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Porque depende a nossa saúde de milhões de microrganismos? “A culpa é da microbiota”, responde a especialista em doenças infeciosas Sari Arponen

Em que circunstâncias a microbiota se tornou para si um objeto de estudo?

Há cerca de 14 ou 15 anos, comecei a perceber o verdadeiro alcance da alimentação na sua relação com a nossa saúde e, muitas vezes, os médicos não o explicam. Descobri que uma parte dos porquês para a alimentação ser tão importante se prende com a microbiota. Acresce que nos últimos sete anos se começou a publicar mais acerca da microbiota. E, claro, sou muito curiosa [risos].

O que é a microbiota e que microrganismos a constituem? Provavelmente, muitos entre nós, associam a microbiota a bactérias, mas é um ecossistema muito diverso…

À microbiota chamava-se no passado flora intestinal. A esse conjunto de microrganismos, chamemos-lhe um ecossistema, temo-lo em todo o corpo, nos intestinos, na boca, na pele, na zona genital. Fala-se muito das bactérias, mas também há fungos, há protozoários, há vírus, na sua maioria ‘bons’ e também arqueobactérias, as ‘primas’ antigas das bactérias. É difícil estudar todos estes microrganismos, pelo que sabemos mais acerca das bactérias. Outra peculiaridade, é a descoberta de bactérias pequeníssimas, descritas há perto de 12 anos, que vivem na superfície de outras bactérias. Ainda não se conhece qual a sua função.

Por falar em função, quais são as funções da microbiota?

São inúmeras e depende de onde está essa microbiota. De forma geral, defendem-nos dos microrganismos patogénicos, os que produzem infeções. Também nos ajudam, por exemplo, no intestino, a fazer a digestão de elementos que não digerimos como fibras e açúcares.  Também regula o sistema imunitário. Tem uma ligação ao cérebro que, aliás, é muito conhecida. Porém, a microbiota intestinal também se liga ao coração, ao fígado, ao pâncreas, aos músculos, a todo o corpo. Também fabrica muitas substâncias importantes para a saúde, como vitaminas do grupo B e vitamina K.

A microbiota intestinal também se liga ao coração, ao fígado, ao pâncreas, aos músculos, a todo o corpo.

Assim visto, há que estar de boas relações com a nossa microbiota. O que se pode considerar uma microbiota saudável?

É uma pergunta obsessiva para muita gente que quer saber qual é a composição exata da microbiota, por exemplo, quantas bifidobactérias tem de ter. Mas, não sabemos. Não se trata tanto de uma questão de composição, antes de como essa microbiota opera em cada parte do corpo. Por exemplo, a minha microbiota é muito diferente daquela de alguém que vive na China. Mas, se ambos estivermos sãs, a microbiota está bem. O importante é que desempenhe as suas funções. Na nossa sociedade há algumas bactérias que se consideram muito saudáveis, como as bifidobactérias.

Na introdução que faz à sua obra, Mago More afirma que o seu livro é “para médicos, claro”. Porque é endereçado a médicos? A comunidade médica não está a par deste tema?

De momento não muito porque, na verdade, muita da ciência publicada, perto de 140 mil publicações, fez-se nos três últimos anos. Então, quando se estuda na faculdade não se fala da microbiota, porque a maioria dos professores nesse contexto não a conhece. Acresce que atualmente a medicina centra-se muito nos fármacos e a microbiota não se trata dessa forma. O médico tem de mudar o chip, ver a importância do estilo de vida e da alimentação para a saúde da microbiota. É uma questão de tempo até mais médicos se concentrarem neste tema.

Quem está a fazer a investigação?

Há uma separação entre quem faz a investigação, os laboratórios, e o médico que está nas consultas nos hospitais e nos centros de saúde. Muitos estudos incidem sobre bactérias concretas, uma substância especifica produzida por uma bactéria. Há muitos laboratórios a investigar nos Estados Unidos onde encontra o Projeto do Microbioma Humano [decorreu entre 2007 e 2016], e também na China. Na Europa, cada país está a desenvolver as suas próprias investigações. Deveria haver mais colaboração entre equipas de investigadores.

 “As descobertas sobre a microbiota constituem uma das maiores revoluções da história da ciência e da medicina”. Porquê?

Porque envolve metade, ou mais, das nossas células. Cada célula tem 22 ou 23 mil genes. Mas, temos no nosso corpo, entre três a dez milhões de genes de microrganismos. Não os podemos mudar, mas podemos atuar sobre a microbiota e modelar o seu funcionamento. Havendo uma enfermidade, podemos melhorar a nossa saúde. Era algo que não conhecíamos e que está aí, disponível. Também as ciências Ómicas vão ser importantes no futuro. A transcriptómica, que sucintamente se refere à forma como se expressam os nossos genes; a metabolómica, que se prende às substâncias que produz a nossa microbiota. Nos próximos anos, quando voltarmos a ter dinheiro [risos], as ciências Ómicas voltarão a contribuir para a revolução na medicina.

