“Vi dois enfermeiros a cuidar de 57 doentes na Madeira”

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Leia a primeira grande entrevista da Enf.ª Ana Rita Cavaco, publicada na véspera de tomar posse como Bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

Ana Rita Cavaco, a nova Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, defende melhores salários, a especialização e uma ordem aberta a todos.

Vai tomar posse amanhã enquanto bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Quais são as grandes metas para o mandato?

Em primeiro lugar acabar com o afastamento das pessoas da Ordem, que se vê no número das que votam. As pessoas têm a ideia de que só serve para pagarem. Queremos que usufruam dos espaços da ordem e que sejam chamados a falar sobre o exercício da profissão, porque eles é que estão no terreno.

No plano estratégico a quatro anos, refere os baixos salários como uma prioridade. Isso não é competência dos sindicatos?

Acho prioritário as pessoas consciencializarem-se de que os enfermeiros têm ordenados muito baixos. É a própria OCDE a referir. E isso interfere com a prestação de cuidados, interfere diretamente. Se temos uma classe desmoralizada e que lida com pessoas, é verdade que isso vai afetar os cuidados. Tem de haver uma forma de conseguirmos alterar esta situação e à Ordem cabe dizer algo. Há enfermeiros que na maioria dos meses não levam mil euros para casa. É exigido muito e dado muito pouco.

Outra prioridade são as dotações seguras, com o número mínimo de profissionais por serviço. Isso nunca se cumpriu?

Esta é uma das reformas publicadas que não está a ser cumprida e que determina se os doentes estão em segurança. O número não é igual na urgência, bloco, centro de saúde ou psiquiatria mas também com o tipo de serviço onde estamos, as incapacidades dos doentes e a penosidade do que estamos a fazer.

Tem encontrado muitas situações de incumprimento?

Nesta campanha e já antes disso encontrei coisas absolutamente aberrantes, que nunca achei que fossem possíveis. Encontrei um serviço de medicina com dois enfermeiros para 22 doente no Hospital de São José. Era uma enfermaria de adultos, onde estão doentes mais dependentes, aqueles em que é preciso fazer tudo, do mais básico, como mudá-los de posição convenientemente para que eles não fiquem cheios de feridas pelo corpo todo, levantá-los, dar-lhes banho, comida, arranjá-los. Como é que dois enfermeiros podem fazer alguma coisa? Isto é ridículo. E ainda têm de estar atentos à medicação, porque se se enganam a culpa é do enfermeiro, que no fundo é quem organiza o serviço.

Houve mais situações como esta? O problema é geral?

Encontrei na Madeira um serviço de cuidados continuados com dois enfermeiros para 57 doentes. Nestas condições não sei se aceitava o turno, porque não posso ser responsável pelo que possa acontecer. Aqui temos pessoas muito dependentes. Foram tudo situações que vi em campanha e não só, mas sobretudo em 2015. Vi unidades em todo o país e em quase todas havia incumprimento das dotações.

O custo desta regularização seria elevado. Como se pode cumprir?

As dotações seguras têm de ser cumpridas. Vamos ter de fazer auditorias para verificar se existem. Há casos em que seria preciso aumentar os recursos para o dobro.

Outro problema é a falta de reconhecimento em termos de carreira e de especialização?

Os enfermeiros não são sequer técnicos superiores. É um dos temas mais preocupantes, porque depois lhes é exigido tudo. Nem toda a gente faria o que fazemos. Há mais profissões no sistema de saúde, mas esse conjunto vai e vem. Nós estamos sempre lá, mesmo ao nascer e morrer. Agora, uma coisa é nascer, que é um milagre, um a alegria, mas o morrer? Ninguém gosta de se confrontar com isso. Tem uma carga pesada e às vezes esquecem-se disso. Por isso digo que somos especiais no que fazemos. Por isso é que os enfermeiros estão tão zangados. O poder político podia ter feito algo sobre e não fez.

As negociações para a carreira não foram vantajosas?

Há uma nova carreira que nunca foi posta em prática e que não serve. O ministro só começou a pagar o valor-base de 1201 euros quando viu que estava a perder processos em tribunal. Tiveram quatro meses para o fazer. Por outro lado, a carreira acabou com o grau de especialista, que era pago. Todos sabemos e há estudos que defendem que exerçamos como especialistas, porque daí advém melhor prestação de cuidados. Mas não há nada nem ninguém que nos obrigue a ser se não pagarem. É justíssimo.

Que especialidades há e quais as necessárias? O programa define especialidades como otorrino ou competências para os idosos…

Agora temos médico-cirúrgica, saúde infantil, mulher e obstétrica, reabilitação, o doente crítico, que é nova, saúde comunitária. Tirando o doente crítico é o que temos há anos e se queremos prestar melhores cuidados temos de ter áreas específicas para responder à evolução, como o envelhecimento, cuidados continuados, paliativos, porque a sociedade nãos e preparou para uma população cada vez mais envelhecida, que vai entupindo a urgência. Temos de ter cada vez mais competências em áreas especializadas, como otorrino.

E isso com a aprovação da tutela?

Temos de definir qual o core de competências e isto tem de ser feito com as escolas. Há abertura da tutela mas é mais importante o papel das escolas, que vivem também da formação pós-graduada, porque o Ministério nem reconhece o grau de especialista…

Fonte: Diário de Notícias

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