Conceitos Gerais de Ventilação Mecânica

0 1.061

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

A ventilação mecânica pode ser definida como: Todo o procedimento de respiração artificial que envolve uma máquina movimenta os gases para dentro e para fora dos pulmões gerando um gradiente de pressão entre as vias aéreas superiores e os alvéolos, introduzindo ar fresco e retirando ar saturado. Deste modo pode ajudar a substituir a função respiratória, melhorando a oxigenação e influenciando a mecânica pulmonar. É um suporte temporário até que a lesão ou alteração funcional se repare e recupere.

A decisão de iniciar ventilação mecânica baseia-se na maioria das vezes em critérios clínicos (fadiga/exaustão óbvias, paragem respiratória eminente, incapacidade de ventilação, etc.). O início da ventilação não deve ser retardado para aferição de parâmetros mecânicos ou gasimétricos indiciadores da necessidade de ventilação.

A ventilação mecânica é feita através do uso de pressão positiva nas vias aéreas que envolve 4 fases:

1. Fase Inspiratória – o ventilador insufla os pulmões do doente vencendo a compliance pulmonar. No final desta fase pode utilizar-se um recursos denominado pausa inspiratória para melhorar as trocas gasosas.

 2. Mudança da Fase Inspiratória para a Fase Expiratória Ciclagem por Pressão, Volume, Fluxo ou Tempo – também denominada por fase de ciclagem do ventilador, ocorre a interrupção da fase inspiratória e dá-se inicio à fase expiratória.

3. Fase Expiratória – de forma passiva, o ventilador permite a saída do ar dos pulmões, mantendo um pequeno volume residual, garantindo uma pressão positiva no fim da expiração, permitindo aumentar a capacidade residual dos álveolos, denominando esta pressão por PEEP. Este recurso impede o colapso alveolar e favorece a oxigenação dos tecidos.

 4. Mudança da Fase Expiratória para a Fase Inspiratória Ciclo respiratório disparado por Tempo, Pressão ou Fluxo – o ventilador interrompe a fase expiratória e permite o início da fase inspiratória do novo ciclo. Esta mudança ocorre de acordo com a frequência respiratória programada. Se o doente tiver estímulo ventilatório, a nova fase inspiratória inicia-se quando o ventilador deteta o esforço inspiratório do doente (trigger – sensibilidade) dando inicio a um novo ciclo respiratório. Quanto maior essa sensibilidade, menor o esforço do doente, pode ser programado por pressão ou volume.

Parâmetros Ventilatórios

  • FREQUÊNCIA RESPIRATÓRIA – número de respirações madatórias controladas (ciclos p/min – fisiologicamente 14 ciclos p/min)
  • TEMPO INSPIRATÓRIO – tempo que leva a inspiração a completar, cerca de 1/3 do ciclo respiratório
  • RELAÇÃO I:E – relação entre o tempo de inspiração e o tempo de expiração (na ventilação expontânea – 1:2 durante 1 segundo; 33% do tempo para a Inspiração e 66% para a Expiração)
  • VOLUME: Quantidade de gás posta à disposição pelo ventilador (Vol min = l/min) • Volume corrente – representa o volume por respiração • Volume minuto – representa o volume por minuto = FR x VC (VC – 7 a 10 ml/kg)
  • PRESSÃO – Medida de resistência ao fluxo de gás no circuito do ventilador/doente. Expressa em cmH2O. 1 cmH2O = 1,36 mmHg; • 7,5 mmHg = 1 kPA • Entre 32 a 35 cmH2O na ventilação expontânea
  • PRESSÃO CONTROLADA SUPERIOR À PEEP – nível de pressão inspiratória em cada respiração na pressão controlada (cmH2O)
  • PRESSÃO ASSISTIDA SUPERIOR À PEEP – nível de pressão assistida inspiratória para respirações desencadeadas pelo doente  em PA.
  • PAUSA INSPIRATÓRIA – tempo necessário para atingir o fluxo ou pressões inspiratórias máximas no início de cada respiração. É medido em % da duração do ciclo respiratório ou em segundos.
  • FLUXO – Medida de velocidade a que o volume de gás é insuflado no doente. Expressa em L/seg ou L/min
  • PEEP – Aplicação de uma pressão postiva, constante, no final de expiração.Variação entre 4 a 5 mmHg. Melhora a difusão de O2 e previne actelectasias, aumentando a capacidade residual funcional.
  • TRIGGER – Sensibilidade para reconhecer o esforço do doente para disparar uma nova inspiração assistida pelo ventilador • Disparo a pressão: o ventilador deteta a pressão negativa desencadeada pelo esforço do doente. Pode ser programada entre -20cmH2O (esforço máximo) e 0 cmH2O (esforço nulo). • Disparo a fluxo: o ventilador deteta os desvios de fluxo contínuo que é causado pelo esforço de inspiração do doente. Pode ser programado de 0 – 100%. • Tempo limite de trigger – tempo máximo permitido de apneia antes do ventilador alterar de uma modalidade automode para uma modalidade controlada. • Auto-trigger – quando a sensibilidade do trigger está programada para valores muito altos, a inspiração é iniciada pelo ventilador ao invés do doente.
  • FiO2 – Conteúdo de oxigénio na mistura gasosa administrado ao doente. Deve ser mantida no minimo para a prevenção da toxicidade pelo O2. Fornecer o minimo para atingir PaO2> 60% e Sat.O2 > 90%.
  • PRESSÃO PICO – pressão existente no final na inspiração.
  • PRESSÃO MESETA – representa a pressão existente no final da pausa, correspondendo à pressão alveolar máxima nos pulmões.
  • PRESSÃO MÉDIA – valor médio da pressão no circuito.
  • TEMPO DE PAUSA – tempo de alimentação de fluxo ou pressão.
  • INTERRUPÇÃO DO CICLO DE INSPIRAÇÃO – fração do fluxo máximo na qual a inspiração deve mudar para a expiração.