Há fatores que, não imaginaríamos, têm impacto na nossa microbiota. Quer dar-nos dois ou três exemplos?

Parece muito claro que o que comemos influi na nossa microbiota, mas muitas pessoas não saberão que o nosso companheiro/a influi na nossa microbiota. A revista Nature publicou este janeiro um estudo que afirma que a microbiota oral é compartilhada em 38% com os nossos parceiros. Outro aspeto prende-se com a importância de mantermos um sono de qualidade. Somos o único animal que voluntariamente subtrai horas ao seu sono. Estamos a provocar danos na microbiota. Também a prática de exercício físico tem impacto sobre a microbiota.

Na realidade, tudo o que fazemos no dia a dia tem impacto na microbiota. Por exemplo, a forma como respiramos. Muita gente respira pela boca, o que aí altera a microbiota e, em consequência, a do intestino. Outro exemplo: se vivemos numa cidade e estamos todo o dia stressados, isso afeta a nossa microbiota.

Somos o único animal que voluntariamente subtrai horas ao seu sono. Estamos a provocar danos na microbiota. Também a prática de exercício físico tem impacto sobre a microbiota.

Fala-nos dos supercentenários, das zonas azuis do Planeta [partes da Sardenha, do Japão e da Grécia, entre outras regiões] e associa a longevidade ao estilo de vida. Que fatores influem?

Estas pessoas vivem num ambiente natural, comem alimentos ‘verdadeiros’, provenientes da horta, da pesca e da pecuária, nunca em demasiada quantidade. Hoje em dia comemos demasiado. Acresce que se mantêm ativos ao longo da vida, caminham muito e há um sentido de comunidade e de propósito nos locais onde habitam. Rodeiam-se de pessoas em quem confiam. Há um motivo real de vida que não passa necessariamente por pensar em como vão pagar a hipoteca.  Muitas vezes o melhor propósito é aquele que implica ajudar as pessoas. Durante a pandemia vimos como a solidão, a separação e falta de contacto com os demais tiveram um efeito nefasto na saúde mental. Somos um animal social.

No seu livro escreve, com algum humor, que “a sua microbiota ajuda-o a engatar”. Porquê?

Porque, por exemplo, o nosso odor corporal depende, em parte, da nossa microbiota. Isso pode ser um elemento de atração. Quando alguém diz, “não sei porquê, mas aquela pessoa não me agrada”. O cérebro pode detetar essas substâncias que conscientemente não detetamos e moldar a nossa conduta.

Falando em odor corporal, a Sari Arponen escreve no seu livro que vivemos em ambientes higienizados e desinfetados. Lavamo-nos com muita frequência. Isso está a prejudicar-nos?  

Sim, porque antes pensava-se que todas as bactérias e microrganismos eram maus. Verdadeiramente, há muitos microrganismos bons. Se nos lavarmos frequentemente com gel, matamos a microbiota boa. Acresce que não ter contacto com a natureza, com outros animais, empobrece a microbiota, torna-a menos diversa. Em resumo, deveríamos ter mais contacto com a natureza e menos com a cidade.

Ou seja, a nossa sociedade não é amiga da microbiota…

As cidades não. Uma das coisas mais tóxicas é o pó que encontramos em casa, porque tem microplásticos e ácaros. No campo, a terra pode parecer-nos suja, mas prejudica-nos muito menos.

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créditos: Planeta

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créditos: Planeta

No livro apresenta-nos os 12 pilares da saúde. Mas, para os apresentar redefine aquilo que se entende por saúde e bem-estar. Como o descreve?

A Organização Mundial da Saúde define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”. Mas, numa definição mais fisiológica, biológica e também psicológica, devemos entender a saúde como flexibilidade mental, imunológica e metabólica suficiente, o que nos permite responder, a cada momento, de forma adequada ao que nos causa desequilíbrio. Não posso comportar-me igual no trabalho, no trânsito ou em minha casa. Tenho de ter flexibilidade mental para me ajustar. O meu sistema imunitário também tem de responder de acordo com a primavera, em que há muito pólen e o inverno, quando há muitos vírus. Se não funcionar bem, temos alergias na primavera e constipamo-nos no inverno. Acresce que deveríamos ter flexibilidade metabólica. Ou seja, deveríamos ser capazes de ter energia suficiente sem estarmos continuamente a comer. Muitas pessoas têm de comer cinco vezes ao dia, todos os dias, não aguentam estar mais de oito a dez horas sem comer. Como espécie, na maior parte da nossa história não tivemos comida cinco vezes por dia.

