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José Carda – Secretário-Geral da SPH “O diagnóstico realizado numa fase precoce permite que as neoplasias hematológicas sejam melhor controladas”

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Em setembro, a Associação de Apoio aos Doentes com Leucemia e Linfoma, a Associação Portuguesa Contra a Leucemia, a Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas e a Sociedade Portuguesa de Hematologia ( SPH), lançaram, em parceria com a Janssen, a campanha Setembro Rubro, uma iniciativa de âmbito nacional cujo objetivo passou por sensibilizar para a literacia sobre os tumores hematológicos – vulgarmente conhecidos como cancros do sangue – o caráter silencioso da evolução destas doenças em muitos casos e a importância do diagnóstico atempado de patologias como o mieloma múltiplo. Em entrevista à HealthNews, o hematologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e Secretário-Geral da SPH, José Carda, reforça a importância crucial de detetar de forma precoce estas situações clínicas – com vista a melhorar o prognóstico dos doentes – e lembra que as estratégias terapêuticas direcionadas às neoplasias hematológicas aperfeiçoaram-se de modo significativo nas últimas décadas, concedendo esperança e qualidade de vida a muitos doentes. 

HealthNews – É vulgar ouvirmos falar da HTA como o assassino silencioso, ou de outras patologias nos mesmos moldes. Contudo, muitas das neoplasias hematológicas também podem desenvolver-se no indivíduo durante longos períodos de tempo sem sintomatologia. Que estratégias podem e devem os profissionais de saúde implementar para detetar de forma precoce estas doenças?

José Carda – A sintomatologia nos cancros do sangue, quando se apresenta, ocorre já quase sempre num quadro de doença disseminada, o que por si só pressupõe um prognóstico mais adverso. Muitas destas doenças manifestam-se em estadios iniciais através de sintomas muito inespecíficos e simuladores de outras doenças, como sejam a perda de peso, ou o cansaço. Sintomas que, aliás, o doente não valoriza numa fase inicial. Assim, a pessoa pode apresentar sinais ligeiros de doença ao longo de meses que vão sendo menorizados pela mesma ou pela família. 

O que devemos transmitir à população portuguesa é que perante sintomas que podem ser encarados, numa primeira análise, como incaracterísticos ou banais, devem recorrer a ajuda médica, se esses mesmos sinais persistirem no tempo.

Mas também é comum serem diagnosticados doentes sem qualquer sintoma?

Sim, também temos o espetro oposto, do grande grupo de doentes totalmente assintomáticos, que não raras vezes apresentam somente alterações nas análises. De facto, uma porção considerável de doentes chegam-nos devido a alterações analíticas detetadas em análises de rotina. Os casos de mieloma múltiplo são um exemplo clássico neste domínio, já que se tratam em muitas circunstâncias de indivíduos assintomáticos que fazem uma análise rotineira com um ou outro parâmetro específico para a avaliação de mieloma alterado que lança o alerta, conduzindo a um diagnóstico precoce. Esta é, inclusive, a situação ideal que todos procuramos, a de uma pessoa assintomática cuja doença é detetada logo em contexto de análises de rotina.

Que preponderância tem o mieloma múltiplo dentro das neoplasias hematológicas?

Para todos os efeitos, o mieloma múltiplo é uma doença rara e na totalidade dos cancros do sangue configura-se como um quadro clínico menos vulgar. Contudo, se em termos de casuística o mieloma múltiplo se pode considerar (felizmente) uma doença rara, não nos podemos esquecer que ocorre uma concentração de casos nos serviços clínicos de Hematologia a nível nacional, o que faz com que tenhamos um número muito importante destes doentes na esfera hematológica. A incidência estimada em Portugal, segundo o Grupo Português de Mieloma Múltiplo, é de 7,8 casos por 100 mil habitantes, o que calculamos em cerca de 780 novos casos por ano.  

Quer no caso do mieloma múltiplo, quer dos demais cancros do sangue, a deteção precoce é mesmo essencial para melhorar o prognóstico do doente, correto?

O diagnóstico realizado numa fase precoce permite que as neoplasias hematológicas sejam melhor controladas, se mantenham menos disseminadas e com menor carga de sintomas. É fundamental entender, ainda, que um doente que se apresente já muito debilitado e com disseminação ampla da doença vai ter não só um pior prognóstico, como uma capacidade inferior de tolerância aos tratamentos. Podemos até afirmar que as duas vertentes estão relacionadas. Na realidade, é importante precisamente que o doente possua uma boa capacidade vital e funcional para tolerar os tratamentos que possamos ter de realizar, sendo que esses mesmos tratamentos são moldados pela equipa de saúde de acordo com a fragilidade do doente.

Na sua opinião, há ainda muito trabalho a fazer no nosso país, quer ao nível da população em geral, quer dos profissionais de saúde, para aumentar a visibilidade e o conhecimento das neoplasias hematológicas, com vista a obter maiores níveis de vigilância e deteção precoces?

