Doentes oncológicos e COVID-19. As dúvidas mais comuns explicadas por um painel de especialistas

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“Há toda uma série de medidas, mais ou menos criativas, que podemos e devemos ter neste momento”, sublinha. Isto para que o doente oncológico em tratamento ativo tenha uma menor possibilidade de contágio e de contacto com o ambiente hospitalar”, justifica ainda o médico.

3. Os doentes oncológicos devem usar máscara?

“Se os profissionais de saúde aconselharem um doente oncológico em tratamento ativo a usar máscara na unidade de saúde, esta deve ser colocada, depois de ter sido feito um correto ensino do seu uso. Mas, fora da unidade de cuidados de saúde, desde que a pessoa não se desloque por meio de transporte coletivo, não está aconselhada a utilização da máscara”, indica o coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Lusíadas Lisboa, Paulo Cortes.

“A máscara não é tanto para proteção pessoal, por exemplo, para nos protegermos do coronavírus. Mas, sim, para proteger o outro. Por isso, está indicada para quem tem sintomas de tosse, congestão nasal e espirros. Embora esteja também recomendada para quem está a cuidar de um doente com a doença COVID-19. Deve ser impermeável e descartável, de uso único”, indica Hélder Novais e Bastos, médico pneumologista no Hospital de São João, no Porto.

4. As consultas agendadas devem ser feitas ou adiadas?

“Nós estamos numa crise, numa emergência. Por um lado, temos de confinar esta pandemia para não termos uma situação descontrolada. Por outro lado, temos de continuar a cuidar o melhor possível das pessoas que necessitam. Mas temos de adequar a nossa resposta. E adequar implica, por exemplo, nos doentes que estão em vigilância, sem tratamento ativo, em consultas de rotina fazer consultas de telemedicina”, refere Paulo Cortes.

“Acredito até que a maioria já está a fazê-lo. Portanto, esta é uma das possibilidades”, sublinha o especialista. “Outra possibilidade é o reagendamento das consultas, nomeadamente de seguimentos de longo prazo que podem ser reagendados para mais tarde, para conter a vinda das pessoas aos hospitais e a possibilidade de contágio”, refere ainda o médico, coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Lusíadas, em Lisboa.

5. Os tratamentos oncológicos podem continuar a ser feitos nesta fase de pandemia?

“Alguns tratamentos podem ser adequados para minimizar as vindas ao hospital, nomeadamente a imunoterapia, que em vez de se fazer de duas em duas semanas ou de três em três pode-se fazer de quatro ou de seis em seis semanas. Também no caso da quimioterapia podemos procurar uma alternativa com quimioterapia oral e, assim, o doente vem menos vezes ao hospital”, refere Hélder Novais e Bastos.

“Em termos de radioterapia, está-se a privilegiar os hipofracionamentos”, revela o médico pneumologista do Hospital de São João, no Porto. “Isto quer dizer que, quando possível, em vez de se fazer um tratamento que iria levar algumas semanas os radiologistas tentam fazer mais doses em menos sessões para minimizar as vindas do doente ao hospital”, indica ainda o especialista.

6. Quem tem cirurgia marcada deve manter ou cancelar a operação?

“Neste momento [fim de março de 2020], no Hospital de São João, as cirurgias oncológicas ainda não foram canceladas. Mas esta é uma situação que pode evoluir. O que é verdade hoje pode não ser verdade para a semana. E pode chegar um momento em que os hospitais vão, de repente, ficar cheios de doentes com COVID-19 e podem ser forçados a cancelar essas cirurgias”, adverte Hélder Novais e Bastos.

“Estes são tempos difíceis para toda a gente, mas particularmente para os doentes e os seus cuidadores. No entanto, isto é algo que vai passar. A maior parte dos infetados [pelo novo coronavírus] vão ter um percurso benigno. E para vencermos este desafio, e vamos vencê-lo, é uma questão de tempo, algumas consultas poderão ser adiadas agora, mas irão ser feitas depois”, garante o médico pneumologista do Hospital de São João.

7. Que outros cuidados especiais devem ter os doentes oncológicos face à COVID-19?

“As medidas que estão a ser propostas para doentes oncológicos são as mesmas que a Direção-Geral da Saúde recomenda para toda a população, como, por exemplo, a correta higienização das mãos e não levar as mãos à cara. Não está recomendado o uso de máscara ou luvas. Está, sim, recomendado o distanciamento social de um a dois metros”, recorda o médico pneumologista no Hospital de São João Hélder Novais e Bastos.