Voltemos à microbiota da boca. É particularmente importante a saúde oral…

Sim. Em Espanha, muita gente não tem disponibilidade económica para ir ao dentista. Muitas pessoas, após os 40 anos, têm muito má saúde oral, com gengivites ou doenças periodontais e, com isso, alteração da microbiota da boca. É muito importante ir ao dentista. É um problema gravíssimo. As doenças periodontais, estão relacionadas com problemas cardíacos e diabetes, inclusivamente com impacto em cancros. Estima-se que, anualmente, os problemas decorrentes da má saúde periodontal ascendam aos 25 mil milhões de euros.

Por vezes, saem notícias em que se refere que a depressão provém da microbiota. Bem, numa pessoa deprimida é muitas vezes difícil saber se a microbiota está mal por o individuo ter depressão ou vice-versa.

Refere que a microbiota constitui uma parte importantíssima do eixo intestino-cérebro. Segue a máxima “cuide do seu intestino para mimar o seu cérebro”. Porquê?

Porque há uma relação bidirecional entre o cérebro e o intestino. Uma via muito importante é o nervo vago que troca informação entre os dois órgãos. Se alguém tiver uma má microbiota, o cérebro vai “perceber” e pode favorecer a depressão, ansiedade e mesmo a demência. Se estiver deprimido, ansioso ou com stress crónico, pode ter transtornos digestivos. A microbiota intestinal fabrica substâncias que podem chegar ao cérebro. Há quem defenda que a serotonina provém do intestino, mas essa não entra no cérebro. Por vezes, saem notícias em que se refere que a depressão provém da microbiota. Bem, numa pessoa deprimida é muitas vezes difícil saber se a microbiota está mal por o individuo ter depressão ou vice-versa.

No seu livro fala-nos de uma epidemia silenciosa, a SIBO (Síndrome do Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado). Do que se trata?

Temos bactérias em todo o corpo e também no intestino delgado. Aí, tem de haver menos do que no intestino grosso, o cólon. Por vezes, temos demasiadas bactérias más no intestino delgado. Sucede que alimentos que normalmente fermentariam no cólon, fermentam no intestino delgado, não os absorvemos bem, produz-se excesso de gás. Essas pessoas passam mal quando ingerem, por exemplo, alimentos saudáveis como fruta e legumes. Não é a comida saudável que lhes está a fazer mal, há outra causa. Antes há que solucionar o problema que pode ser, por exemplo, o stress.

As frequências dos telemóveis e do wi-fi têm influência nefasta na microbiota? Pergunto-lhe porque refere esta questão no seu livro.

Alguns estudos dão-nos indícios de que bactérias más, como a Listeria ou as estirpes patogénicas da E. coli, proliferam com maior facilidade sob determinadas frequência wi-fi e que as mesmas frequências têm um impacto negativo nas bifidobactérias, nossas amigas. Ter continuamente essas radiações prejudicará a nossa microbiota? Talvez, mas são questões muito difíceis de investigar. Também não vale a pena ficarmos obcecados, porque temos de usar as ferramentas eletrónicas. É claro que é de bom senso não usar os aparelhos eletrónicos fora do ambiente de trabalho. Deixemos o tempo de lazer para desligarmos. Vivemos um tempo de grande adição, por exemplo, às redes sociais e não se prende com as radiações. Há que repensar, sim, a nossa relação com a tecnologia.

Está ligada à fundação do Slow Medicine Institute. O que faz esta instituição?

O Slow Medicine Institute foi fundado por três médicas com o objetivo de praticar uma medicina mais humana, mais centrada no paciente, nas suas preferências e valores. A principal ferramenta do médico é a atenção. Hoje, parece que a tecnologia e os medicamentos são mais importantes do que dedicar tempo ao paciente, saber o que a pessoa sente e quer. Há pouca prevenção na saúde. Queremos expandir a mensagem de que há que dedicar mais tempo às pessoas. Temos um podcast que é dos mais escutados na área da saúde em Espanha.

É autora do livro Retrato de Una Sindemia en 3 Actos. Que atos são estes?

Sim, o livro sobre a COVID-19. O primeiro ato explica, a partir da medicina evolutiva, porque temos hoje tantas doenças, das alergias, ao cancro, às demências e relaciono-o com o estilo de vida. O segundo ato prende-se com o tempo que passei no IFEMA, a Feira de Madrid, que serviu para acolher 1500 doentes com COVID-19 e conto a minha experiência durante o combate à pandemia. O terceiro ato faz-se com os testemunhos de 50 pessoas, médicos, enfermeiros e o comum cidadão, que viveram as primeiras semanas da COVID-19. Hoje, olho para esse livro que autopubliquei e vejo-o quase como um pesadelo do passado.

Fonte: Lifestyle Sapo

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