Metade dos médicos em exaustão. Jovens são os que mais sofrem

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Clínicos sentem-se pouco realizados e cansados. 25% apresenta sinais de depressão e 16% trabalha 60 a 80 horas semanais

António fala a espaços para organizar as ideias. Têm 43 anos e é médico de família num centro de saúde da zona centro do país. Não tem bem a certeza quando percebeu que tinha chegado ao limite – “foi há dois ou três meses, depois de um ano e meio a dois a sentir um cansaço maior que o habitual, uma grande pressão” -, mas sabe bem o que o levou a cair numa depressão que o obrigou a ficar de baixa. Metade dos médicos está em exaustão emocional ou em burnout e um quarto apresenta sinais de depressão. E são os clínicos mais jovens, entre os 26 e 35 anos, que mais sentem os efeitos do burnout.

Os resultados fazem parte de um inquérito realizado, durante 2015, pela secção centro da Ordem dos Médicos, que resulta de uma amostra de 20% dos 8042 médicos inscritos na região, a quem foram enviados questionários online que só podiam ser respondidos uma vez. Segundo os dados, 40.5% dos inquiridos apresentam elevado nível de exaustão emocional (fadiga, perda de energia) e 7.4% está em burnout (além da exaustão emocional, é também o sentimento de despersonalização e falta de realização profissional). A isto juntam-se também níveis elevados de depressão, stress e ansiedade. Perto de 15% dos médicos disse que é ou já foi acompanhado em consultas de psiquiatria e 11.2% é ou já foi acompanhado em consultas de psicologia clínica.

O retrato permitiu ainda perceber que a maioria dos médicos trabalha em exclusivo para o SNS e são estes que apresentam níveis maiores de exaustão emocional e menos realização profissional, 53,2% faz entre 40 a 60 horas semanais e 15,9% entre as 60 e as 80 horas por semana. Mais de metade (60%) faz urgências e 44% trabalho noturno. O estudo refere que são os médicos mais novos, sobretudo entre as 26 e os 35 anos, que mais sofrem de burnout, que quem trabalha de noite apresenta maior exaustão emocional e despersonalização e menos realização profissional e as mulheres estão mais exaustas e menos realizadas. Os que sentem menos os efeitos são os médicos mais velhos, com filhos e com cargos de gestão.

“Estes dados são muito preocupantes, mas não surpreendem”, afirma Carlos Cortes, presidente da secção centro da Ordem dos Médicos. O estudo faz parte de um projeto maior, iniciado há dois anos, com a criação de um gabinete de apoio ao médico e sensibilização para a violência sobre profissionais. “Os médicos que trabalham entre 60 a 80 horas semanais estão mais suscetíveis de sofrer de burnout, tal como os que fazem horário noturno. Também os mais novos sentem mais os efeitos, pelo excesso de trabalho e pela pressão que é colocada sobre eles em número de consultas e cirurgias, desprezando muitas vezes a qualidade. Ainda não têm estrutura e uma rede de pessoas que os ajude a ultrapassar a situação”, destaca, salientando que face aos dados, mais médicos deveriam recorrer a consultas de psiquiatria.

Horas a mais e muita pressão

António (o nome é fictício porque pediu para não ser identificado) sabe o que levou à situação extrema de procura ajuda num psiquiatra e a estar de baixa. “É o número de horas excessivo, imposição de horas extraordinárias que não queria fazer, trabalhar dois a três fins de semana por mês, entrar às 8.00 e sair às 20.00 muitas vezes com cinco a dez minutos de almoço, pressão do tempo para ver os doentes, a falta de médicos e a relação entre colegas”, explica.

Nos últimos anos as condições degradaram-se e também foi alvo de violência verbal de doentes, muitos deles da consulta aberta (dada a doentes que não têm médico de família). “Cria pressão, medo. Nunca sabemos o que vamos ter pela frente. Percebi que estava no meu limite quando vi que tinha de reler duas a três o contexto da observação e a medicação para ver se estava a perceber tudo de forma correta”, diz. Ainda está longe de se sentir a 100%. Mas sabe o que gostaria de ver mudar para que ele e outros médicos se pudessem sentir capazes. “Mais organização, contratação de mais pessoal, redução de horário e mais formação”, aponta António.

“Se o médico estiver bem no seu local de trabalho, tem melhor condições para ter um bom desempenho e o doente fica a beneficiar. O Ministério da Saúde tem reconhecido nas últimas semanas que há um problema de desorganização no SNS. A pressão e a falta de organização potenciam a exaustão emocional e física. Há falta de recursos humanos e tecnológicos que impedem os médicos de usar de forma fácil os seus conhecimentos para cuidar dos doentes. Este não é um problema isolado dos médicos. Queremos criar mecanismos para minimizar o burnout”, afirma Carlos Cortes. Os resultados do inquérito vão ser enviados ao ministério, à Direção-Geral da Saúde e às instituições da zona centro para que tenham noção do impacto do problema. Serão também partilhados com outras ordens profissionais e associações ligadas à saúde.

Fonte: DN

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