8. O que deve o doente oncológico fazer se tiver sintomas de COVID-19?

“Depende do local onde está a ser tratado. Há hospitais que estão preparados com uma linha direta ou doentes que têm o contacto direto do médico. Devem ligar e questionar o seu médico. Isto porque, por um lado, estes doentes têm normalmente outras doenças como bronquite crónica ou asma e acabam por ter maior predisposição para ter infeções respiratórias”, refere Hélder Novais e Bastos.

“Por outro lado, porque existe uma fase após os tratamentos em que a imunidade, as chamadas defesas do organismo, estão mais em baixo”, sublinha o médico. “A contagem de glóbulos brancos, que nos protegem contra as infeções, pode vir até níveis perigosos para a saúde com predisposição especial para uma infeção como a provocada pelo novo coronavírus ou outras”, acrescenta.

“Caso não seja possível falar com o seu médico, o doente deve então, tal como a população em geral, ligar para o SNS 24 [através do número de telefone 808 24 24 24]”, aconselha o especialista. “Os enfermeiros deste serviço estão altamente treinados para seguir um algoritmo e perceber se o doente precisa ou não de ser testado”, garante mesmo o médico pneumologista Hélder Novais e Bastos.

9. Como conciliar, a nível psicológico, o confinamento social com a necessidade de apoio emocional que os doentes oncológicos tanto precisam?

“Gostaríamos todos de estar num outro contexto. Mas a nossa primeira necessidade, neste momento, deve estar focada sobre aquilo que está a acontecer em todo o mundo e que traz uma responsabilidade a todos nós de cuidarmos uns dos outros nas nossas casas. Protegendo-nos e protegendo as nossas famílias. Dito isto, é muito importante reforçar as relações”, sublinha Maria Jesus Moura, diretora da Unidade de Psicologia do IPO Lisboa.

“Neste momento, não podemos abraçar as pessoas de quem mais gostamos. Mas podemos estar em contacto direto com elas por outros meios. Se, ultimamente as pessoas estavam muito mais interessadas em enviar mensagens de texto, neste momento, surge a necessidade de voltar a falar mais ao telefone, o que é bem mais agradável. Desta forma, as pessoas ficam mais próximas e podem exprimir muito melhor aquilo que estão a sentir”, aconselha.

10. À ansiedade provocada pela doença oncológica junta-se agora a ansiedade da pandemia. Como podem os doentes gerir este estado emocional?

“Há uma vulnerabilidade acrescida para os doentes oncológicos. Reconhecermos essa vulnerabilidade é importante para perceber que ela aumenta e que isso é natural. A ansiedade está presente no dia a dia do doente oncológico, desde o momento em que se confronta com o diagnóstico da doença. Portanto, agora, com o risco de uma infeção, é natural que as pessoas fiquem muito mais inquietas e também mais preocupadas”, compreende Maria Jesus Moura.

“Estar bem informado é a melhor ferramenta que temos para lidar com o medo. Por outro lado, uma informação que não é adequada vai aumentar a ansiedade e dificultar o processo de adaptação. Portanto, reforço a importância da procura de informação junto de fontes oficiais, como a Direção-Geral da Saúde, a Organização Mundial da Saúde e, no que diz respeito às questões da ansiedade, a Ordem dos Psicólogos Portugueses”, recomenda a especialista.

Existem várias formas de controlar a sintomatologia ansiosa. “Nem todas as pessoas necessitam do mesmo. O que é importante é irmos ao encontro daquilo que são as nossas necessidades e sermos criativos”, salienta Maria Jesus Moura, que dá alguns exemplos. As atividades podem ir desde “a visualização de um espaço de conforto” à prática de “exercício físico, de meditação ou de mindfulness guiado”. Encontra facilmente aulas e dicas nas redes sociais.

“Todos nós temos um espaço de conforto e segurança. Para algumas pessoas esse espaço pode estar associado à natureza, para outras pessoas pode ser a praia ou um ambiente mais tranquilo. A visualização desse espaço ajuda a controlar os pensamentos intrusivos, que, em situações de maior ansiedade, estão sucessivamente a tomar conta da cabeça das pessoas. E isso dá-nos tranquilidade”, assegura a diretora da Unidade de Psicologia do IPO Lisboa.

Fonte: Lifestyle Sapo

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