OS RELACIONAMENTOS AMOROSOS E A ENFERMAGEM (perspectiva sociológica- ou talvez não- mas que sobretudo faz pensar.)

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Num relacionamento amoroso, temos um alguém que está, ou esteve, na vida de outro alguém, que de alguma forma lhe conferiu ser: solteiro, casado, divorciado, viúvo.

Assim sucede no casamento do enfermeiro com a sua profissão.

Vejamos bem:

Solteiro, quando ainda se está a enamorar o curso e a estudar, para concluir a licenciatura; está-se na fase de conhecer a profissão e perceber se realmente a queremos aceitar, e se se encaixa na nossa vida, com tudo o que ela tem dentro de si;

Casado, enquanto se mantém a relação de amor e compromisso com todas as obrigações legais e vinculativas. Nomeadamente, tal como num relacionamento, há papéis que a definem, há a obrigatoriedade de sustentar um compromisso; há uma procura para que do melhor modo a relação flua no seu dia a dia e se torne proveitosa para ambos;

Divorciado, quando a meio do percurso, já depois do exercício, se percebe que a profissão já não corresponde nem faz parte daquilo que se pretende para a vida; assim sendo, há uma desvinculação, em que o próprio enfermeiro pode enveredar por outras áreas de exercício, até em outras áreas opostas;

Viúvo, quando o término da relação é abrupto, há incapacidade não decidida como num divórcio, e o profissional exerce a sua profissão com os lamurios de quem sente que a ligação morreu dentro de si, mas se sucumbe a exercê-la tal como ela se vai apresentando, ainda que se sinta num mundo “à parte”, desvinculado, do que a relação atualmente lhe pode dar e da existência concreta dessa ligação tal como a conhecia;

Pode-se entrar num relacionamento, com a cabeça em outro, em outra profissão, mas como o percurso de vida fez com que se tivesse determinada média, determinado caminho que só permitisse a entrada nesta profissão, entrar-se numa aceitação e se prosseguir o relacionamento.

Podem passar-se anos a comparar como seria a vida se o encontro tivesse sido com a primeira escolha – de outra profissão- com quem queríamos e do modo como sonhávamos.

Nesse mergulhar de um sonho que não se realizou, pode-se ter uma sensação de compromisso para com a relação atual e deixarmo-nos estar, ou ter sempre uma sensação de que é uma situação intermédia para chegar algures a outro lugar que sempre se quis mais ainda não se conseguiu. Ainda que injusto, por vezes essa perspetiva afeta a relação a cada dia,  e afasta a essência do gesto que se tem, quase como se em cada ato se agisse de modo desligado e com desamor para com o exercício pleno.

Num relacionamento amoroso, há os altos e baixos. Há aquele entusiasmo inicial da conquista, há o “fogo” da paixão, que por vezes pode ter dificuldade em ser sustentado ao longo da relação.

De inicio há muito o “acreditar”. Como se investe em tempo, espaço e matéria, se tem objetivos de se organizar a vida com determinados propósitos. Se fazem todos os tipos de cursos e se aprimora a vida com um fulgor que quase dá a entender que o pico da montanha é ainda muito pouco para a energia da caminhada e para onde se pretende chegar.

Pode querer-se aprofundar a relação e investir nela com cursos, pós graduações e mestrados, doutoramentos.. mini cursos, e fazer até terapias para que a relação se aprofunde e se torne especial…

Até um dia em que se percebe que ou a relação tem tudo para funcionar dentro do que nos foi dado a viver nela, ou pura e simplesmente todo o investimento feito nela, nos mantém vazios.

Aí encontramos em nós motivos a favor e contra para continuar o caminho. Ou temos a sorte da coisa fluir e atingirmos aqueles patamares de conforto que nos satisfazem, no ser, no estar e no  retorno,  ou somos daqueles que se sentem insatisfeitos na relação e percebemos que é o momento de decidir fazer “alguma coisa” para além de verbalizar os sentimentos negativos que em muito passam por nos lembrarmos de um possível divórcio.

Também encontramos os que estão a favor e contra este relacionamento.

