Atualidade

O estudante de Enfermagem e a construção da identidade profissional

Miguel Nunes Serra
Professor Adjunto
Escola Superior de Enfermagem de Lisboa

A construção da identidade profissional, constitui-se como um processo amplo e que se desenvolve ao longo de toda a vida dos indivíduos, começando ainda antes da frequência da formação inicial pela construção de representações da profissão, decorrentes da trajectória de existência de cada indivíduo. Este processo, que se há de prolongar posteriormente intensifica-se e complexifica-se substancialmente ao longo do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE), não se cingindo aos contextos e tempos formais de aprendizagem, mas resultando da experiência de vida de cada estudante. Desta forma, factores como as representações sociais sobre a profissão e a imagem que os próprios profissionais constroem e projectam de si mesmos são importantes, a par das opções estratégicas de cada indivíduo, na escolha do CLE.

Na análise dos processos subjacentes à construção da identidade profissional pelos futuros enfermeiros, torna-se fundamental compreender o impacto da origem dual (médica e conventual) da profissão, tendo esta sido uma atividade historicamente construída através da execução de tarefas exogenamente determinadas, cenário este que foi gradualmente mudando desde as últimas décadas do séc. XX em direção a uma profissão socialmente valorizada, auto regulada e cuja formação inicial está solidamente ancorada no Ensino Superior.

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Como qualquer outra profissão, a enfermagem é significativamente influenciada pela sociedade que serve e em que se insere. O contexto social modela as atitudes da sociedade face aos enfermeiros e influencia também os indivíduos que optam pela profissão de enfermagem. Assim, os estudantes de enfermagem são afectados pela imagem da enfermagem reflectida pelos media, e pela experiência de vida que têm em meios em que existem enfermeiros e na eventual relação com os próprios enfermeiros.

Vários estudos realizados com estudantes de enfermagem relevam o facto de a opção pela frequência do curso estar fundamentalmente relacionada com o desejo de realizar uma carreira profissional, que possa dar resposta a uma “vocação assistencial” relacionada com a ajuda ou o cuidado a outros, e o gosto pelas relações humanas ainda que, aparentemente de uma forma contraditória, as suas escolhas profissionais iniciais se centrem habitualmente nos locais de prestação de cuidados onde domina o primado da tecnologia.

A par da atitude de natureza altruísta inerente à prestação de ajuda, constata-se também por parte dos futuros profissionais em enfermagem, a procura de uma atividade dinâmica e diferenciada, que proporcione recompensas pessoais e profissionais. A par destas motivações, os potenciais estudantes antecipam o facto de a enfermagem proporcionar uma ampla experiência de diversidade de contextos profissionais e áreas de atuação, sem, no entanto, ter de mudar de carreira.

Em estudos que pretendiam entender as atitudes de um grupo de estudantes de enfermagem, relativamente aos estereótipos de género e da enfermagem contatou-se que as suas representações identificavam a existência de estereótipos próximos daqueles elencados na literatura, nomeadamente a ideia da enfermeira como “anjo”, “ajudante”, “machado de guerra”, ou “objeto sexual”. Os estudantes sentiam igualmente que estas imagens desagradáveis e distorcidas da profissão conduziam a uma diminuição da sua credibilidade face ao público em geral, auto atribuindo-se a tarefa de melhorar a imagem social da profissão.

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A investigação sobre os processos de socialização dos estudantes tem também demonstrado que a sua identidade profissional vai sofrendo transformações ao longo do curso. Assim, no início da formação predomina uma imagem da profissão algo idealista, em alguns casos mesmo idílica, revelando uma imagem marcada da enfermeira apaixonada pelo seu trabalho, centrada no outro, dedicada e benevolente, que passa a coexistir nas últimas fases do curso com elementos mais realistas ao se aperceberem dos constrangimentos que a vida profissional lhes vai impor.

Não obstante haver, atualmente, produção relevante de conhecimento sobre os processos de socialização de estudantes nas áreas das Ciências da Saúde em geral e da Enfermagem em particular, aponta-se como área potencial de desenvolvimento da investigação o estudo comparativo dos processos de socialização dos indivíduos nos períodos de formação inicial, nas diversas disciplinas nas ciências da Saúde. Seria bastante interessante perceber que semelhanças, diferenças ou especificidades existem entre os diversos processos formativos dos profissionais nas diferentes profissões no domínio da prestação de cuidados de saúde. Tal conhecimento, em última análise, poderia fortalecer uma identidade comum, que não colocaria em causa as respetivas idiossincrasias, mas que se poderia traduzir na prestação de cuidados de maior qualidade e mais centrados no utente.

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