Solidariedade Precisa-se (*)

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Portugal atravessa uma grave, mas silenciosa, revolução social e económica. Fizeram-nos crer, com sucesso, que somos responsáveis por uma dívida gigantesca que foi contraída maioritariamente por privados. Usando essa justificação, diminuiram os salários, as reformas, aumentaram as horas de trabalho e o desemprego. Cada família tem menos rendimento disponível, a economia está parada e os níveis de pobreza aumentam assustadoramente. Co-responsáveis por estas transformações estão ideologias baseadas no Neoliberalismo e na Austeridade, comprovadamente fracassadas (com provas de há 30 anos para cá). A tendência é e será, a transformação de direitos adquiridos em encargos suportados pelas famílias e indivíduos. Estamos a chegar a uma situação em que quem tem acesso à educação, saúde e alimentação de qualidade é quem tem dinheiro para pagar por isso.

Nesse âmbito, a Saúde como bem público está a ser alvo de uma destruição sem precedentes: fecham hospitais, não existem profissionais de saúde suficientes em cada instituição, consultas têm uma espera de dois anos e cuidados domiciliários são quase inexistentes. A Enfermagem tem sido particularmente afectada por estas transformações: como incorpora o maior número de efectivos dos Serviços de Saúde, é sempre um “alvo” apetecível para cortar, redimensionar, restruturar, etc etc etc. Consequentemente, observamos enfermeiros a trabalhar até à exaustão física e mental, à escassez e ausência de cuidados de Enfermagem necessários, à morte e dano permanente em utentes que nem se apercebem que o foram por falta de cuidados de Enfermagem. No meio do reboliço dos seus Serviços, muitos enfermeiros esquecem que as pressões que sofrem decorrem de alterações sociais profundas, motivadas por ideologias políticas que não servem o cidadão comum, pelo contrário, servem-se desse mesmo cidadão.

Compreender estas dinâmicas é um processo fundamental para perceber como poderemos responder enquanto enfermeiros, profissionais mandatados pela sociedade para proteger a Vida, promover a Saúde e garantir o Bem-Estar das comunidades. Como podemos responder a alterações tão profundas que ultrapassam conselhos de administração, ARS’s, governos nacionais e políticas europeias?
A palavra-chave é SOLIDARIEDADE. Exactamente. Numa sociedade que cada vez mais apela ao nosso egoísmo – defender apenas os nossos interesses e alcançarmos o nosso conforto – e ao individualismo – afastando-nos e isolando-nos e, por isso, retirando-nos força – torna-se difícil implementar mudanças sozinho. Por mais que queiramos agir sozinhos, é a UNIÃO que faz a força. A esse propósito, e pensando na Enfermagem, proponho 5 formas de solidariedade que urge serem assumidas por TODOS OS ENFERMEIROS.

A solidariedade ENTRE organizações da profissão – Será que ainda não aprendemos? Existe uma profissão de Saúde em que, invariavelmente, as questões são defendidas com unhas e dentes por Sindicatos, Ordem e Associações Profissionais em consenso! Não estará na altura de parar com as provocações de parte a parte em redes sociais (e outros “espaços) e construir uma plataforma de entendimento, demonstrando presença física e mediática das Associações da Profissão na defesa de TODAS as matérias que dizem respeito à Profissão?

Solidariedade entre as mesmas organizações de vários países diferentes – Será que os enfermeiros da Finlândia sabem o que se passa com os portugueses? E que os enfermeiros franceses enviam mensagens de apoio e solidariedade para connosco? Será que os enfermeiros italianos participam em ações mediáticas de Enfermagem em Portugal? Existe algum tipo de ação conjunta de Enfermeiros de toda a Europa? A análise do caso dos Estivadores, ensinou-me uma excelente Historiadora Portuguesa, é meio caminho andado para aprender a aplicar essa Solidariedade e de como, aplicando-a, se atingem resultados favoráveis.

A solidariedade entre os níveis de hierarquia da Profissão – Um enfermeiro não necessita de Líderes? Os Líderes podem liderar sem enfermeiros? Os Líderes registam presença assídua nas manifestações dos problemas da profissão? Os enfermeiros apoiam os líderes dentro das Instituições? A solidariedade dentro das Instituições é fundamental e a sua generalização marcará o desenvolvimento positivo da Enfermagem!

A solidariedade através da pertença a um grupo – uma associação de Oncologia, de Cuidados Intensivos, um Sindicato, um grupo de reflexão, a elaboração de um estudo que permita reforçar um dado argumento, todos eles são excelentes oportunidades de contribuir para a profissão. São os grupos que detêm a força, os meios, a capacidade de intervenção, será através deles que se fará o desenvolvimento da profissão! O que espera para se juntar a um deles e fazer as mudanças que tanto deseja?

Solidariedade para com as outras profissões e cidadãos – Esta é uma das mais importantes formas de solidariedade. Quem não se revolta ao ver que um Professor Primário fica responsável por 30 crianças em vez de 20? Será que vão aprender tão bem? O mesmo se aplica a uma dotação de oito doentes por Enfermeiro e não de quatro por um, será que os Professores compreendem as consequências desta diferença? Manifestar publicamente a nossa solidariedade para com as outras profissões e com cidadãos que atravessam momentos difíceis é meio caminho andado para uma sociedade mais desenvolvida: se eles melhoram, eu melhoro também. Assim, manifeste-se nas redes sociais, esteja presente nos eventos de outros profissionais, diga a alto e bom som que os apoia!

Havemos de lá chegar, assim que os enfermeiros compreenderem que não estão isolados, que podem gerar redes de apoio e troca de informação, que juntos vamos mais longe, que não há quem consiga ir contra 60 000 pessoas, que é apoiando os outros que recebemos apoio. O desafio é para todos, e é urgente. Solidários vivemos melhor, trabalhamos melhor, construimos o futuro!


(*) Encontre mais reflexões sobre coisas tão importantes como a sua Saúde, os contributos dos Enfermeiros e como dar voz às suas ideias no Livro “Se a Enfermagem Falasse…”, disponível em www.comunicarenfermagem.com/publicacoes.html e emwww.facebook.com/seaenfermagemfalasse
Veja mais reflexões na Categoria “Se a Enfermagem Falasse…”

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