A desfavor podemos ter os pretendentes a amantes,  os que não querem que a relação continue, para que se tornem o número 1, por despeito ou ambição, por posse em relação a alguém,  e aí fazem de tudo para enegrecer a relação aproveitando cada migalha para criarem conflito e chamarem a atenção. Usam de tudo ao alcance para fazer “memes” e ridicularizar o que ambos conseguem no relacionamento, para o desvalorizar e se sobrevalorizarem, quase como que se os fins justificassem os meios…

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Também temos aqueles que não fazem a mínima ideia do que se passa, mas gostam de entrar na discussão e falar com autoridade sobre tudo;  e os que têm dificuldade e não suportam ver alguém de bem com o mundo e com a sua forma de viver o relacionamento, e pretendem atazanar todo o discurso, investimento e projeção que veem que os parceiros estão a alcançar.

Por vezes, é dentro da própria família alargada, que se encontram os opositores: nos semelhantes profissionais, se encontram os que se opõem ao relacionamento saudável e o incutem à descrença, à dificuldade.

Contudo, também os há realizados, felizes, bem alocados e posicionados, confortavelmente, que conseguem viver uma relação justa e tirar partido do investimento que foram fazendo ao longo dos anos.

Quando nos enamoramos de alguém, podemos entrar no relacionamento com a célebre frase de que o passado não interessa e é no agora que se constrói o futuro.

Vejamos, essa ideia de ignorar o passado é muito bonita até ao dia “X”: o dia em que se percebe que alguma coisa não funciona bem no relacionamento e nos questionamos o que é que terá acontecido para trás na vida da pessoa e o que terá feito ela ser o que é hoje, para que sintamos as dificuldades que sentimos.

É nesse momento que percebemos, que por mais voltas que dês, o passado faz parte da sua vida e da sua história. Aí, no amadurecimento que ganhamos de anos em convívio, num determinado relacionamento, começamos a perceber porque é que na escola nos deram Nightingale e Benner, entre outras teóricas, para ler e porque é que ler sobre a história das coisas é relevante.

O modo como surgiu a enfermagem e como ela se foi constituindo, é cheio de marcas e de cicatrizes, que a tornaram no que é hoje. Mas é no passado e no modo como começou, que se identifica, logo à partida que é na raiz que está “o problema”.

Temos uma relação desigual entre aquilo em que a Ordem acredita, faz, investe com justiça e primor, com todo o ideal que de longe, como enfermeiros, e acredito, que a maioria da profissão e utentes vejam, saiba ser para valorizar (especialidade, competências acrescidas); mas depois, temos uma visão politico- social que se desvincula de ter qualquer interesse na profissão.

Na perspetiva social e talvez governamental, há confusão em todas as áreas que tocam o exercício da enfermagem, pois a enfermagem é TUDO e ao mesmo tempo se encaixa num conhecimento a tal ponto científico e holístico, que deixa transparecer uma omnipresença cuja diferença só é mesmo sentida pela pessoa que necessita dos cuidados.

E o relacionamento torna-se um misto em que não há capacidade de escuta, há desinteresse total até alguém precisar a sério de um enfermeiro, e se vê nitidamente uma parte a construir muitos castelos e a valorizar muitos pormenores, para engrandecer os que fazem parte da profissão, mas do outro lado, as pessoas que deveriam complementar a relação para que ela chegasse a um resultado efetivo, visível e transformador,  que favorecesse o conjunto,  passassem a vida ao telemóvel no seu mundo, sem capacidade de diálogo e com o foco totalmente sem qualquer tipo de abertura para qualquer direção. Aliás, com abertura para a direcção “nenhures”.

Não há dialética entre a enfermagem e os governantes. Mudar uma história demorará anos, ainda que seja de primor tentar e fazer o tudo que estiver ao alcance para lá chegar. É suado e requer muito auto sacrifício; muita força de vontade; muita ausência de deslumbre quando se tem esse poder social que faz mudar alguns aspetos.

A escolha está em ver a situação como ela se apresenta e perceber qual o papel de cada um nesta relação – qual o papel que cada um se vê a assumir.

Se mantiver o casamento terá que aceitar a bagagem que a profissão traz e perceber que o padrão social, as mentalidades podem apenas mudar daqui a algumas gerações.

E essa pelo menos, deve ser a consciência para que  possamos decidir e fazer sempre o que individualmente nos faz mais felizes. Essa onda de felicidade e amor próprio se espalhará para o coletivo e só assim faz sentido viver.

Ainda assim, mudar é possível… e se por alguns momentos parecer “impossível” é porque nas mãos de quem luta pelos seus direitos, só precisa de mais 5 minutos para um dia resultar…

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