacional de Saúde que é o centro de saúde. E como disse o nosso colega, Dr. Victor Ramos, Presidente da nossa Fundação, não é um trabalho acabado. O laboratório de ideias avança com o pensamento deste momento, mas convida a continuar a pensar como nas circunstâncias de futuro próximo nós, de facto, podemos fazer renascer um centro de saúde de grande categoria.”

Para Victor Ramos, “falar em cuidados de saúde primários significa falar em comunidades e pessoas e participação próxima”.

“Há Unidades Locais de Saúde que vão abranger 21 concelhos, 17, 19, portanto, estamos a falar de uma escala que se afasta muito do ponto local. Apesar de se chamarem locais, na realidade elas são sub-regionais. Em muitos sítios elas coincidem com as antigas sub-regiões de saúde, geograficamente. Portanto, há aqui um risco de as unidades ficarem atomizadas, desligadas, dispersas”, advertiu o Presidente da Fundação.

“Se desaparecem os agrupamentos e fica só a multidão de unidades, e elas já estão muito desligadas entre si, corremos aqui um risco de não conectividade. (…) Pode haver uma leitura de que é criar retângulos intermédios no organigrama, e isso seria um desastre. (…) Seria um pouco desastroso, que é ter mais cargos, mais uma direção; mas alguma solução tem que se encontrar para coordenar e interligar as duas mil unidades que existem espalhadas, e o nível da administração da ULS não consegue, fisicamente, nem materialmente, nem mentalmente, nem intelectualmente. Portanto, é preciso criar alguma dinâmica de rede na proximidade, junto com as pessoas. Com os municípios, por exemplo. (…) Mas uma coisa ligeira, não pode ser burocrática. Mas alguma coisa tem que se fazer, seja virtual, seja mais estrutural. Mas não pode ser burocrática. (…) É a ligação das unidades, o entrosamento com a comunidade e a participação da comunidade a este nível e, depois, uma ligação célere – não por escadas, direta – com os decisores locais (da ULS)”, defendeu Victor Ramos.

HN/RA

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