Investigadores testam novo método de desinfecção para conter infecções hospitalares

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Nova metodologia de desinfecção de superfícies hospitalares vai ser testada na Unidade de Queimados do Hospital de São João. Objectivo é diminuir o risco de infecção, sobretudo por microorganismos multirresistentes, em doentes críticos.

Imagine-se um quarto numa unidade de cuidados intensivos, por onde passam enfermeiros, médicos, auxiliares, funcionários de limpeza. Além do doente que ali pode estar várias semanas ou meses. Todos tocam no puxador da porta, no interruptor da luz, nos monitores de sinais vitais – limpos todos os dias a pano – e uma pequena carga microbiana vai-se acumulando de dia para dia à medida que o doente permanece internado. Lavam-se as mãos, usam-se máscaras e toucas, muda-se o desinfectante com regularidade. E mesmo assim é praticamente impossível que um espaço como este tenha uma taxa de infecção nula.

Mas há um entendimento entre uma equipa de investigadores do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e sediado na Universidade do Porto, de que é possível (e preciso) ir além dos métodos convencionais. Por isso, vão começar a testar uma estratégia de desinfecção de superfícies hospitalares usando peróxido de hidrogénio – um vapor húmido com eficácia de desinfecção comprovada – na Unidade de Queimados do Hospital de São João, no Porto.

As infecções hospitalares, especialmente as provocadas por microorganismos (bactérias, fungos, vírus) patogénicos multirresistentes a fármacos, são um dos pontos nevrálgicos dos serviços de saúde modernos. Os dados da Direcção-Geral da Saúde demonstram-no: as mortes na sequência de infecções hospitalares por bactérias multirresistentes podem chegar às três por dia em Portugal, mais de 1100 por ano. O país assistiu também a um agravamento, segundo os últimos dados (2016), da Klebsiella pneumoniae, bactéria resistente a alguns antibióticos de fim de linha (carbapenemos).

“Os microorganismos multiplicam-se muito depressa, são muito inteligentes e transmitem-se a grande velocidade entre as pessoas, das pessoas para o ambiente, e permanecem no ambiente”, explica Acácio Rodrigues, co-coordenador do projecto. Em quartos ocupados previamente por doentes infectados ou colonizados, o risco de infecção pode chegar aos 73%, repara o também coordenador da unidade de queimados do São João. Assim, ainda que se eliminem as principais causas de transmissão, se escaparem pequenos reservatórios de bactérias, estas rapidamente se multiplicam e recolonializam.

Quase esterilizar o quarto
O projecto passa pela implementação um sistema automático de vaporização de peróxido de hidrogénio – que quando dissolvido em água tem o nome comercial de água oxigenada – nas superfícies com que os doentes contactam. Ao fim de uma vaporização em ciclos curtos diários de cinco a 15 minutos, “o ambiente fica durante umas horas ou durante uns dias perfeitamente amicrobiano”, salienta Acácio Rodrigues.

A novidade não é a utilização do peróxido de hidrogénio neste contexto, mas a sua aplicação à rotina hospitalar. Hoje esta solução é sobretudo usada em situações de desinfecção terminal, ou seja, quando o doente tem alta ou há um surto infeccioso. É assim maioritariamente por questões logísticas: o ambiente tem que estar fechado, não pode haver doentes no quarto, dado que as concentrações se situam em níveis tóxicos até uma hora após a vaporização.

Para o integrar na rotina, há que aproveitar os períodos de ausência, em que os utentes saem para tratamentos, exames ou cirurgias – em que, aliás, já se faz a higienização mais profunda dos quartos. Antes e depois desta limpeza convencional e após a vaporização, os investigadores fazem uma avaliação microbiana do espaço. Ao longo de 36 meses, querem perceber quais as repercussões deste método na carga microbiana e qual o seu custo-benefício: Qual o impacto na taxa de infecção do serviço? E os seus efeitos nos gastos com antibióticos?

Em ensaios preliminares, realizados na mesma unidade durante um ano, “o sistema mostrou-se extremamente eficaz”, afirma Acácio Rodrigues, que também dirige o Laboratório de Microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). “A vaporização é capaz de quase esterilizar o quarto.” O que é particularmente relevante em unidades de doentes críticos para quem, após a fase aguda, as infecções hospitalares são a principal ameaça.

As condições de partida nesta unidade de queimados são, contudo, diferentes das da maioria das unidades hospitalares. O serviço tem uma taxa de infecção, nos momentos mais críticos, nunca superior a 4%, “valor inferior às médias europeias em situações semelhantes”, afirma o coordenador da unidade.

O anestesiologista, professor na FMUP e investigador do Cintesis Luís Cobrado é o investigador principal neste projecto, financiado em 212 mil euros pelo Portugal 2020.

Onde falham os métodos convencionais?
Em paralelo com esta dimensão clínica, o projecto engloba uma “investigação laboratorial exaustiva”. Importa avaliar se, perante as concentrações de peróxido usadas nestes ciclos curtos, os microorganismos desenvolvem resistência como acontece, ao fim de dado período de tempo, perante os antimicrobianos, antibióticos e desinfectantes.

Mas o que falha afinal nos métodos convencionais de desinfecção? Estudos, citados pela equipa de investigadores, “demonstram que 60% das superfícies de elevado contacto próximas do doente permanecem contaminadas após higienização manual”. O método tem fragilidades: o pano pode ter mais ou menos desinfectante, estar mais ou menos tempo em contacto com a superfície. O balde e a esfregona, quando usados em divisões diferentes, espalham bactérias de uns lugares para os outros. Além da resistência que estas adquirem aos desinfectantes, sendo preciso, regulamente, mudar o princípio activo.

O método agora em investigação, usando “um vapor húmido, que se espalha, permite desinfectar tanto a superfície superior de uma mesa como a inferior”, ressalva Acácio Rodrigues. E chega a locais difíceis de limpar. Além de ser aplicável noutros hospitais, diz o investigador, esta técnica pode abrir a porta a uma desinfecção mais eficaz, por exemplo, em lares e centros de dia, escolas e cabines de avião.

Fonte: Pùblico

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