Modalidades de Ventilação Mecânica

Cada doente ventila-se da maneira que forpossível e da maneira como se deixa ventilar. Não existe uma modalidade previamente definida esta deve ser escolhida atendendo às especificidades do doente. Existem alguns princípios básicos a respeitar:

  • a pressão máxima nas vias aéreas não deve ultrapassar os 35cmH2O e  a pressão plateau nos 30cmH2O;
  • o volume corrente deve situar-se entre os 6-8ml/Kg de peso;
  • A freq. respiratória do doente não deve ultrapassar os 26 ciclos por minuto – definir freq. entre os 12 e os 16-18 ciclos por minuto.
  • A FiO2 deve ser manipulada para que a sat.O2 seja superior a 90% – partindo de um valor que oscila entre os 40-50%.

As modalidades ventilatórias podem ser controladas e assistidas, estas últimas usadas quando o doente apresenta estímulo respiratório. As modalidades controladas são usadas em doentes sem estímulo respiratório, quer seja por doença ou pela perfusão de sedação.

VOLUME CONTROLADO (VC)

• Doente sem autonomia respiratória. O doente recebe um volume pré-programado de volume. O volume programado é sempre debitado, independentemente da pressão pulmonar existente, pelo que é necessário ter alarmes de aumento de pressão bem definidos, para detetar precocemente situações de aumento de pressão da via aérea (p.ex: por secreções), prevenindo o barotrauma.

• A mudança da fase inspiratória para a expiratória é ciclada por volume

• Programa-se o VC (7 a 10 ml/Kg) ou o VM

PRESSÃO CONTROLADA (PC)

 • Doente sem autonomia respiratória. O volume fornecido pelo ventilador vai depender da pressão controlada, da compliance pulmonar e da resistência do circuito das vias aéreas. O volume corrente pode variar e o fluxo inspiratório desacelera, durante a inspiração. A pressão controlada assegura que o nível de pressão inspiratória pré-programada seja mantido ao longo da inspiração. Evita pressões elevadas na via aérea.

 • Quando se pretende limitar as pressões inspiratórias máximas

 • Programa-se a PC (variável) até se atingir o VC desejado

PRESSÃO REGULADA E VOLUME CONTROLADO (PRVC)

• Doente sem autonomia respiratória • Regula a pressão nas vias aéreas

• O volume programado é regulado em função da pressão. O nível de pressão inspiratória é constante ao longo de cada respiração, mas adapta-se às características mecânicas do pulmão ventilado, com o objetivo de alcançar o volume pré-programado.

 • Previne o barotrauma.

SIMV (SIST. DE VENTILAÇÃO MANDATÓRIA INTERMITENTE)

 • O doente tem respiração espontânea

• Pode ser regulado por volume ou pressão

 • Aumenta o esforço respiratório do doentes

 • É combinado com PA

• Variação entre 5 a 14 de FR

VENTILAÇÃO ASSISTIDA (VA)

 • O doente tem respiração espontânea, pois inicia o ciclo respiratório e recebe apoio para esse esforço, com um volume corrente pré-programado.

 • É importante programar o tempo de apneia adequado ao doente pois se este for prolongado, o ventilador muda para uma modalidade controlada.

PRESSÃO ASSISTIDA (PA)

 • Doente com autonomia respiratória. Pode ser usada como modalidade de desmame ventilatório antes de se proceder à ventilação expontânea., pois à medida que o doente se torna mais independente a nível respiratório a pressão assistida vai sendo diminuída.

