Ser enfermeira durante a pandemia: “Paciência passou de 90% para 10%”

4 min de leitura

(dr) Ângela Pereira

Ângela Pereira é enfermeira nos cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto. Tem 25 anos e, até agora, mais de metade do seu percurso na enfermagem foi preenchido pelo coronavírus. “Naqueles dias em que dói, dói mesmo a sério”, mas não abandonaria o seu posto agora.

ZAP – Porquê ser enfermeira?
Ângela – Desde o meu secundário que sei que ia entrar no mundo da saúde. Mas sabia que não queria seguir medicina porque ser médica seria demasiado para mim, ser médica é demasiado do que nós somos. E eu queria ser mais coisas. Escolhi enfermagem e não estou arrependida. Não sei se vou fazer isto para sempre, ainda por cima por causa do que temos passado nos últimos tempos, que retirou muito de nós. E eu não quero que a minha profissão tire demasiado de mim.

ZAP – Como chegaste aos cuidados intensivos?
Ângela – Sempre me interessei pela medicina intensiva. Quando comecei a tirar a especialidade, há dois anos, um dos sítios que escolhi para estagiar foi o hospital onde trabalho, o São João, os cuidados intensivos; e gostei muito de estar aqui, achei muito interessantes a área e o serviço. Ironicamente, mais tarde abriu um concurso e as duas coisas juntaram-se.

“Sou enfermeira há três anos. Trabalho há um ano e pouco em cuidados intensivos e mais de metade desse tempo trabalhei em plena pandemia. Ser enfermeira é mais ou menos como ter uma relação amorosa com o trabalho. O problema é que cada dia em que temos de exercer em pandemia representa meses de desgaste. Em cada dia que sou sujeita ao cenário de guerra que se vive nos hospitais, o meu amor diminui um bocadinho mais. Porque esta relação começa a não ser justa. A tirar demasiado de mim. Ela tira-nos tempo com os nossos pais e nós damos tempo a outras famílias. Ela tira-nos a saúde mental e nos damos o corpo e a saúde física também. Ela tira-nos horas de descanso e nos ainda lhe damos o prazer de nos tirar o sono (ou porque estávamos com os horários todos trocados ou porque estávamos ocupados a chorar)… Se somos nós que damos tudo o que temos, mais tarde ou mais cedo não sobra nada. E o pior é que continuam sempre a pedir mais. Eu adoro o que faço. Quem me conhece sabe disso. Não há outra área que eu goste tanto e não me imaginava a fazer outra coisa tão cedo. Mas a verdade é que não sei durante quanto tempo vou conseguir manter esta relação saudável. Porque ela passou por um ano verdadeiramente atribulado e eu saí muito magoada. E quando nos magoam tanto, é difícil esquecer.”
– Ângela Pereira

ZAP – É inevitável falarmos do que é ser enfermeira nos cuidados intensivos durante uma pandemia. Este texto que escreveste resume um bocadinho do que tem sido os últimos tempos?
Ângela – Não resume um bocadinho. Resume na perfeição. Isto é uma relação tóxica: gostamos mesmo muito disto, é uma relação em que há muitos momentos bons, felizes, mas tira-nos muito. E este ano foi pior ainda. Tudo que nos tiravam um bocadinho foi exacerbado. Cansaço acumulado todos os dias, pressão acumulada todos os dias, viver isto 24 sobre 24 horas. Tu estás a trabalhar, estás a pensar na pandemia, no covid, nos doentes péssimos que tens, nas horas de trabalho e de cansaço acumuladas; vens para casa, sabes que as pessoas estão fechadas e cansadas em casa, a perder negócios, a perder isto e aquilo. Não tens descanso disto. A preocupação é constante: ou por causa dos doentes, ou por causa do serviço, ou por causa da economia…

ZAP – O que te alegra no dia-a-dia?
Ângela – Alegra-me saber que vou gostar do que estou a fazer, os meus colegas alegram-me, alegra-me saber que estamos a fazer a diferença na vida de alguém. Para mim, era suficiente saber que vou trabalhar no que gosto. Mas às vezes a balança pende para o lado negativo.

ZAP – Notas que há diferença na saúde mental das enfermeiras e dos enfermeiros antes de março do ano passado e depois de março?
Ângela – Sem dúvida nenhuma. Ainda nesta semana falei muito com colegas sobre isso: estamos todos no limiar de exaustão, de paciência. Estamos todos a chegar ao nosso limite. A nossa paciência estava a 90 por cento quando isto começou e agora está a 10 por cento; sempre que acontece alguma coisa no serviço, sempre que somos colocados sob maior pressão, a paciência diminui ainda mais e temos que fazer um esforço muito grande para não descarregarmos uns nos outros. Temos que lidar uns com os outros durante muitas horas seguidas, somos muitos e somos muito diferentes. É difícil, mesmo muito difícil. E está a notar-se cada vez mais essa diferença na saúde mental. Todos os dias piora um bocadinho, há maior cansaço, há maior exaustão e menor capacidade de encaixe. Só que o problema é que o meu colega está assim mas eu também estou assim e o outro colega também está assim. Não há a possibilidade de pensar “o meu colega está cansado, eu dou-lhe um desconto”. É que também têm de me dar um desconto, estou como ele.

ZAP – As pessoas que estão fora de um hospital conseguem fazer alguma coisa para suavizar esse estado mental dos enfermeiros?
Ângela – Conseguem: não nos chamarem ladrões, não dizerem que pedimos mais do que aquilo que merecemos… Mas sobretudo cumprir o que é exigido a todos. E não acharem que nós temos de dar tudo que temos e mais alguma coisa, só porque somos enfermeiros e já sabíamos para o que íamos. É óbvio que já sabia para o que ia quando escolhi ser enfermeira; mas ser enfermeira é uma profissão, não é a minha vida toda. Não tenho que me “matar” só por ser enfermeira. Não tenho de dar mais de mim quando o meu dia de trabalho acaba.

ZAP – O que te falta para teres uma vida boa?
Ângela – Falta-nos estabilidade. Dou o exemplo do meu serviço, no hospital: não estamos na pior fase mas nunca sabemos o dia de amanhã. Vens embora e pensas “hoje até estou mais ou menos mas, se calhar, amanhã vou trabalhar e aquilo vai estar a arder”. Nunca estás descansada, nunca podes pensar que a vida está a voltar ao normal.

ZAP – Durante a preparação para ser enfermeira, em algum momento aprendem a lidar com a morte?
Ângela – Sim, teoricamente, num PowerPoint com meia dúzia de frases. Aprender verdadeiramente, não.

ZAP – Mais de metade do teu percurso enquanto enfermeira foi passado em época de pandemia. Mesmo assim, não abandonavas o teu posto?
Ângela – Não, por nada. Porque sei que estou a ser necessária. Não conseguia sair. Não me vejo tão cedo a abandonar esta profissão porque ainda gosto demasiado disto. Mas, cada vez mais, penso se serei capaz de fazer isto para sempre. Porque naqueles dias em que dói, dói mesmo a sério.

ZAP – O que gostavas que as pessoas soubessem sobre as enfermeiras e que ainda não sabem?
Ângela – Gostava de que não se esquecessem de que nós também somos gente. Às vezes tratam-nos como se fossem máquinas: há uma tarefa para cumprir e essa tarefa tem de ser cumprida! Às vezes conseguimos cumprir, outras vezes não conseguimos. Não somos máquinas.

Ouvir a entrevista conjunta com Lisandra Rodrigues:

Nuno Teixeira Nuno Teixeira, ZAP //

Fonte: ZAP

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