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Eletrovulsivoterapia: os choques eléctricos fora dos filmes

Acredito que há um momento no percurso da formação de um Psiquiatria que é marcante – a primeira vez que têm um doente que faz um tratamento eficaz com Eletroconvulsivoterapia (ECT). Não são muitos doentes porque é um tratamento que se reserva como último recurso. A diferença é tão grande que é impossível de esquecer. A noite do dia é a única expressão que me ocorre para descrever o momento como o lembro hoje.

Uma senhora de 45 anos, uma doença bipolar grave. No último episódio de mania que a levou ao internamento onde a observei pela primeira vez, o humor teimava em não ceder à medicação. A senhora estava eufórica, a sua energia parecia ilimitada. Estava constantemente em movimento, falava rapidamente com todos os que apareciam naquela ala, o tom de voz era sempre alto. Era impulsiva, estava muito desorganizada e a dificuldade em dormir mantinha-se. Os seus comentários tão espontâneos como inusitados e sem filtros não se refreavam com o desconforto de ninguém. Um dia, teve que ser retirada do gabinete durante uma entrevista médica comigo depois de me ter tentado despir o vestido que levava nesse dia porque queria ver a etiqueta. Também queria um, “era o vestido mais bonito que alguma vez tinha visto”.  Foi pelo corredor de braço dado com os dois enfermeiros que a levavam a cantalorar “egoísta, egoísta, quer o vestido lindo só para ela” e esta cantoria cujo ritmo ficava no ouvido durou a manhã toda. Este é o impacto de uma doença bipolar não tratada e esta imagem que vos faço é importante para passar a ideia da urgência que sentimos em controlar estes sintomas cuja permanência têm um impacto real para o cérebro. Esta atividade elétrica cerebral além da conta tem sérias consequências negativas se não for tratada adequadamente. O internamento durou vários meses, sempre assim, com várias tentativas falhadas de ajustar a medicação. Existiam já efeitos secundários mas os sintomas, esses, permaneciam. A senhora saiu para o tratamento pela manhã e, quando regressou, cumprimentou-me no corredor mas eu não percebi de imediato que era a mesma doente com que eu me tinha vindo a familiarizar nos últimos meses.

A ECT é rápida e é muito eficaz. Tem poucos efeitos secundários, menos que a medicação a maioria das vezes. Tem má fama, uma fama que vem de trás e está em todo o lado – nas conversas à mesa de jantar, nos filmes de terror, nos livros. A doente repetiu as sessões mais algumas vezes e acabou por ter alta para casa. Não teve qualquer efeito secundário digno de nota durante este período. As sessões foram sendo progressivamente mais espaçadas, já em casa.

Mais tarde, tive oportunidade de entrar e trabalhar na unidade do mesmo hospital onde se fazia e faz ECT. A ECT não doi e não estraga o cérebro. É feita com o doente a dormir e com um anestesista ao lado, numa sala de bloco operatório e o doente acorda, como depois de qualquer cirurgia, numa sala de recobro. Não se recorda de nada. Durante o procedimento, o doente é posto a dormir e é-lhe administrado um relaxante muscular, pelo que a convulsão que existe aparece apenas num gráfico que vai surgindo ao lado do doente. Tudo acontece rapidamente e num ambiente calmo. O doente está sempre monitorizado e há uma equipa médica e de enfermagem que garantem que tudo corre bem. A perda de memória é um efeito que pode surgir, é leve e transitório a maioria das vezes, e a grande melhoria dos sintomas que existem compensa este pequeno inconveniente. Podem surgir outros efeitos leves, como dores de cabeça ou dores musculares no próprio dia.

Escrever sobre a História da ECT é retroceder até 1934, na pessoa de Ladislas Joseph von Meduna, um médico húngaro, que conduziu as primeiras experiências na indução de convulsões repetidas (inicialmente com base em químicos) em doentes com esquizofrenia depois de reparar que os doente com Epilepsia tinham menos sintomas deste género.

O tratamento, como o conhecemos hoje, surge em 1937, ano em que Ugo Cerletti e Lucio Bini aperfeiçoaram este método de tratamento (que apesar de eficaz apresentava múltiplos efeitos secundários na altura) e passaram a utilizar a eletricidade como impulsora de convulsões. A ECT tornou-se, pela sua eficácia, num tratamento de primeira linha à data da sua criação, sendo, contudo, afastada a partir dos anos 50, com o surgimento dos primeiros medicamentos eficazes.

Permaneceu a má fama com que ficou e foi recuperada, apesar de toda a evolução que houve, apenas muitos anos mais tarde pela sua rapidez, eficácia e segurança.

Os doentes graves, os doentes que precisam de uma intervenção rápida porque estão em perigo de vida, os doentes em que os efeitos secundários da terapêutica são uma preocupação (por existirem contra-indicações ou pertencerem a grupos de risco – como grávidas e idosos) dependem deste tratamento para melhorarem.

Um artigo da médica Maria Moreno, especialista em Psiquiatria.

Fonte: Lifestyle Sapo

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