 • Assiste na Inspiração do doente, até à pressão programada (10 a 18 mmHg)

CPAP (“Continous Positive Airway Pressure”ou  pressão positiva contínua das vias aéreas)

 • Doente com autonomia respiratória

 • O ventilador garante uma pressão contínua positiva, com o objectivo de evitar colapso das vias aéreas

 • Aumenta a capacidade pulmonar e melhorar a oxigenação arterial

Através da ventilação mecânica pretende-se melhorar as trocas gasosas; atenuar a dificuldade respiratória; alterar as relações pressão-volume; permitir a reparação dos pulmões e vias aéreas e evitar complicações.

Existem, no entanto, sinais de dessincronia entre o ventilador e o doente, nomeadamente: polipneia, pressões pico das vias aéreas elevada, sudorese, hipertensão, taquicardia e dessaturação.

Complicações da ventilação mecânica:

Casos Particulares de ventilação mecânica:

  • Doentes DPOC
  • Doentes Asmáticos
  • Doentes com ARDS

RECRUTAMENTO ALVEOLAR

DESMAME VENTILATÓRIO

Consiste em separar o doente de uma modalidade de tratamento respiratório da qual se tornou dependente. Se a causa que provocou a insuficiência respiratória não está resolvida, não se deve iniciar desmame ventilatório.

PRINCÍPIOS GERAIS

• Os doentes com períodos curtos de ventilação por episódios agudos de insuficiência respiratória (eg. intoxicação medicamentosa) não necessitam habitualmente de desmame do ventilador.

• Os doentes com períodos prolongados de ventilação mecânica necessitam habitualmente de períodos prolongados de desmame. Este deve ser sempre iniciado no período diurno. Pode ser um momento gerador de ansiedade e de confiança no doente, sendo importante comunicar com o doente sempre no sentido de gerir os seus sentimentos.

Consulte também :

Índice de Desmame Ventilatório Ferrari-Tadini

Desmame Ventilatório- Cuidados de Enfermagem

 

MODALIDADES DE DESMAME:

– Tubo-T

• aplicar o tubo-T com FiO2 idêntico ao instituido no ventilador

• monitorizar a evolução clínica: o manter o doente em espontâneo enquanto se observar tolerância o se o doente mostrar sinais de fadiga, reconectar ao ventilador e iniciar nova tentativa após estabilização.

A extubação é efetuada quando o doente for capaz de manter espontaneamente um respiração adequada durante  um período não inferior a 2h.

– CPAP

 • ao gerar uma pressão positiva no final da inspiração espontânea, o doente controla a frequeância respiratória, o fluxo inspiratório e a relação entre a inspiração e a expiração. Com a criação da pressão positiva existe uma protecção dos alvéolos e do mesmo modo, diminui o trabalho dos musculos inspiratórios e o consumo de O2.

– Ventilação Mandatória Intermitente Sincronizada (SIMV) 

• mantendo o doente conetado ao ventilador, diminui de forma gradual o número de respirações mandatórias sincronizadas fornecidas pelo aparelho. Assim, o doente aumenta de forma gradual o número de respirações independentes.

– Suporte de Pressão ou Ajuda inspiratória (PSV)

• o doente permanece conectado ao ventilador e o nível de pressão positiva no fim da inspiração é reduzido de forma gradual, até o doente necessitar de assistência.  Reduz deste modo, a resistência ao fluxo das vias aéreas.

O desmame ventilatório tem sucesso quando o doente se mantém em ventilação espontânea durante 48h depois da desconexão. Se houver necessidade de reconectar ao ventilador ou se após 2 semanas de protocolo de desmame não é atingida a autonomia ventilatória considera-se que houve insucesso no desmame ventilatório.

Referências Bibliográficas:

  • URDEN et al (2008) – Thelan’s. Enfermagem de cuidados intensivos: diagnóstico e intervenção. 5ºed. Lisboa: Lusodidacta,1265 p.
  • MARCELINO, Paulo et al – Manual de Ventilação Mecânica no Adulto, Abordagem do doente crítico. Lisboa: Lucociência – Edições Técnicas e Científicas, Lda, 1ª ed, 2009. 256p. ISBN: 978-972-8930-42-4.

Gostaste deste artigo? Divulga-nos junto dos teus amigos e colegas! Ajuda-nos a Manter a PortalEnf. Clica aqui para saber mais!

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

Utilizamos cookies para personalizar conteúdo e anúncios, fornecer funcionalidades e analisar o nosso tráfego. Ao continuar a navegar, está a concordar com a sua utilização. Aceitar Ler mais

Share This Article:

close

Assina a nossa Newsletter!

Assina e recebe as últimas novidades da PortalEnf!

Obrigado por assinares. Se não receberes o mail de confirmação verifica a caixa de Spam!

Something went wrong.

O melhor da PortalEnf no teu Email...

Assina a nossa Newsletter e recebe todas as novidades da PortalEnf!

Obrigado por assinar. Vais receber um mail... verifica a caixa de Spam!

Something went wrong.

Conceitos Gerais de Ventilação Mecânica is highly popular post having 153 Facebook shares
Share with your friends
Powered by ESSB
Partilha isto com um amigo