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Especialistas defendem que é preciso combater estigma sobre doentes obesos e cirurgia

“Numa sociedade modernizada como a nossa, o último preconceito ainda tolerado é o preconceito relativo à obesidade”, disse à agência Lusa o diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Obesidade do Centro Hospitalar e Universitário de S. João, no Porto.

Eduardo Lima da Costa observou que, “não só em Portugal, mas em todo o mundo ocidental se criticam atitudes discriminatórias, e muito bem, para os mais variados assuntos”, mas ainda se continua “a tolerar alguma discriminação” em relação a estes doentes.

“Há sempre aquele estigma que um doente obeso falhou alguma coisa na sua atitude e é uma forma muito redutora, muito simplista, e de todo verdade que seja um problema dependente em absoluto da pessoa, mas mesmo que fosse as pessoas têm o direito de o resolverem”, defendeu.

Esta posição é partilhada pelo vice-presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, António Albuquerque, afirmando que os obesos são “até muitas vezes estigmatizados pelos próprios profissionais de saúde que entendem que a obesidade não é uma doença”.

“Acham que bastava o doente fechar e quase culpabilizam o doente por ter obesidade”, lamentou o cirurgião.

Eduardo Lima Costa acrescentou, por seu turno, que esse estigma que é preciso combater se estende também à cirurgia.

“Ainda há alguma resistência de parte da nossa população e até de uma parte significativa dos clínicos para com as cirurgias para a obesidade”, que estão absolutamente solidificadas e não levantam dúvidas quanto à sua pertinência, ao seu sucesso e aos seus resultados.

Quando se começou a dedicar a esta área, António Albuquerque ouviu estes comentários por parte de colegas, mas disse que, após 15 anos de experiência, se sente “totalmente realizado”.

“É muito gratificante ver (…) um doente que pesava 150 quilos e que ficou a pesar 75 ou 80 para o resto da sua vida, que deixou de ter obesidade e as doenças associadas e ganham uma qualidade de vida que não tinham há muitos anos”, disse o cirurgião.

Marisa Oliveira Marques, 42 anos, já chegou a pesar 140 quilos, mas a cirurgia devolveu-lhe a qualidade de vida e a vontade de ajudar obesos que necessitem de cirurgia, o que a levou a criar a Associação Portuguesa dos Bariátricos (APOBARI).

Contou que quando engravidou aos 17 anos “não tinha um grande alicerce familiar” e a médica na altura disse-lhe que tinha de comer por dois. Foi quando começou a engordar e chegou aos 140 quilos depois de ser mãe.

“Tive de procurar ajuda. Não foi fácil, mas consegui. Coloquei uma banda gástrica, consegui ficar com 80 quilos, mas voltei e engordar (…). Tive de fazer outra intervenção, um ‘bypass’ gástrico, mas correu mal e estive quatro meses internada”.

Durante o internamento, a assistente social pensou que tinha “de fazer alguma coisa para tornar em algo positivo, o que aconteceu de negativo” e foi quando criou a APOBARI em 2015.

Com a pandemia, a associação registou uma procura muito grande de pessoas que querem ser operadas, disse, explicando que a APOBARI tem formas de ajudar a fazer a cirurgia de forma mais acessível e atempada porque trabalha com os vários subsistemas de saúde quando o tempo de espera para o Serviço Nacional de Saúde é longo.

A associação acompanha os doentes desde a procura de informação até ao pós-operatório, disse Marisa, que pesa agora 77 quilos, um “peso ótimo” para o seu 1,74 metro de altura.

Nas vésperas de se assinalar o Dia Mundial da Obesidade, Eduardo Lima Costa apelou às pessoas com excesso de peso para procurar “o mais cedo possível ajuda”, mas salientou que “ninguém vai tarde demais”.

“Existem tratamentos customizados adaptados a cada uma das pessoas, rapidamente eficazes, seguros e sustentados no tempo”, disse, aconselhando as pessoas a procurar equipas multidisciplinares dedicadas a este problema.

Neste momento, disse, “não pedimos a nenhum doente que faça sacrifícios. Tem que ter bom senso, fazer um programa de exercícios e fazer uma dieta adequada, mas a própria cirurgia já altera a relação que a pessoa tem com os alimentos e torna as coisas muito mais fáceis”.

“Durante muito tempo ficamos reféns do sucesso inicial da banda gástrica, que neste momento é absolutamente histórica, e agora as pessoas já perceberam que há técnicas que dão muito melhor qualidade de vida às pessoas”, disse, adiantando que 3% dos europeus já foram operados.

LUSA/HN

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