Sim, há um longo caminho ainda por percorrer e que se associa a todo o trabalho de literacia em saúde que devemos fazer junto da nossa população. Isto torna-se ainda mais relevante quando percebemos que as neoplasias hematológicas são habitualmente consideradas pela população em geral como incuráveis, intratáveis e de péssimo prognóstico, o que felizmente hoje em dia não corresponde à verdade, na maioria dos casos que acompanhamos. Em termos globais, somos no presente muito bem sucedidos com as estratégias curativas ou de estabilização da doença que oferecemos aos doentes.

Ou seja, parte significativa do nosso trabalho de sensibilização, enquanto profissionais de saúde, passa por desmistificar junto do doente e família que recebemos esta ideia de irreversibilidade e letalidade.

Ao nível da formação, da consciencialização pública e do trabalho cooperativo entre especialidades médicas, o que tem feito a SPH nos últimos anos, com vista a melhorar a sobrevida dos doentes?

Embora a SPH seja uma sociedade científica (que tem como tarefa essencial a educação da comunidade médica na componente hematológica e não tanto os esforços de esclarecimento da população em geral), a verdade é que, nesta circunstância, decidimos desenvolver uma aliança com três associações de doentes e familiares de doentes e com um player de referência da indústria, porque temos a plena consciência de que se conseguirmos aumentar o nível de awareness dos portugueses em relação às doenças hematológicas tal produzirá resultados benéficos na atividade futura dos próprios hematologistas. 

Suponho que para o sucesso do tratamento atempado e bem sucedido destes doentes muito contará a boa articulação entre, por um lado, as especialidades médicas generalistas e, por outro, a Hematologia e a Oncologia. Como estamos nesta dimensão e o que pode ser feito para aperfeiçoar estes laços? 

A missão de qualquer uma das sociedades médicas das especialidades que refere passa também por assegurar uma boa articulação clínica. Sabemos que a Medicina Geral e Familiar (MGF) e a Medicina Interna estão na base dos cuidados prestados ao doente – a primeira na comunidade e a segunda no hospital – e sabemos também que estas são as duas grandes especialidades de diagnóstico e, como tal, é para os hematologistas e oncologistas importante quer agilizar a referenciação, quer contribuir para a facilidade do diagnóstico, porque se o diagnóstico não for feito atempadamente, o doente chega-nos em estadios mais avançados e com pior estado geral. Assim, julgo que o objetivo de todas estas sociedades médicas é melhorar a interligação, com impacto no conhecimento mútuo e na partilha de formas de trabalhar. Trata-se de uma meta nem sempre fácil de concretizar, sobretudo nos tempos mais recentes de pandemia, já que muitos dos encontros presenciais durante os quais contactávamos foram cancelados ou adiados.

Todavia, a SPH quer retomar esta dinâmica de cooperação num futuro próximo e já estamos a restabelecer contactos para fortalecer a formação dirigida à MGF e à Medicina Interna. 

Como classificaria o atual panorama diagnóstico e terapêutico das neoplasias hematológicas no nosso país face, por exemplo, à realidade de há cinco ou dez anos atrás?  

Realizámos progressos significativos e arrisco-me a dizer que a Hematologia é uma especialidade muito afortunada no que respeita a inovações terapêuticas, nos últimos 20 a 25 anos, com claro benefício na melhoria de prognóstico e sobrevivência global dos doentes. Há a assinalar, desde logo, a introdução de fármacos bloqueadores da tirosina quinase, no final do século XX,  ou de anticorpos monoclonais como o já na primeira década do século XXI. Depois, nos últimos dez anos, registámos avanços  extraordinários, não só em termos do aprimorar de técnicas de diagnóstico e classificação, mas também nos tratamentos, já que têm surgido múltiplas classes terapêuticas úteis para a nossa atuação. Hoje em dia, um doente com mieloma múltiplo ou linfoma que estava limitado a apenas uma ou duas linhas terapêuticas de quimioterapia convencional para cumprir (e cuja doença seria difícil de gerir a longo prazo), pode usufruir de um conjunto de novas terapêuticas, desde a fase inicial da doença, que lhe melhoram as hipóteses de cura ou as hipóteses de controlo a longo prazo, quando a cura não é possível. Por outro lado, estes tratamentos em última instância mostram-se capazes de melhorar a sobrevivência global dos doentes com qualidade de vida associada. Todo este progresso terapêutico que envolve a Hematologia é inegável e multifacetado, abarcando áreas que vão desde a medicação convencional à imunoterapia ou à manipulação genética de linfócitos T. E aqui estamos a falar de opções terapêuticas concretas, disponíveis na prática real dos médicos e já utilizadas em Portugal, não de tratamentos circunscritos ao contexto de ensaios clínicos.

PR/HN/Rita Antunes

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